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sexta-feira, 26 de abril de 2019

CORAÇÃO BOBO


Num dia qualquer, enquanto relaxava de mais um dia intenso de trabalho, uma moça me sai com essa:
- (...) seu coração bate esquisito!
- Como assim, esquisito? – indaguei.
            Ela escutou mais um pouco com ar de enfermeira e perguntou:
            - Há quanto tempo você não faz um checkup?
            - Fiz no ano passado – respondi.
            - Fez eletrocardiograma?
            - Não. Esse eu fiz há uns dois anos – respondi com sentimento de culpa.
            - Pois amanhã mesmo vou agendar uma consulta no cardiologista para você. Esse coração tá muito esquisito – sentenciou-a em tom severo.
            - Claro que não! Meu coração está perfeito. Minha pressão sempre foi 12X8 – minimizei o alarme.
Mesmo com minha resistência, sua insistência foi maior.  Em uma semana, lá estava eu no consultório particular de uma cardiologista examinando o coração. E eu que sempre tive uma excelente saúde, de me gabar que meus checkups não davam nem verme, de ter um fôlego de atleta, de nunca ter sentido absolutamente nada... fui surpreendido com esse diagnóstico:
            - O que está acontecendo com esse coração senhor José Luiz? – pergunta a médica observando o eletrocardiograma com cara de preocupada.
            - Não sei doutora. Não sinto nada de anormal.
            - Já sentiu dor no peito, tontura...?
            - Nada. Nunca senti nem dor de dente.
            - Faz exercício físico?
            - Sim. No mínimo quatro vezes por semana. Musculação e treino muay thai – respondi convicto.
            - E quando se exercita, sente cansaço?
            - De jeito nenhum.
            - Estranho. Seu exame mostra um problema na válvula aórtica. E, provavelmente você já sofreu um infarto – sentenciou a jovem médica num tom grave.
             Recebi esse diagnóstico como um soco no estômago. Senti minha cabeça girar e a garganta fechar. Até então, só havia recebido elogios dos médicos. “Você tem uma saúde de ferro!” “Seu coração é de leão”, “tem fôlego de atleta...” Aos 51 anos, recebi aquela notícia como uma sentença de morte. E para completar, a médica ainda disse que eu teria que procurar um grande centro para fazer um cateterismo. “Talvez consiga resolver só com medicamento; talvez seja preciso colocar uma válvula para corrigir ou até mesmo haja a necessidade de fazer uma cirurgia”. Essas palavras martelavam em minha mente que nem conseguia mais ouvir as orientações da médica bonitona. “Evite frituras, carnes gordas... coma bastante fibras...” “Ora bolas, nos últimos 10 anos de minha vida tenho me alimentado corretamente. Cortei tudo o que faz mal... A única coisa que não cortei foi a cerveja nos finais de semana, e as vezes em excesso”, - pensei encabulado.
            Com o ânimo bastante abatido, fui para casa atordoado, mas sem demonstrar a ninguém meu estado de espírito. Passei uma semana tentando levar uma vida normal, mas só conseguia pensar em minha morte. Nunca tive medo de morrer, mas de repente, me dei conta de que ainda havia um monte de coisas a fazer, muitas coisas a realizar. “Que droga! Agora que tenho a oportunidade de dar minha contribuição para transformar a educação de Parauapebas, vou morrer?! Não vou ter a oportunidade de ser avô...” Um filme começou a rodar em minha cabeça. Lembrei das aventuras e loucuras que já aprontei nessa vida, dos perigos de morte que já corri, do meu gosto pelo perigo e, inevitavelmente, lembrei das inimizades que cultivei.
            Instintivamente, comecei a agir como se vivesse o último dia da minha vida. Coloquei as contas em dia, liguei para amigos distantes, adiantei reuniões de trabalho, conferi e-mails... Até conclui a revisão do meu livro sobre o Caminho de Santiago que estava meio a passos de tartaruga.
            Passado o momento do susto e da angústia, coloquei minha vida nos trilhos. Preenchi minha mente com bons pensamentos e passei a encarar a situação de outra maneira. “Ora bolas, o que tiver que ser, será. Vou lutar, vou procurar um bom médico, fazer o que for preciso para recuperar esse velho coração. Se eu escapar dessa, Glória a Deus! Se eu morrer, morrerei feliz, sabendo que esse foi um propósito de Deus que me conduziu até aqui com dignidade e felicidade”.
             

