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quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

ATENDIMENTO DAS OPERADORAS DE CELULAR É UM PESADELO EM PARAUAPEBAS

Nos últimos dias a população se mobilizou em vários municípios do Pará contra os abusos cometidos pela Rede CELPA. Agora está na hora de voltar nossas baterias contra as operadoras de celular que operam por aqui. O número de reclamação já se assemelha à concessionária de energia e os abusos cometidos contra os clientes chegam a ser inacreditáveis. 
Nas lojas das operadoras aqui em Parauapebas, nota-se um tremendo despreparo e desrespeito aos clientes. Em pleno século XXI, é inacreditável que empresa que trabalha com tecnologia, age com prática ultrapassada e arcaica, fazendo do cliente uma peça descartável. E quando o atendimento é pelo call center, aí é um Deus nos acuda. A impressão que dá é que os atendentes são treinados exaustivamente para TIMenrolar e torrar a paciência do cliente e fazê-lo desistir de qualquer reclamação ou solicitação de serviço. É uma tal de musiquinha chata, propaganda, espera, espera...OI! E isso quando a ligação não cai. É caso de polícia. E adianta reclamar na ANATEL? Essa, age como agente de defesa das empresas telefônicas. A única solução será ficar de olho VIVO e organizar mobilização dos usuários para expor os péssimos serviços e enquadrar essas empresas que insistem em desrespeitar os clientes.
Durante a próxima semana, vamos expôr aqui alguns casos, citando o nome das operadoras. Se você já teve alguma experiência negativa com sua operadora, escreva e envie pelo whatsapp (94) 991754173.
É Claro que publicaremos também elogios às empresas que se destacam pelo bom atendimento e eficiência na prestação de serviço.

domingo, 2 de dezembro de 2018

UM RESUMO SOBRE A DITADURA PARA A NOVA GERAÇÃO

Às favas com os escrúpulos
O Brasil não conta a sua história. Não fez um filme que retratasse a ditadura

O Estado de S. Paulo
01 Dezembro 2018
Tudo começou com o Ato Institucional Número 1 (AI-1), baixado pela Junta Militar em 9 de abril de 1964. Cem personalidades, entre militares, deputados, governadores, economistas, políticos, jornalistas, que trabalhavam para o governo deposto, foram presos, exilados e cassados.
O País teria eleições gerais em 1965. Castelo Branco prometeu cumprir o calendário. Sabia-se por uma pesquisa do Ibope não divulgada que Juscelino Kubitschek ganharia com folga. Baixaram o AI-2: mais cassações, partidos políticos extintos e intervenção no Judiciário. Em 1966, o AI-3: eleições para governadores, prefeitos das capitais, estâncias e cidades de segurança nacional canceladas. O AI-4 revogou a Constituição de 1946 e proclamou outra. Até o golpe final, o AI-5, que faz 50 anos.
Em setembro de 1968, um quebra-quebra na UnB entre polícia e estudantes sobrou para deputados da oposição, que foram ao Congresso denunciar. Em 2 de setembro, o deputado Márcio Moreira Alves, Marcito, perguntou se Exército era um “valhacouto de torturadores?”. Foi almoçar. Voltou e, em referência a Lisístrata, de Aristófanes, que assistira no Teatro Ruth Escobar, comédia grega em que mulheres de várias cidades, cansadas de perder maridos e filhos numa guerra de mais de 20 anos, organizaram uma greve de sexo, sugeriu que brasileiras que se relacionassem com militares as imitassem.
O repórter de Brasília Rubem Azevedo Lima achou inusitada a comparação e publicou nota na Folha de S. Paulo. Deputado carioca bon vivant abriu uma crise no governo. O ministro Gama e Filho pediu que o Congresso abrisse processo contra o deputado. Em 11 de dezembro de 1968, por 216 a 136, votou contra.
O governo fechou o Congresso, e deputados tiveram que atravessar um corredor polonês de soldados com baionetas. Marcito partiu para o exílio com a mulher. Às 3 da tarde de 12 de dezembro de 1968, presidente Costa e Silva, chamado de “molengão” pelo ministro do Interior, general da linha-dura Albuquerque Lima, chegou ao Palácio das Laranjeiras e convocou o Conselho de Segurança Nacional.
Na noite de quinta-feira do dia 12 de dezembro de 1968, escutou relatos do general Garrastazu Médici, do SNI: uma luta armada estava em andamento; um sem-número de assaltos a bancos foram comandados pela ALN, de Marighella; em junho a VPR lançou um carro-bomba contra o quartel-general do 2.º Exército; na Cobrasma, em Osasco, 10 mil trabalhadores cruzaram os braços; a morte do estudante secundarista Edson Luís num confronto com a polícia provocou a Passeata dos Cem Mil; comunistas promoveram quebra-quebra no comício do governador Abreu Sodré (SP); em Ibiúna 920 foram presos num congresso clandestino da UNE.
Então, listou casos de indisciplina na tropa: em setembro, sindicância apurou que o brigadeiro Burnier usaria o Para-Sar para atentados políticos; capitães reclamaram de salários baixos e lançaram manifesto em novembro. Médici quer a decretação do estado de sítio. Costa e Silva diz: “Poder é como salame, toda vez que você o usa bem, corta só uma fatia, se usa mal, corta duas, mas se não usa, cortam-se três, e, em qualquer caso, ele fica sempre menor”.
Souberam do editorial duro escrito por Julio de Mesquita Filho, Instituições em Frangalhos, que o Estadão rodaria na madrugada. Uma operação militar foi desligar as rotativas do jornal. No dia 13 de dezembro, o jornal é impedido de circular.
À noite, Costa e Silva viu em Laranjeiras um faroeste com ministros mais íntimos. Soube que o general, comandante da Vila Militar, João Dutra de Castilho, estava rebelado. Na madrugada e durante todo o dia 13 de dezembro, no bucólico palácio, foi concebida a ditadura na ditadura, o golpe no golpe.
Na manhã do dia 13, Gama e Silva revisou as cinco páginas do AI-5. Generais foram à tarde ao QG do ministro Lira Tavares. General Muricy, chefe do Estado Maior do Exército, achava que “precisavam começar tudo de novo”. General Muniz de Aragão: “Se o presidente está vacilante, que seja atropelado”. Decidiram que Orlando Geisel, chefe do Emfa, iria a Laranjeiras expor a situação.
Geisel chegou com comandante do Primeiro Exército, Syseno Sarmento. Costa e Silva não os recebeu, subiu para o primeiro andar e se trancou. Ficou ouvindo música, esperando o vice, Pedro Aleixo. Às 16h, desceram para a reunião no grande salão e leu o AI-5. “Ou a revolução continua ou se desagrega”, disse. Pedro Aleixo discordava do ato. O ministro do Exército Lyra Tavares falou da grande tensão no País. Magalhães Pinto, chanceler, falou que o direito do cidadão deveria ser resguardado. Delfim Neto, plenamente de acordo com o Ato, disse que não era suficiente e deveria se estender para a economia. Jarbas Passarinho chamou a reunião de histórica e disse a frase que a marcou: “Às favas todos os escrúpulos de consciência”.
O locutor da Agência Nacional, Alberto Curi, o leu na TV. Lacerda, JK, Sobral Pinto foram presos, 66 professores, como Caio Prado, FHC, Florestan Fernandes, foram expulsos das universidades, Marília Pêra foi trancada num mictório de quartel, Caetano e Gil foram presos em São Paulo, tiveram suas cabeças raspadas e foram expulsos do País. Chico Buarque, Vinicius de Moraes, Raul Seixas, Geraldo Vandré, os diretores de teatro Augusto Boal e Zé Celso se exilaram. O Congresso Nacional ficou fechado até 21 de outubro de 1969.
Um homem só, o general, poderia intervir no Congresso, Assembleias, Câmaras de Vereadores, Poder Judiciário, Estados e municípios, suspender os direitos políticos de qualquer cidadão, cassar mandatos eletivos, decretar o confisco de bens e o estado de sítio. Instituiu censura e o fim do habeas corpus.
Escrevi essa sinopse de um longa há três anos, baseado em Elio Gaspari, claro, e muita pesquisa. Não saiu do papel. O Brasil não conta a sua história. Não fez um filme que retratasse a ditadura, digno do Oscar, como História Oficial, Segredo dos Seus Olhos, No, Missing, Estado de Sítio, Uma Noite de 12 Anos, entre outros. Não por outra, alguns a querem de volta.

