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terça-feira, 10 de novembro de 2015

COLUNA DO LEITOR - O ZÉ JÁ NÃO É MAIS O MESMO

Por Edmilson Alves Peixoto*


[Sensacional, fantástico! Sem dúvida, a melhor crônica que já pintou por aqui. Quem quiser a tradução (interpretação) é só se manifestar.]

            Principiava o mês de novembro. O céu limpo não anunciava mais o inverno, quando chegou o dia, o grande dia em que o Zé finalmente faria a apresentação das representações sociais em versos sonoros para o ápice dos degustadores do estilo.

            Meu companheiro, apreciador de uma mistura de fungos, com um tipo de cereal e engatadeira de sabor amargo, bastante aromática juntados à água, apesar de ser encontrada com facilidade no setor comercial, sempre tinha um estoque em casa e consumia com uma certa frequência como se seguisse uma prescrição médica, tendo neste dia tomado doses excessivas da mistura, inclusive, nos momentos que antecederam ao evento.

Saiu de casa acompanhado da família e de um escritor que faria menção ao ídolo numa crônica exclusiva em opúsculo próprio e com dedicatória específica para Zé. Chegaram à noite para acompanhar muito cedo do dia subsequente a preciosidade da cultura musical que era degustada como arte e celebrar o momento que marcaria a transitoriedade da passagem à celebridade mencionada em capítulo à parte para seu conhecimento.

Apreciadores implacáveis, assistia a tudo na praça com muita tranquilidade mesmo sem milho e pombos, apenas transitavam entre estruturas expositivas de negócios ali instaladas, inclusive com muitas misturas capazes de atuar no Sistema Nervoso e modificar qualitativamente a atividade cerebral e perturbar a mente, acondicionadas em latas e garrafas, de marcas diversificadas e bastante disputada pelos seus adoradores.

Nosso companheiro era um destes adoradores que consumia compulsivamente sem se preocupar com a mente e muito menos com a fala, pois sabia que o poder da sua mente era toda sua fortaleza, mas passo a passo inconscientemente produzia um dialeto novo da generalidade linguística prevalecente, mas tornava-se totalmente estranha e sem tradução.

Agora sim, Zé estava prestes a chegar. Um quinteto se formou para aguardar em local privilegiado de acesso raro, buscando ocupar os espaços, mas lá já haviam outras manifestações de especificidades que eram passíveis de atendimento por garantia universal dos direitos humanos. Juntou a eles o literato que escrevera a história do Zé pelas suas próprias mãos e nosso companheiro eufórico de mente confusa querendo um lugar ao sol naquele início de madrugada. Estava mesmo muito confuso. Mas, ainda tinha o sol como amigo entre outros amigos que o acompanhavam para dar um suporte em áreas de risco extremo.

Quando de repente, não mais que de repente surge Zé, bem mais velho que seu velho pai e se acomoda em um espaço fechado e reservado que havia sido preparado para sua acolhida, e uma meiga senhorita veio nos dizer que somente o nosso escritor podia acessar o recinto. Mas, nosso escritor não poderia ir só, seu fotógrafo o seguiu para registrar o momento do ritual da passagem e aproveitar para se registrar também.

Mas o nobre companheiro, do lado externo imaginava em seu novo dialeto que o homem criou asas e parecia que pelo menos naquela casa, ele não podia entrar. Quando Zé surge à porta e solicita-se então um retrato com um adorador fanático dele que o aguarda. Fora concedido.

De braços abertos o ídolo o recebe, mas se frustra ao perceber que havia devaneios tolos a te torturar quando se confunde o Zé com Zé e sentiu-se nocauteado e as fotografias recortadas amiúde, ocorrendo um disparo de balas não de canhão, mas verbais, sentindo-se uma violeta velha sem colibri e por pouco precisaríamos usar uma camisa de força para conter o Zé.

Ai só Freud para explicar o que ocorrera com o cidadão. Ou nós, pobres mortais, podemos supor que Zé talvez tenha entendido erroneamente naquele dialeto estranho uma mudança de sua própria configuração e não tenha concordado, uai! No mais, estou indo embora!

*Sociólogo, de Canaã.

3 comentários:

  1. BAITA CRONICA.Vou reler outras vezes a muide.Mesmo assim terei certeza de estar degustando uma leve brisa de sobriedade sempre pela primeira vez.

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  2. Ó o cara meu! Misturou sociologia com poesia e deu filosofia. Beleza pura.

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