***

            Segunda-feira, 22 de abril. Dia da Terra. Às 8h em ponto estou no Hospital Santa Genoveva (Uberlândia) em completo jejum para fazer o cateterismo. Feito os procedimentos iniciais, sou conduzido a uma sala de cirurgia com equipamentos futuristas assustadores. O médico pergunta se eu já havia feito esse procedimento. Respondo que será a primeira vez.
            Fecho os olhos e concentro-me para não sentir nenhuma dor ou inconveniente. Treinei isso desde a juventude quando precisei tomar seis benzetacil, e tem dado certo. Por volta das 11 horas, escuto a voz do médico: “Senhor José Luiz, tenho boas notícias. Não há nenhuma obstrução de artéria. Seu coração está perfeito! Só uma veia que passa por dentro da aorta, dando a impressão que está obstruída. Um pequeno ‘defeito’ de fábrica que não compromete sua saúde. Você vai precisar de uma semana de repouso e depois vá para casa. Abra um bom vinho e comemore.”
            “Uma veia que passa por dentro da aorta” – penso intrigado. Esse meu coração tinha que ser mesmo diferente! Ainda bem que o médico não descobriu que é de pedra! Apenas um coração bobo! Ufa! Não será dessa vez. Vida que segue. Vida plena e abundante.

____

Observação: o editor do blog ganhou vida própria e resolveu bagunçar a edição. Vai assim mesmo.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

O QUE DIZER AOS PROFESSORES?

A SOCIEDADE, COM SEUS MAUS EXEMPLOS, DESFAZ NOS ALUNOS O ESFORÇO EDUCATIVO DOS PROFESSORES?


Enquanto o aluno permanece na vida da escola QUATRO horas por dia, esse mesmo aluno, na escola da vida, passa as demais VINTE horas...

* * *

Início de ano letivo. Secretarias de educação e Escolas realizam seus eventos de planejamento, diretrizes etc.

Há oito anos, em 28/01/2011, a convite de gestores e professores, estive em Açailândia (MA) para proferir palestra de encerramento de semana pedagógica.

O tema dado e desenvolvido: "Os Desafios do Educador na Sociedade Contemporânea".

Prevista para duas horas, a pedido dos professores o tempo da palestra quase duplicou.

Passeamos por subtemas como Qualidade, Ética, Política, Motivação, Cidadania, O Professor, A Escola, O Aluno, A Aprendizagem, A Sociedade, Os Desafios...

Não é fácil a tarefa do Educador: em diversos, repetidos, muitos casos, as mentes que ele tenta "organizar" dentro da escola serão daqui a pouco desorganizadas lá fora.

O professor educa, a sociedade deseduca: da política bandida à violência gratuita, dos lares desestruturados ao crime (bem) organizado, tudo em termos de péssimos exemplos transborda e envolve a criança, o jovem, o aluno, que terá, em última instância, de buscar em si mesmo e em raros modelos, a força e sabedoria para escolher certo entre o Bem e o Mal, o Bom e o Ruim, o Justo e o Injusto, o Valor e o Preço...

Foram horas de palestra. Disse e refleti junto com as dezenas e dezenas de educadores presentes, que me pagaram bem -- com real interesse, atenção e carinho -- o tempo, esforço e recursos que despendi para lhes falar sobre o me pediram. A atenção de quem escuta é o salário invisível de quem fala.

"Educação" vem de "ex-" + "ducere". Ação de conduzir para fora. Fazer vir à tona o saber potencial que se encontra dentro de cada aluno.

Tarefa dura: enquanto, no mais das vezes, o aluno permanece na vida da escola QUATRO horas por dia, esse mesmo aluno, na escola da vida, passa as demais VINTE horas.

Essas vinte horas dividem-se com o sono, a família, os vizinhos, os amigos, a igreja, o clube social, as festas ou outras formas de diversão, a cidade, as ruas...

Após o tempo na escola, como o processo socioeducativo, que se deveria iniciar na família, está ocorrendo nos demais "ambientes"? 

O que está "aprendendo" -- e "ensinando" -- esse aluno?

Escola 4 X 20 Outros ambientes

A concorrência é, mesmo, grande...

EDMILSON SANCHES

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

POBRES BANCOS

SE UM BANQUEIRO PULAR DO ALTO DE UM PRÉDIO, SIGA-O: ISSO DEVE DAR DINHEIRO...