 Marcelo Rubens Paiva

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

APAIXONEI-ME POR UMA PROSTITUTA! E AGORA?!

No começo tudo era um sonho. Ela foi chegando de mansinho, foi me cercando de carinho, cuidados e promessas de uma vida farta.

Sua voz rouca, seus lábios de mel, suas mãos de veludo, seu corpo juvenil... Tudo era um convite irrecusável para um mergulho sem volta no lago do amor.

Quando meus olhos cruzaram com os seus, senti o coração palpitar precipitadamente, um torpor dominou meu rosto, uma vertigem fez o mundo girar e tive a sensação que meus pés perderam o contato com o chão. Agarrei-me a ela como a única tábua de salvação num oceano infindo. Aquele olhar profundo, feito duas bolas de puro mistério, invadiu minha alma pura e sem pedir licença, se apossou do meu coração sem frescura.

De um lado meus instintos racionais me pediam para fugir da armadilha; por outro lado, meus sentimentos pediam para me entregar sem medo. Foi uma luta hercúlea, onde a emoção venceu a razão. Quando menos percebi, já estava completamente envolvido, dominado, subjugado, como uma aranha presa em sua própria teia, que não luta, não resiste, apenas assiste como dominado por um poderoso ópio.

No começo tudo era um sonho. Ah, que sonho! Aos poucos, tudo foi se transformando num pesadelo.

Aquela ilusão de que eu era único, especial, importante, insubstituível foi caindo por terra. Percebi que eu era apenas mais um nessa engrenagem que seria usado, mastigado e cuspido sem piedade. 

Suas carícias agora eram arranhões que deixavam cicatrizes eternas; seus olhos que antes sugeriam mistério, agora exprimiam desilusão, desesperança e medo. Suas formas sensuais foram se transformando num corpo disforme, infame e medonho. Será que não fora sempre assim e eu não percebi por estar cego pelo amor? - Pensei confuso.

Tentei fugir da armadilha. Tarde demais. Já estava completamente dominado, dependente, subjugado, viciado, fragilizado. 

Pior do que suportar as dores desse amor insano, é suportar a opressão e o domínio do seu cafetão. Um verdadeiro carrasco frio, dominador, cruel e violento. Não bastasse ela, que suga toda minha energia, ele me arranca toda a dignidade, toda a possibilidade de humanidade. Dita ordens, cada uma mais absurda que a outra, impõe novas e arbitrárias resoluções, vocifera, esbraveja e humilha. Como uma porca gorda que já não anda, uma velha faca cega que há muito não corta, o cafetão vai roubando minha energia, minha saúde e, exigindo cada vez mais sacrifício para manter o seu poder.

Me debato, me arrebato, grito, esperneio... tudo em vão. Já atravessei a linha do caminho sem volta. Estou completamente dominado por essa prostituta e seu poderoso cafetão. Agora só me resta esperar o momento onde não servirei mais aos seus propósitos, e finalmente, serei cuspido. Pelo menos, restará a ilusão do "enfim livre". 

Mas afinal, quem é essa prostituta? Quem é esse cafetão? Ela se chama EDUCAÇÃO e ele se chama ESTADO.


PS. Com esse texto não estou denegrindo a educação nem desmerecendo as prostitutas. Sou professor da rede pública há 32 anos e sou completamente apaixonado por minha missão de educar. Apenas ofereço uma crítica à forma como os governantes tratam a educação e os professores.

Parabéns a todos os educadores que, apesar das adversidades, insistem nessa nobre missão. 

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Sua tia não é fascista, ela está sendo manipulada

 Você se pergunta como um candidato com tão poucas qualidades e com tantos defeitos pode conseguir o apoio quase que incondicional de grande parte da população?

 Você já tentou argumentar racionalmente com os eleitores deles, mas parece que eles estão absolutamente decididos e te tratam imediatamente como inimigo no mais leve aceno de contrariedade?

 Até sua tia, que sempre foi fofa com você, agora ataca seus posts sobre política no facebook?

 Pois bem, vou contar uma história.

 O principal nome dessa história é um sujeito chamado Steve Bannon. Bannon tinha uma visão de extrema direita nacionalista. Ele tinha um site no qual expressava seus pontos de vista que flertavam com o machismo, com a homofobia, com a xenofobia, etc. Porém, o site tinha pouca visibilidade e seu sonho era que suas ideias se espalhassem com mais força no mundo.

 Para isso, Bannon contratou uma empresa chamada Cambridge Analytica. Essa empresa conseguiu dados do facebook de milhões de contas de perfis por todo mundo. Todo tipo de dado acumulado pelo facebook: curtidas, comentários, mensagens privadas. De posse desses dados e utilizando algoritmos, essa empresa poderia traçar perfis psicológicos detalhados dos indivíduos.

 Tais perfis seriam então utilizados para verificar quais indivíduos estariam mais predispostos a receber as mensagens: aqueles com disposição de acreditar em teorias conspiratórias sobre o governo, por exemplo, ou que apresentavam algum sentimento de contrariedade difuso ao cenário político atual.

  A estratégia seria fazer com que esse indivíduo suscetível a essas mensagens mudasse seu comportamento, se radicalizasse. Como as pessoas passaram a receber as notícias e a perceber o mundo principalmente através das redes sociais, não é difícil manipular essas informações. Se você pode controlar as informações a que uma pessoa tem acesso, você pode controlar a maneira com que ela percebe o mundo e, com isso, pode influenciar a maneira como se comporta e age.

 Posts no facebook podem te fazer mais feliz ou triste, com raiva ou com medo. E os algoritmos sabem identificar as mudanças no seu comportamento pela análise dos padrões das suas postagens, curtidas, comentários.

 Assim, indivíduos com perfis de direita e seu tradicional discurso “não gosto de impostos” foram radicalizados para perfis paranóicos em relação ao governo e a determinados grupos sociais. A manipulação poderia ser feita, por exemplo, através do medo: “o governo quer tirar suas armas”. Esse tipo de mensagem estimula um sentimento de impotência e de não ser capaz de se defender. Estimula também um sentimento de “somos nós contra eles”, o que fecha a pessoa para argumentos racionais.

 Sites e blogs foram fabricados com notícias falsas para bombardear diretamente as pessoas influenciáveis a esse tipo de mensagem. Além disso, foi explorado também um sentimento anti-establishment, anti-mídia tradicional e anti “tudo isso que está aí”. Quando as pessoas recebiam várias notícias de forma direta, e não viam essas notícias repercutirem na grande mídia, chegavam à conclusão de que a grande mídia mente e esconde a verdade que eles tem.

 Se antes a mídia tradicional podia manipular a população, a manipulação teria que ser feita abertamente, aos olhos de todos. Agora, todos temos telas privadas que nos mandam mensagens diretamente. Ninguém sabe que tipo de informação a pessoa do lado está recebendo ou quais mensagens estão construindo sua percepção de realidade.

 Com esse poder nas mãos, Bannon conseguiu popularizar a alt right (movimento de extrema direita americana) entre os jovens, que resultou nos protestos  “unite de right” no ano passado em Charlottesville, Virgínia que tiveram a participação de supremacistas brancos. Bannon trabalhou na campanha presidencial de Donald Trump e foi estrategista de seu governo. A Cambridge Analytica trabalhou também no referendo do Brexit, que foi vencido principalmente por argumentos originados de fakenews.

 Quando a manipulação veio à tona, Mark Zuckerberg foi chamado ao senado americano para depor. Pra quem entendeu o que houve, ficou claro que a democracia da nação mais importante do mundo havia sido hackeada. Mas os congressistas pouco entendimento tinham de mídia social; e quem estaria disposto a admitir que a democracia pode ser hackeada através da manipulação dos indivíduos? 

 Zuckerberg estava apenas pensando em estabelecer um modelo de negócios lucrativo com a venda de anúncios direcionados. A coleta de dados e a avaliação de perfil psicológico das pessoas tinham a intenção “inocente” de fazer as pessoas clicarem em anúncios pagos. Era apenas um modelo de negócios. Mas esse mesmo instrumento pode ser usado com finalidade política.

 Ele se deu conta disso e sabia que as eleições brasileiras podiam estar em risco também. Somos uma das maiores democracias do mundo. O facebook tomou medidas ativas para evitar que as campanhas de desinformação e manipulações ocorressem em sua rede social. Muitas contas fake e páginas que compartilhavam informações falsas foram retiradas do facebook no período que antecede as eleições.

 Mas não contavam com a capilarização e a popularização dos grupos de whatsapp. Whatsapp é um aplicativo de mensagens diretas entre indivíduos; por isso, não pode ser monitorado externamente. Não há como regular as fakenews, portanto. Fazer um perfil fake no whatsapp também é bem mais fácil que em outras redes sociais e mais difícil de ser detectado.

 Lembram do Steve Bannon, que sonhou com o retorno de uma extrema direita nacionalista forte mundialmente? Que tinha ideias que são classificadas como anti minorias, racistas e homofóbicas? E que usou um sentimento difuso anti “tudo que está aí”, e um medo de os homens se sentirem indefesos para conquistar adeptos?

 Pois bem, ele se encontrou em agosto com Eduardo Bolsonaro. Bolsonaro disse que o Bannon apoiaria a campanha do seu pai com suporte e “dicas de internet”, essas coisas. Bannon é agora um “consultor eventual” da campanha. Era o candidato ideal pra ele, por compartilhava suas ideias, no cenário ideal: um país passando por uma grave crise econômica com a população desiludida com a sua classe política. 

 Logo depois de manifestações de mulheres nas ruas de todo o Brasil e do mundo contra Bolsonaro, o apoio do candidato subiu, entre o público feminino, de 18 para 24 por cento. Um aumento de 6 pontos depois de grande parte das mulheres se unir para demonstrar sua insatisfação com o candidato.

 Isso acontece porque, de um lado, a grande mídia simplesmente ignorou as manifestações e, por outro, houve um ataque preciso às manifestações através dos grupos de whatsapp pró-Bolsonaro. Vídeos foram editados com cenas de outras manifestações, com mulheres mostrando os seios ou quebrando imagens sacras, mas utilizadas dessa vez para desmoralizar o movimento #elenão entre as mais conservadoras.

 Além disso, Eduardo Bolsonaro veio a público logo após a manifestação e declarou: “As mulheres de direita são mais bonitas que as de esquerda. Elas não mostram os peitos e nem defecam nas ruas. As mulheres de direita têm mais higiene.” Essa declaração pode parece pueril ou simplesmente estúpida mas é feita sob medida para estimular um sentimento de repulsa para com o “outro lado”.

Isso não é nenhuma novidade. A máquina de propaganda do nazismo alemão associava os judeus a ratos. O discurso era que os judeus estavam infestando as cidades alemãs como os ratos. Esse é um discurso que associa o sentimento de repulsa e nojo a uma determinada população, o que faz com que o indivíduo queira se identificar com o lado “limpo” da história. Daí os 6 por cento das mulheres que passaram a se identificar com o Bolsonaro.

 Agora é possível compreender porque é tão difícil usar argumentos racionais para dialogar com um eleitor do Bolsonaro? Agora você se dá conta do nível de manipulação emocional a que seus amigos e familiares estão expostos? Então a pergunta é: “o que fazer?”

 Não adiante confrontá-los e acusá-los de massa de manobra. Isso só vai fazer com que eles se fechem e classifiquem você como um inimigo “do outro lado”. Ser chamado de manipulado pode ser interpretado como ser chamado de burro, o que só vai gerar uma troca de insultos improdutiva.

 Tenha empatia. Essas pessoas não são tolas ou malvadas; elas estão tendo suas emoções manipuladas e estão submetidas a uma percepção da realidade bastante diferente da sua.

Tente trazê-las aos poucos para a razão. Não ofereça seus argumentos racionais logo de cara, eles não vão funcionar com essas pessoas. A única maneira de mudar seu pensamento é fazer com que tais pessoas percebam sozinhas que não há argumentos que fundamentem suas crenças e as notícias veiculadas de maneira falsa.

 Isso só pode ser feito com uma grande dose de paciência e de escuta. Peça para que a pessoa defenda racionalmente suas decisões políticas. Esteja aberto para ouvi-la, mas continue sempre perguntando mais e mais, até ela perceber que chegou num ponto em que não tem argumentos para responder.

 Pergunte, por exemplo: “Por que você decidiu por esse candidato? Por que você acha que ele vai mudar as coisas? Você acha que ele está preparado? Você conhece as propostas dele? Conhece o histórico dele como político? Quais realizações ele fez antes que você aprova?”

 Em muitos casos, a pessoa tentará mudar o discurso para falar mal de um outro partido ou do movimento feminista. Tal estratégia é esperada porque eles foram programados para achar que isso representa “o outro lado”, os inimigos a combater.