Neste 31/01/2019, o banco Bradesco acaba de divulgar seu lucro líquido apenas nos três últimos meses de 2018 (outubro, novembro e dezembro). 

Pois bem: no quarto e último trimestre o lucro líquido (isto é, depois de descontadas todas as despesas, inclusive folha de pagamento dos funcionários) foi de R$ 5 BILHÕES E 830 MILHÕES, em números redondos, TREZENTOS MILHÕES DE REAIS a mais do que previam os analistas do mercado.

Por sua vez, o banco Santander anunciou lucro líquido, no mesmo período, de R$ 3 BILHÕES E 405 MILHÕES, mais de DUZENTOS MILHÕES DE REAIS a mais do que os analistas esperavam.

Já o banco Itaú, de janeiro a setembro de 2018 (três trimestres), já havia lucrado (lucro líquido) nada menos do que R$ 19 BILHÕES E 047 MILHÕES.

O Banco do Brasil, do Governo Federal, teve lucro líquido de R$ 9 BILHÕES E 470 MILHÕES DE REAIS nos primeiros nove meses de 2018 (1º, 2º e 3º trimestres).

A Caixa Econômica Federal, nos primeiros nove meses de 2018, teve lucro líquido de R$ 11 BILHÕES E 513 MILHÕES. Este valor já é quase igual a todo o lucro da Caixa em 2017, que foi de R$ 12,5 bilhões.

O Banco do Nordeste do Brasil, instituição financeira regional também do Governo Federal, teve lucro líquido de R$ 332 MILHÕES E 470 MIL de abril a setembro (2º e 3º trimestres) de 2018.

Alguém já escreveu que fundar ou afundar um banco, não importa: dá lucro.

Por outro lado, um provérbio da Suíça chega ao extremo de recomendar (simbolicamente, claro) que, se um banqueiro pular do alto de um prédio, deve-se segui-lo, pois isso com certeza dará dinheiro...

Enfim, se você quiser pegar mesmo em dinheiro, seja caixa ou dono de banco... 

Pois, pelo visto, não importa o tamanho da crise, o lucro das instituições financeiras será maior.

EDMILSON SANCHES 
edmilsonsanches@uol.com.br

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

FAKE NEWS - SINAL DE DEFORMAÇÃO DA PERSONALIDADE

"...a boca fala do que está cheio o coração". (Mateus 12:34).

Com a tragédia recente de Brumadinho, ficou claro como boa parte da população brasileira é sensacionalista e adora tragédias. Um dos sinais disso é o grande número de fake news que circula pela internet. E tem para todos os gostos: vídeo mostrando o momento exato que a barragem estourou, foto de mulher grávida na lama, foto de um homem sujo de lama abraçando um bombeiro, foto dos soldados israelenses chamando os bombeiros brasileiros para orar (essa foi foda), e outras bobagens a mais. Parece que as pessoas sentem uma necessidade mórbida de dar a notícia de qualquer jeito e a qualquer custo e sai compartilhando tudo o que vê pela frente.

Como nasce uma fake news?


Geralmente nasce de uma mente doentia e carente que sente a necessidade de espalhar mentira simplesmente pelo vício de mentir e/ou para ganhar likes na internet. Essa prática pode até render um bom dinheiro para essas pessoas. Assim, esses "gênios" do mal ficam horas construindo as notícias falsas e pesquisando a melhor forma de deixá-las atrativas. Geralmente elas começam com o termo "Bomba" ou outra expressão sensacionalista, e terminam com a ordem "compartilhem...".  Porém, essas notícias falsas precisam ser viralizadas, senão não cumprirão seus objetivos. E quem são os responsáveis pela viralização?  Quem são os agentes que se encarregam pela disseminação das notícias falsas? Infelizmente são a maioria absoluta dos brasileiros. Uma pesquisa recente publicada no Jornal Folha de São Paulo mostra que 90% dos eleitores do presidente eleito acreditam em fake news. Confira aqui. Isso é trágico e desesperador e demonstra o quanto nossa sociedade precisa rever seus conceitos.

Qual o perfil de quem espalha fake news?