Nesse caso, o caminho continua o mesmo: tentar trazer a pessoa para sua própria razão: “Por que você acha que esse partido é tão ruim assim? Sua vida melhorou ou piorou quando esse partido estava no poder? Como você conhece o movimento feminista? Você já participou de alguma reunião feminista ou conhece alguém envolvido nessa luta?”

 Se perceber que a pessoa não está pronta para debater, simplesmente retire-se da discussão. Não agrida ou nem ofenda, comportamento que radicalizaria o pensamento de “somos nós contra eles”. Tenha em mente que os discursos que essa pessoa acredita foram incutidos nela de maneira que houvesse uma verdadeira identificação emocional, se tornando uma espécie de segunda identidade. Não é de uma hora pra outra que se muda algo assim.

 Duas das mais importantes democracias do mundo já foram hackeadas utilizando tais técnicas de manipulação. O alvo atual é o nosso país, com uma das mais importantes democracias do mundo. Não vamos deixar que essas forças nos joguem uns contra os outros, rasgando nosso tecido social de uma maneira irrecuperável.

  P.S.: Por favor, pesquise extensamente sobre todo e qualquer assunto que expus aqui, e sobre o qual você esteja em dúvida. Não sou de nenhum partido. Sou filósofo e,  como filósofo, me interesso pela verdade, pela ética e pelo verdadeiro debate de ideias.


Texto de Rafael Azzi

domingo, 7 de outubro de 2018

O OVO DA SERPENTE

No início, era só uma pequena possibilidade, uma distração de alguns desavisados. 
A serpente está morta e bem lacrada no seu túmulo negro, restando somente uma triste lembrança - pensávamos. Mas desprezamos o seu ovo que repousava com segurança no velho pântano de lama negra. Abandonado desde os tempos de horror, jazia latente, pronto para eclodir, bastando para isso uma grande dose de veneno.
O veneno foi surgindo aos poucos, sem que déssemos a devida importância. No início, apenas alguns tolos, desprovidos de conhecimento, de consciência ou mesmo de vergonha. Aqui, acolá, outros foram se juntando e ampliando esse cortejo fétido disfarçado de marcha redentora. "O mito, o salvador da pátria, Deus, pátria, família..." - elementos de sedução espalhados pela chuva despretensiosa de fim de tarde disfarçavam o cheiro de putrefação que pairava no ar, confundindo com o cheiro de primavera. Agora já não era somente os desprovidos de idéias, pobres inocentes. Sem nenhum pudor, foi se juntando a madame, o doutor, o ateu, o reverendo e o pastor. Quem defendia a vida, de repente passou a defender a morte; quem pregava a paz agora balbucia frases desconexas de rancor; quem propalava a esperança, agora ataca com fúria seus semelhantes; quem oferecia uma flor, um livro, agora deseja um fuzil. 
Numa espécie de transe frenético, um torpor, uma histeria coletiva, a procissão vai seguindo como onda, arrastando outros desavisados. Marcham como zumbis, repetem frases vazias como mantras, confiam cegamente no líder vazio e falastrão que vocifera enquanto expele bílis pela boca e sangra sob a lâmina fria do seu próprio pensamento.
Aos poucos, uma nuvem negra foi surgindo no horizonte, tornando-se uma ameaça real. O que era uma possibilidade ridícula, foi se transformando em pesadelo real. O ovo está pronto para eclodir. Foi chocado pela intolerância, pelo preconceito, pelo ódio, pela ganância e por todo tipo de mal.
Eis que surge a cabeça da serpente, que nem saiu do ovo e já ameaça devorar o séquito de seguidores que lhes deu a vida para depois vomitar impiedosamente. Um grito abafado, um clamor ecoa no horizonte da razão: e agora, quem será capaz de cortar a cabeça da serpente antes que se torne um dragão?

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

OS BUMBOS DO ANTIPETISMO

Por Tereza Cruvinel, no Jornal do Brasil:

Entre sexta-feira e ontem, quando o Datafolha fez sua última pesquisa, Jair Bolsonaro cresceu quatro pontos, passando de 28% para 32%, apesar das manifestações nacionais que as mulheres fizeram contra ele no sábado. 

O petista Fernando Haddad encolheu de 22% para 21%, e se não se recuperar, irá para o segundo turno enfraquecido. 

O que deu impulso a Bolsonaro foi o troar do antipetismo, no discurso de Alckmin e concorrentes, através das manobras do STF para calar Lula e da jogada de Moro ao liberar a delação de Palocci. 

A guerra do segundo turno está se antecipando e será pesada, talvez suja mesmo.

Quem nunca ouviu alguém dizer que deixará o Brasil se Bolsonaro virar presidente? 

Pois trate de conferir o passaporte. Na simulação de segundo turno do Datafolha, o capitão cresceu de 39% para 44% e Haddad caiu de 45% para 42%. 

O instituto, com rigor metodológico, fala em empate técnico, mas o que temos aí é mesmo um quadro em que Bolsonaro derrota o petista. 

E pode ganhar mesmo, por mais espantoso que seja escrever isso, admitindo que uma maioria eleitoral ressentida e egoísta pode impor ao Brasil a opção pelo autoritarismo, pelo capitalismo mais arcaico e pela regressão nos costumes.

Ciro Gomes continua aparecendo como quem tem mais chances de derrotar o ex-capitão no segundo turno (45% a 39%), mas, no adiantar da hora, só um crescimento sobrenatural poderia levá-lo a ultrapassar o petista. 

A mesma pesquisa diz que 84% dos eleitores de Bolsonaro e 82% dos eleitores do petista declaram que não mudarão o voto. 

Isso finca os dois no segundo turno, mas hoje o petista chegaria fragilizado. 

A erupção do antipetismo barrou Haddad e fez sua rejeição subir de 32% para 41%. 

A de Bolsonaro, sob os ecos do #elenão, caiu de 46% para 45%.

O antipetista já era um ser amargurado muito antes de o PT, achando que podia fazer o que os outros sempre fizeram, cometer os erros que lhe foram cobrados com rigor nunca antes aplicado a outros partidos que, para governar, também transigiram com a corrupção e com o fisiologismo. 

O antipetista, que votava no PSDB, soltou fogos quando estourou o mensalão, mas tucanos e pefelistas não ousaram tentar o impeachment de Lula. 

O antipetista vibrou depois com a condenação e prisão de estrelas como Genoíno e Dirceu no julgamento da AP-470. 

No segundo governo Lula, a ascensão dos pobres, os aviões cheios, os jovens pobres nas universidades, o sucesso internacional do Brasil e de Lula, tudo aquilo era intolerável, e o PT ainda elegeu Dilma. 

Mas em 2014, com o petrolão e a Lava Jato, pensou o antipetista, aquilo teria fim. Dilma se reelegeu. 

O PSDB juntou-se com o MDB para derrubar Dilma, mas o governo de Temer aprofundou a recessão e desnudou a corrupção emedebista. 

Os antipetistas trocaram então o PSDB por Bolsonaro. Ele não encarna exatamente uma extrema-direita, como a europeia, ou como Trump. Ele incorporou o espírito do antipetismo, acrescido de preconceito e de moralismo.

Nos últimos dias o candidato tucano Geraldo Alckmin adubou o antipetismo com suas peças de campanha: “votou Bolsonaro, elegeu o PT”, diz suas marchinhas. Todo seu discurso é sobre o “risco de o PT voltar”. 

Apontando o perigo oposto, o da vitória de Bolsonaro, Ciro também bate no PT. 

E a mídia repete o filme, publicando a delação de Palocci liberada por Moro.

Nesta hora tão sombria, vem de um lúcido representante da alta burguesia industrial, o empresário Ricardo Semler, sóbrias e sensatas advertências à sua classe, em artigo publicado ontem na Folha de S. Paulo: 

“Colegas de elite, acordem. Não se vota com bílis. O PT errou sem parar nos 12 anos, mas talvez queria e possa mostrar, num segundo ciclo, que ainda é melhor do que o Centrão megacorrupto ou uma ditadura autoritária. Foi assim que a Europa inteira se tornou civilizada. Precisamos de tempo, como nação, para espantar a ignorância e aprendermos a ser estáveis. Não vamos deixar o pavor instruir nossas escolhas”.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

HÁ UMA TRAGÉDIA SILENCIOSA EM NOSSAS CASAS

Luis Rojas Marcos*

Há uma tragédia silenciosa que está se desenvolvendo hoje em nossas casas e diz respeito às nossas joias mais preciosas: nossos filhos. Nossos filhos estão em um estado emocional devastador! Nos últimos 15 anos, os pesquisadores nos deram estatísticas cada vez mais alarmantes sobre um aumento agudo e constante da doença mental da infância que agora está atingindo proporções epidêmicas.

As estatísticas:

-1 em cada 5 crianças tem problemas de saúde mental;
-um aumento de 43% no TDAH foi observado;
-um aumento de 37% na depressão adolescente foi observado;
-um aumento de 200% na taxa de suicídio foi observado em crianças de 10 a 14 anos.

O que está acontecendo e o que estamos fazendo de errado?

As crianças de hoje estão sendo estimuladas e superdimensionadas com objetos materiais, mas são privadas dos conceitos básicos de uma infância saudável, tais como:
-pais emocionalmente disponíveis;
-limites claramente definidos;
-responsabilidades;
-nutrição equilibrada e sono adequado;
-movimento em geral, mas especialmente ao ar livre;
-jogo criativo, interação social, oportunidades de jogo não estruturadas e espaços para o tédio.

Em contraste, nos últimos anos as crianças foram preenchidas com:

– pais digitalmente distraídos;
– pais indulgentes e permissivos que deixam as crianças “governarem o mundo” e sem quem estabeleça as regras;
– um sentido de direito, de obter tudo sem merecê-lo ou ser responsável por
obtê-lo;
– sono inadequado e nutrição desequilibrada;
– um estilo de vida sedentário;
– estimulação sem fim, armas tecnológicas, gratificação instantânea e ausência de momentos chatos.

O que fazer?

Se queremos que nossos filhos sejam indivíduos
felizes e saudáveis, temos que acordar e voltar ao básico. Ainda é possível! Muitas famílias veem melhorias imediatas após semanas de implementar as seguintes recomendações:
– Defina limites e lembre-se de que você é o capitão do navio. Seus filhos se sentirão mais seguros sabendo que você está no controle do leme.
– Oferecer às crianças um estilo de vida equilibrado, cheio do que elas PRECISAM, não apenas o que QUEREM. Não tenha medo de dizer “não” aos seus filhos se o que eles querem não é o que eles precisam.
– Fornecer alimentos nutritivos e limitar a comida lixo.
– Passe pelo menos uma hora por dia ao ar livre fazendo atividades como: ciclismo, caminhadas, pesca, observação de aves/insetos.
– Desfrute de um jantar familiar diário sem smartphones ou tecnologia para distraí-lo.
– Jogue jogos de tabuleiro como uma família ou, se as crianças são muito jovens para os jogos de tabuleiro, deixe-se guiar pelos seus interesses e permita que sejam eles que mandem no jogo.
– Envolva seus filhos em trabalhos de casa ou tarefas de acordo com sua idade
(dobrar a roupa, arrumar brinquedos, dependurar roupas, colocar a mesa, alimentação do cachorro etc.).
– Implementar uma rotina de sono consistente para garantir que seu filho durma o suficiente. Os horários serão ainda mais importantes para crianças em idade escolar.
– Ensinar responsabilidade e independência. Não os proteja excessivamente
contra qualquer frustração ou erro. Errar os ajudará a desenvolver a resiliência e a aprender a superar os desafios da vida.
– Não carregue a mochila dos seus filhos, não lhes leve a tarefa que esqueceram, não descasque as bananas ou descasque as laranjas se puderem fazê-lo por conta própria (4-5 anos). Em vez de dar-lhes o peixe, ensine-os a pescar.
– Ensine-os a esperar e atrasar a gratificação.
Fornecer oportunidades para o “tédio”, uma vez que o tédio é o momento em que a criatividade desperta. Não se sinta responsável por sempre manter as crianças entretidas.
– Não use a tecnologia como uma cura para o tédio ou ofereça-a no primeiro segundo de inatividade.
– Evite usar tecnologia durante as refeições, em carros, restaurantes, shopping centers. Use esses momentos como oportunidades para socializar e treinar cérebros para saber como funcionar quando no modo “tédio”.
– Ajude-os a criar uma “garrafa de tédio” com ideias de atividade para quando estão entediadas.
– Estar emocionalmente disponível para se conectar com crianças e ensinar-lhes autorregulação e habilidades sociais.
– Desligue os telefones à noite quando as crianças têm que ir para a cama para evitar a distração digital.
– Torne-se um regulador ou treinador emocional de seus filhos. Ensine-os a reconhecer e gerenciar suas próprias frustrações e raiva.
– Ensine-os a dizer “olá”, a se revezar, a compartilhar sem se esgotar de nada, a agradecer e agradecer, reconhecer o erro e pedir desculpas (não forçar), ser um modelo de todos esses valores.
– Conecte-se emocionalmente – sorria, abrace, beije, faça cócegas, leia, dance, pule, brinque ou rasteje com elas.

* É um psiquiatra, pesquisador e professor espanhol, nacionalizado norte-americano. Dá aulas de psiquiatria na Universidade de Nova York e é membro da Academia de Medicina de Nova York e da Associação Americana de Saúde Pública. 

terça-feira, 21 de agosto de 2018

SALVE, SALVE RAUL - O DIA EM QUE O MALUCO BELEZA PARTIU

Compartilho com os leitores esse texto, que está no meu livro "O Escorpião e a Borboleta". Prepare-se para se emocionar.


Eterno Maluco Beleza


Hoje, 21 de agosto de 2014, completamos 25 anos desde a morte de Raul Seixas. Sempre nessa data sinto uma tristeza, uma nostalgia e ao mesmo tempo, sinto alegria de ter tido o privilégio de conviver com a obra de Raul na minha infância e juventude. Nossa geração teve esse privilégio e a geração dos meus filhos nunca terá. Jamais existirá outro Maluco Beleza. Qualquer imitação não chegará a ser nem um borrão do que foi a mente mais brilhante, mais instigante que o século XX já conheceu.