Antes, eu afirmaria que as pessoas que compartilham notícias falsas eram pessoas ingênuas e de baixa escolaridade. Quem tem mais de 40 anos deve lembrar de quando aparecia debaixo da porta uma carta anônima com alguma mandinga (oração ou mensagem exotérica), dizendo que o receptor teria que fazer 30 cópias e enviar para 30 pessoas, senão uma desgraça aconteceria em 10 dias. Com o advento das redes sociais, isso se tornou brincadeira de criança inocente. Hoje, os fake news são responsáveis por eleição de presidente e até por assassinatos de inocentes. E já não é mais exclusividade de pessoas ingênuas e desescolarizadas. Encontramos desde o analfabeto até o doutor que pratica esse crime.

Há pesquisas que indicam que a pessoa que espalha fake news tem algum desvio de caráter. Na Bíblia Sagrada encontramos uma explicação para esse fenômeno: "a boca fala do que está cheio o coração". (Mateus 12:34). Esse versículo tem muita lógica. Uma pessoa que compartilha vídeo ou foto de criança violentada com a desculpa de que está repassando para alertar, tem grande chance de ter algum comportamento - mesmo inconsciente - de pedófilo. Quem espalha com frequência imagens de violência com aquela pérola - "Espalhe sem dó até chegar as autoridades", - geralmente tem um perfil violento. Os que espalham conteúdos com difamação contra homossexuais, por exemplo, tem grande chance de ser um homossexual reprimido e enrustido. Não me levem a mal. Essas são indicações de pesquisas sérias que publicarei aqui e não se trata de uma regra. 

Uma pessoa só compartilha uma notícia falsa quando essa notícia é conveniente com o seu pensamento. Portanto, seguramente, podemos traçar o perfil de uma pessoa pelo tipo de conteúdo que ela compartilha. Um fã do Bolsonaro por exemplo, quando depara com uma notícia negativa sobre ele, filtra a informação, julga que é falsa e, às vezes até busca as fontes e checa a veracidade, e não sai compartilhando, mesmo que seja verdadeira. Agora, se a notícia for contra o Lula, dispara a tecla de compartilhamento sem nenhuma checagem. O mesmo acontece com a maioria dos fãs do Lula.

Já escrevi nesse blog uma matéria sobre esse tema, onde batizei de "cavalo do cão eletrônico". Leia aqui. É claro que nem todo mundo que espalha fake tem desvio de personalidade ou deformação moral. Algumas notícias falsas são tão perfeitas que enganam até os mais criteriosos. Quem nunca espalhou uma, que atire a primeira pedra. Nos próximos posts deixarei algumas dicas de como se livrar dos fakes e não fazer o papel de cavalo do cão eletrônico.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

BRUMADINHO - QUANTO VALE UMA VIDA?

SILÊNCIO


Temos 26 letras e com elas já escrevemos todas as cartas de amor e todas as declarações de guerra. Com elas falamos as palavras mais suaves e também dissemos as mais ásperas. E todas essas letras e palavras são insuficientes para dizer da dor... da morte... Da tragédia que está abaixo e além da lama.

Temos 10 algarismos, do zero ao nove, e com eles fizemos todos as contas astronômicas e todos os cálculos microscópicos. Com eles construímos quantidades de fortunas pessoais, percentuais de lucros empresariais... ao lado dos números nacionais e mundiai de pobreza, fome, miséria humanas. E todos esses algarismos e números não são bastante para subtrair a morte, diminuir a dor...

Temos 7 notas musicais e com elas compusemos todas as sinfonias mais celestiais e todas as músicas-grude mais "infernais". Com essas notas musicais embalamos todas as cantigas de ninar a vida que nasce e também escrevemos em partituras todos os réquiens de chorar a vida que se (es)vai. E todas essas notas são poucas, muito poucas, para reproduzir o universo sonante e silencioso dos ais de dor de corações e almas que se partem ante a morte que vive em corpos sem vida...

Temos inúmeros modos e maneiras, jeitos e "jeitinhos", atos e atitudes, ritos e rituais para nos expressarmos ante o imponderável da tragédia, da morte, da agonia da dor, da perplexidade da perda. Mas tudo -- letras e palavras, algarismos e números, jeitos e maneiras, ritos e rituais --, tudo é nada ante a hora derradeira, o momento último, o instante extremo, o suspiro final.

Silêncio
silênci
silênc
silên
silê
sil
si
s
ssssssss! Corpos dormem... 

Deixem o silêncio gritar...

EDMILSON SANCHES
edmilsonsanches@uol.com.br

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

NATAL E JESUS

Jesus Cristo não nasceu em 25 de dezembro. Não nasceu em Belém. Não descendia de Davi.