Acordei decidido a escrever um texto inédito para homenagear esse ícone da música brasileira. Enquanto pensava no que escrever senti uma sensação estranha. De repente senti um comichão na espinha dorsal, meus olhos embaçaram e um calor tomou conta do meu corpo. Frases do Raul brotaram automaticamente do meu cérebro enquanto meus olhos vertiam em lágrimas. Não sei de onde surgiram tantas frases e tantas lágrimas. Tive certeza que Raul estava aqui me "dando o toque". Então decidi abandonar as pesquisas e escrever apenas o que saia da cabeça. Foi muito fácil. As músicas do Raul são histórias vivas, vibrantes que mostram o homem que foi e o que queria ser. Espero que todos os malucos belezas curtam.

Raul Rebeldia


"Faze o que tu queres há de ser tudo da lei. Viva! Viva"! (Sociedade Alternativa). Raul Seixas já nasceu rebelde. Garoto inquieto, desde cedo começou a rabiscar suas primeiras músicas. Compôs Metamorfose Ambulante aos 14 anos de idade. Baiano de classe média, não queria seguir o figurino dos outros meninos de sua idade. Resolveu botar para quebrar e quebrar todos os paradigmas da sua época. 

Na escola Raul Seixas não teve boas experiências. Reprovou por várias vezes na segunda série. Seu pai tentou até um colégio religioso mas não surtiu efeito. Ele próprio falava que na escola não achava o conhecimento que buscava. Ao invés de estudar, gastava grande parte do tempo ouvindo rock and rool na loja Cantinho da Música. O que aprendeu foi com a música, com os livros e com as experiências das ruas. Um leitor voraz, influenciado pelo pai Raul Varella que tinha uma vasta biblioteca, devorava toda espécie de livros, mas se interessava particularmente por filosofia. Quando adulto, resolveu provar para o pai que estudar era apenas um detalhe, que tinha inteligência, mas que a escola careta não era suficiente. Fez vestibular e passou para direito. Estudou até dar um diploma ao pai. A partir daí se dedicou exclusivamente a sua maior paixão: a música.

Além da música sociedade alternativa, mosca na sopa mostra esse espírito inquieto, insubordinável e contestador. "Eu sou a mosca que perturba o seu sono, eu sou a mosca no seu quarto a zumbizar. E não adianta vim me dedetizar, pois nem o DDT pode assim me exterminar, se você mata uma e vem outra em meu lugar". (Mosca na Sopa). Raul é assim. Espírito rebelde que incomoda, que derruba a ordem, que sacode o comodismo, que escancara a hipocrisia e expõe a verdade nua e crua de forma desconcertante. 

Com a música Cowboy fora da lei ele dispara: "Mamãe não quero ser prefeito, pode ser que eu seja eleito e alguém pode querer me assassinar. Eu não preciso ler jornais, mentir sozinho eu sou capaz, não quero ir de encontro ao azar". Aqui ele debocha do poder de cartas marcadas.  Sua sociedade alternativa não tinha espaço para poder, para opressão. Era um anarquista convicto. 

Na música As Aventuras de Raul Seixas na cidade de Thor, Raul critica o sistema capitalista e expõe suas armadilhas. "Tá rebocado meu compadre, como os donos do mundo piraram. eles já são carrascos e vítimas do próprio mecanismo que criaram. O monstro SIST (sistema) é retado, e tá doido pra transar comigo. E sempre que você dorme de touca ele fatura em cima do inimigo". Com sua irreverência falou de forma simples e bem humorada o que filósofos, economistas e sociólogos não conseguiram.


Meu amigo Raul era assim. Nunca se acomodou, nunca se entregou."Tente, e não diga que a vitória está perdida. se é de batalhas que se vive a vida, tente outra vez". (Tente outra vez). Mesmo quando estava no auge do sucesso nunca se acomodou e desprezou os princípios burgueses-classe-média. "Eu devia estar contente porque tenho um emprego, sou o dito cidadão respeitável e ganho quatro mil cruzeiros por mês". (Ouro de tolo). E segue sempre em frente falando:"Não pare na pista, é muito cedo pra você se acostumar. Amor não desista, se você para o carro pode te pegar". (Não pare na Pista). Além de nos induzir a seguir em frente, Raul nos convida a ousar, a buscar o novo, a exercitar a curiosidade. "Na curva do futuro muito carro capotou, talvez por causa disso é que a estrada ali parou. Porém atras da curva perigosa eu sei que existe, alguma coisa nova, mais vibrante e menos triste" (A Verdade Sobre a Nostalgia).


Rebelde sim, mas nunca insensato. Como Raul já dizia: "conserve seu medo, mantenha ele aceso. Se você não teme, se você não ama, vai acabar cedo(...) conserve seu medo mas sempre ficando sem medo de nada, porque desta vida, de qualquer maneira não se leva nada".(Conserve Seu Medo).

Raul Seixas - família

Rabisco do Blogger em 1993

Já vimos que como filho foi rebelde mas sereno. O maior gesto de amor foi parar um tempo para estudar e dar um diploma de advogado ao pai, realizando assim o sonho do velho Raul Varella. Amou muito sua família, principalmente seu pai e sua mãe. Já maduro, após vários casamentos e relacionamentos, falou (cantou) a seguinte pérola:"Eu tive que perder minha família para perceber o benefício que ela me proporcionava. É triste aceitar esse engano quando já se esgotaram as possibilidades. E agora sofro as atitudes que tomei por acreditar em verdades ignorantes...Não respeitei o sacrifício que custa para construir a fortaleza que se chama família..." (Diamante de Mendigo).

Raul Seixas era um amante insaciável. Em uma anotação no seu diário pessoal escreveu: "Eu como marido sou uma merda total. Como Raul Seixas sou um homem ideal". Raul teve cinco esposas, além das várias mulheres com quem se relacionou extra-oficialmente. Seu estilo de vida não era para casamento, mas amou cada uma das suas mulheres intensamente. Na música Medo da Chuva define bem esse perfil: "É pena que você pense que sou seu escravo, dizendo que sou seu marido e não posso partir. Como as pedras imóveis na praia eu fico ao seu lado sem saber dos amores que a vida me trouxe e eu não pude viver". Na música A Maçã Raul demonstra um desejo de um relacionamento aberto, sem censura, sem amarras e sem dominação. "Se esse amor ficar entre nós dois, vai ser tão pobre amor, vai se gastar...Quando eu te escolhi para morar junto de mim, eu quis ser tua alma, ter seu corpo tudo enfim. Mas compreendi que além de dois existem mais. Amor só dura em liberdade, o ciúme é só vaidade, sofro mas eu vou te libertar. O que é que eu quero se eu te privo do que eu mais venero que é a beleza de deitar".

Mesmo distante devido sua rotina, Raul Seixas foi um pai amoroso e influente. Na música Cantiga de Ninar consegue expressar toda sua ternura paterna e amor na forma mais pura e bela: "Dorme enquanto teu pai faz músicas, que é a forma dele rezar. Todos os sonhos na realidade são verdades, se eu puder cantar... Fiz meu rumo por essa terra, entre o fogo que o amor consome. Eu lutei mas perdi a guerra, eu só posso te dar meu nome".

Raul eterno


"Eu sei que determinada rua que já passei não tornará a ouvir o som dos meus passos, tem uma revista que eu guardo há muitos anos, e que eu nunca mais eu vou abrir; Cada vez que eu me despeço de uma pessoa, pode ser que esta pessoa esteja me vendo pela última vez; a morte, surda, caminha a meu lado e eu não sei em que esquina ela vai me beijar... " (Canto para Minha Morte).
E foi assim. No dia 21 de agosto de 1989 a morte beijou Raul Seixas, nosso eterno Maluco Beleza. Sozinho em seu apartamento sem  testemunhas embarcou num disco voador e partiu para outra dimensão. O Planeta Terra já estava pequeno e ultrapassado para uma mente tão além do seu tempo. Agora só nos resta cantar: "Hoje é feriado é o dia da saudade! Hoje é feriado é o dia da saudade!" (O dia da Saudade).

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

O ESCRITOR VOLTA A EMPUNHAR A ESPADA (CANETA)

Olá meus caros leitores. Tanto tempo sem postar nada aqui e resistindo as cobranças. De vez em quando é bom se ausentar um pouco para repensar conceitos e rever prioridades. E uma das minhas prioridades será mudar minha linha editorial. Deixar de escrever jamais, pois seria o mesmo que deixar de respirar. 

Após o processo de formação em Coach Integral Sistêmico que passei, muitas coisas mudaram. Sinto-me mais confiante, renovado e apaixonado por essa nova profissão. Assim, minha escrita tem que ser mais útil e voltada para ajudar pessoas a crescerem e se desenvolverem.

Inicio oferecendo a vocês um pequeno trecho do meu livro sobre o Caminho de Santiago de Compostela que ainda não tem título. Ainda está em fase de conclusão e em dezembro será lançado para todo o Brasil.

Sente-se, relaxe e venha voar comigo. Boa leitura.


Um papo reto com Ana

Eis a questão. Você é águia e não pode fugir disso. Olhando para o horizonte você enxerga o todo, enquanto as pessoas comuns olham apenas para baixo e sentem medo, veem apenas as pedras.

            - Qual a razão de você sair do seu país e estar aqui caminhando nessa terra estrangeira sem ao menos dominar a língua? – Ana perguntou-me, parando em minha frente e olhando nos meus olhos deixando-me encabulado.
            - Não sei. Francamente não sei. Dias atrás, responderia que buscava aventura. Agora já não sei mais o que busco – respondi desviando o olhar.
            - Não seja tímido meu bom peregrino. Busque no seu coração. Esqueça um pouco a razão e pergunte ao seu subconsciente. Verás que você não veio se aventurar aqui por acaso. Há uma força que moveu você até aqui e você terá que descobrir, para que tudo isso tenha sentido.
            - Já passei por tanta coisa nesse caminho que nem sei mais o que é real ou o que é ilusão – falo contendo o desejo de falar-lhe sobre os passos misteriosos que me seguiam até ela aparecer. No fundo sinto medo de passar por ridículo ou de descobrir que aquela mulher não passa de uma miragem, um fantasma em meu caminho.
            Desde que encontrei-me com essa mulher de nome estranho, a qual chamo de Ana, passamos a conversar como se fôssemos dois velhos conhecidos. Depois que ela me ensinou a usar o cajado de forma correta e andar a passos curtos, sempre olhando para frente, meu caminho tornou-se mais suave. Porém, o mais agradável foi a conversa. Ana abordava diversos e variados temas com a autoridade e a segurança de uma pessoa que já vivera mil anos. E o seu tom de voz não tinha nada de arrogante e nem de intimidador. Falava com franqueza, com a sabedoria de uma mestra, e através de perguntas diretas, deixava-me a vontade para expor meu ponto de vista. Tive o desejo de caminhar sem parar ao seu lado até chegar a Santiago de Compostela. Certamente, aprenderia muitas coisas e tornar-me-ia uma pessoa melhor.
            - Às vezes meu amigo, o real e o ilusório se misturam em nossa mente só para aguçar os nossos sentidos. Veja essa natureza! Isso se parece real para você? Toda essa paisagem que estava coberta de gelo há poucos dias, logo estará totalmente diferente, como uma ilusão de ótica. Essas folhas vão cair e um calor sufocante substituirá esse clima frio. Isso lhe parece real?
            - Realmente, tudo isso parece loucura. É impressionante que já passamos milhões de anos e os homens ainda não chegaram a uma conclusão sobre o autor dessa obra. Cientistas estudados e referendados, religiosos e outros intelectuais ainda divergem sobre as diversas teorias da criação – falo confuso.
            - Agora você está demonstrando seu lado filosófico – comentou lisonjeira. - Mas, o mais importante não é ficar se perguntando quem fez tudo isso. A busca por essa resposta já causou guerras sangrentas e inúteis em nome de Deus, já causou sofrimento e intolerância a pessoas com boas e más intenções. O importante é admirar e usufruir dessa obra tão perfeita que é a natureza. É respeitar e preservar acima de tudo. O Deus criador está dentro de você, está nas suas crenças, está nas suas virtudes. E essa fagulha divina faz com que você respeite todas as formas de manifestações de fé e não veja apenas a sua como verdadeira.
            - Quanto a isso, estamos de acordo. Também repudio qualquer forma de intolerância, principalmente a religiosa. E sobre a sua pergunta sobre o que me trouxe ao caminho, aos poucos estou descobrindo que busco a minha identidade. Já estou próximo de chegar a meio século de vivência e às vezes sinto-me bem confuso quanto a minha personalidade.
            - Explique melhor – instiga Ana interessada.
            - É que às vezes sinto-me um ET no meio das pessoas. Tudo o que aprendi sobre valores humanos, sobre honestidade, solidariedade, ética, parece que não têm nenhum valor hoje em dia. A impressão é que tenho que desaprender tudo para me encaixar na realidade das pessoas e ser aceito pelo grupo – divago.
            - Sei como é isso. No meio de tantas imperfeições, no meio de tantas nulidades temos a sensação de que estamos errados e que os tolos estão certos. Aí sentimo-nos isolados, discriminados – destaca Ana com um semblante sério.
            - Por isso, muitas vezes pergunto se não estou errado e a maioria está certa. Sempre que agi de forma correta, sempre que segui os parâmetros que acredito serem corretos, consegui desagradar muito mais. Noto que as pessoas que vivem sob uma ética mais subjetiva, que aplicam o famoso, como se diz no meu país, o “jeitinho brasileiro”, os que cometem alguma irregularidade, conseguem agradar mais e agregar mais pessoas.
            - Bem-vindo ao clube Luiz Vieira. Você não é o único que se sente assim e não será o último. Em uma sociedade construída sob a ótica do “ter” e que ignora o “ser”, pessoas como você terão que pagar o preço. E tenho certeza que você sempre pagará, pois, por mais que tente, não conseguirá ser outra pessoa. Duvido que descobrirá após trilhar o Caminho de Santiago que deve se tornar mais um medíocre só para se encaixar na sociedade!
            - É isso que pergunto-me o tempo todo Ana. Fico confuso e achando que não vale a pena pensar e agir corretamente e ao mesmo tempo desagradar a tanta gente – questiono indignado.
            - Como disse, você não é o único e nem será o último Luiz. Sem querer fazer nenhuma comparação lembre-se de Nelson Mandela, Martin Luther King, Sócrates, Tiradentes (no seu país), Jesus e o próprio São Tiago e tantos outros. Eles viveram em conflitos e foram perseguidos e mortos por serem pessoas que pensavam além do seu tempo. Se eles tivessem se acovardado e recuado como muitos fazem, a história não seria a mesma.
            - Mas eu não quero ser herói e nem mártir – protesto assustado com a dimensão.
            - Essas pessoas que eu citei também não queriam. Suas mortes foram apenas frutos da intolerância, da ignorância, da estupidez. Foram vítimas do contexto histórico de suas épocas. No entanto, percebe que elas nunca morreram? Continuam vivas em nossos pensamentos e influenciam o comportamento de várias gerações. Ao contrário daquela gente que matou seus heróis e continuam matando até hoje, e não passam de cadáveres andantes, de gente morta que fala, que anda e que respira um ar fétido.
            - Isso quer dizer que vivemos entre mortos?
            - De certa maneira sim. Só que temos uma missão de trazer esses mortos à vida, de proporcionar o milagre da ressurreição todos os dias. E esse milagre acontece exatamente quando homens e mulheres como você têm a coragem de difundir ideias, pensamentos novos, de promoverem a transformação, de se inquietarem com as injustiças, de se rebelarem contra a hipocrisia, de buscarem a paz verdadeira. Essa é a nossa missão mais bela e contraditória – esclarece Ana sempre com uma aura de sensatez.
            - Contraditória? Como assim? – pergunto confuso.
            - Exatamente. Nós precisamos ressuscitar os mortos e os mortos querem continuar mortos e acabam nos engolindo – fala de uma forma enigmática enquanto me puxa pelo braço para um desvio no caminho que leva à beira de um precipício. Para perigosamente bem próximo a um despenhadeiro e me pede para que eu observe atentamente o horizonte sem olhar para baixo. Não resisto, olho para baixo e sinto vertigem. Ana segura meu braço com mais força e ordena vigorosamente: - Eu disse para não olhar para baixo. Olhe apenas para frente.
            Concentro-me e fixo os olhos no horizonte. Aos poucos vou relaxando e esqueço o medo. No início, pensei na possibilidade de ser empurrado ali por aquela estranha. Agora sinto a confiança na mão que segura fortemente meu braço esquerdo e entrego-me completamente àquela sensação.
            - Agora feche os olhos Luiz. Solte sua respiração e procure enxergar o que viu antes, só que agora com os olhos fechados – ordena num tom solene.
            Obedeço e concentro-me nesse exercício. No início não consigo ver nada além da escuridão. Aos poucos, aquela imagem vai aparecendo em minha cabeça, só que de outro formato. É como se eu estivesse assistindo a um filme em três “D”. Vejo uma cadeia de montanhas, algumas plantações, algumas casas ao longe, bosques coloridos e uma trilha que se parece uma linha disposta em caracol.
            - Pode descrever o que está vendo Luiz? – pergunta Ana numa voz branda.
            Descrevo em detalhes a bela paisagem que consigo visualizar.
            - Agora abra os braços – ordena enquanto solta meu braço esquerdo. – Sinta o vento batendo em seu corpo. Continue com os olhos fechados e voe por essa paisagem.
            Meus pensamentos voam e sinto meu corpo flutuar. Meus pés continuam firmes no chão à beira daquele precipício, mas tenho a sensação de estar planando, vendo tudo de cima, indo em direção ao infinito. Não sei por quanto tempo voei, mas sei que foi a melhor sensação que senti e queria continuar com aquela viagem. Voltei à realidade quando Ana segurou novamente meu braço e puxou-me para trás.
            - Você me descreveu uma bela paisagem enquanto voava. E agora, olhe para o chão e diga-me o que vê.
            - Vejo apenas pedras e uma paisagem árida.
            - Eis a questão. Você é águia e não pode fugir disso. Olhando para o horizonte você enxerga o todo, enquanto as pessoas comuns olham apenas para baixo e sentem medo, veem apenas as pedras – fala com um sorriso iluminado.
            - Sou águia – repito convencido.
            - Sim. Alce sempre seu voo, mas não com o objetivo de enxergar as coisas de cima para baixo, mas para enxergar o todo, o conjunto. Assim, cada vez mais desenvolverá sua capacidade, seu autoconhecimento, e aprenderá a conviver com as diferenças. Não adianta querer ser como quem vive na superfície da mediocridade que você não vai conseguir. Você é o que é – sentenciou.
            - Isso quer dizer que eu não posso mudar? – pergunto confuso.
            - Claro que pode. Somos seres em constante mudança. Até a natureza muda, se transforma a cada segundo. Imagine nós que somos parte dessa natureza! Mas observe que mesmo com as constantes transformações, a essência da natureza é, e sempre será a mesma. Mesmo tendo que se adaptar às condições climáticas, uma árvore sempre utilizará suas raízes para absorver os nutrientes e para se fixar à terra. E isso nunca muda, pois essa é a sua essência. Se não fosse assim, não seria árvore.
            - Isso é muito profundo Ana. Nunca tinha ouvido ou pensado em tal reflexão. Mas convenhamos, é muito difícil e doloroso ter visão de águia em terra de cegos.
            - Com o tempo você vai aprendendo a assumir essa posição até que não será mais doloroso. Se contente com um passo de cada vez, seja menos rigoroso consigo mesmo, tenha mais paciência com as pessoas que não nasceram com o privilégio de enxergar como as águias. E lembre-se: você é o que é e os outros são o que são. Com um pouquinho de paciência você vai irradiando sua luz e vai ajudando a ressuscitar muitos “cadáveres” – fala puxando-me pelo braço de volta ao caminho.
            Caminhamos por alguns minutos em silêncio. Depois tive o pressentimento de que aquela mulher não ficaria muito tempo comigo. Então resolvi explorá-la mais um pouco e extrair todo o néctar do conhecimento. Conversamos longamente sobre vários assuntos, os quais prefiro guardar comigo, ou quem sabe, divulgarei daqui a alguns anos, quando sentir que minha geração estará mais preparada. Por enquanto, guardo seus ensinamentos e aos poucos vou digerindo. Sou águia e não posso fugir dessa missão, por mais que não seja compreendido.

            Enfim, nossa caminhada chegou ao fim numa encruzilhada do caminho, próximo a Ponferrada onde nos despedimos. Sigo sozinho, mas com a sensação de que Ana sempre estará comigo. De vez em quando escuto sua voz me dando conselhos ou toques.