O Natal era, na verdade, uma festa pagã, uma comemoração daqueles que, na antiga Roma, não eram batizados ou eram adeptos de religiões que não tinham batismo. Isso acontecia cerca de 1688 anos atrás, por volta do ano 330 de nossa era, ou seja, trezentos anos depois de Jesus Cristo ter sido crucificado.

O 25 DE DEZEMBRO PAGÃO - A festa dos pagãos homenageava o Sol. Como quase tudo antigamente, o calendário, as festas, as comemorações e homenagens baseavam-se nas leis da natureza. E o dia 25 de dezembro, naquela época, era o dia imediatamente posterior ao solstício de inverno, isto é, quando o Sol, no seu movimento de declinação, ficava na posição mais baixa, mais próxima do planeta Terra. Registros atuais informam que, hoje, o solstício de inverno ocorre em 23 de dezembro.

Os pagãos não gostavam daquela excessiva aproximação do Sol à Terra, mas o fato disso ocorrer significava que o astro-rei já estava reiniciando sua trajetória de retorno. Era algo como: “depois da tempestade, a bonança”, ou seja, após o solstício, o Sol voltava a subir para a parte mais alta do céu, e dali, de uma saudável distância, continuava a emitir seus raios, agora bem mais amenos e benfazejos para todos.

Essa festa era chamada de “Solis Invictus” (“Sol Invencível”) e o 25 de dezembro era considerado “o dia natalício do Sol Invicto”.

O 25 DE DEZEMBRO CRISTÃO - Os cristãos (portanto, pessoas que receberam o batismo) não gostavam nadinha daquele festival dos sem-batismo, os pagãos. Afinal, só Cristo, somente Deus deveria ser razão para tais homenagens. Tentaram, os cristãos, acabar com a festa, mas ela já estava muito arraigada nos costumes, era parte das tradições.

Então, como quem não pode com o inimigo deve se juntar a ele, os cristãos começaram a comemorar, também em 25 de dezembro, o dia natalício, o dia de nascimento do “verdadeiro Sol, a Luz do Mundo” -- Jesus Cristo. À medida que o Cristianismo se ia fortalecendo, com o aumento do número de cristãos e a ampliação do poder da Igreja, não teve jeito: os cristãos se apropriaram da festa e deram-lhe outro significado, mais espiritual. Agora, só os livros de curiosidades históricas guardam o que era o Natal... antes do Natal.

OS PRESENTES - Como sempre fica algo da antiga cultura, a absorção da festa pagã pelos cristãos não conseguiu extinguir um costume: o dos presentes. Na festa do “Sol Invencível”, nos idos de 330, os escravos tinham uma espécie de dia de alforria: podiam sentar-se à mesa com os seus senhores e destes recebiam presentes.

Hoje, o capitalismo, que só considera cidadão quem for consumidor, transforma o período de Natal no mais fértil momento de vendas de todo o ano. É o lado pagão da festa, pois, normalmente, os presentes têm em vista os próprios filhos (...e não o Filho de Deus) e os próprios pais na terra (...e não o Pai Eterno).

NASCIMENTO E MORTE - Voltando às primeiras palavras deste artigo, esclareça-se que tanto o nascimento quanto a morte de Jesus Cristo não têm data certa. De certo sabe-se que Cristo nasceu... antes de Cristo. Pois é: em função dos cálculos das sucessivas mudanças no calendário ocidental, sabe-se, hoje, sem nenhuma margem de erro, que Jesus Cristo não nasceu no ano da era que leva seu nome (Era Cristã). Jesus teria nascido pelo menos quatro ou até oito anos antes.

Estudos mais recentes dão conta de que o Salvador nasceu há 2023 ou 2024 anos, portanto, seis ou sete anos antes da Era Cristã. Neste caso, o próximo ano não seria 2019; deveria ser 2025 ou 2026. No mínimo, 2018. Como calendários são convenções, isto é, feitos e aceitos pelas pessoas, ninguém cogita de fazer o acerto pelo que reza a Ciência e a História. Assim, “la nave va”, e vai-se vivendo.

Os Evangelhos são relatos de Mateus, Lucas, João e Marcos, todos quatro, acredita-se, com convivência pessoal com Jesus. (Existem também os Evangelhos de Pedro e Tomé, ainda não considerados pela Igreja). Esses quatro livros bíblicos foram escritos entre os anos 70 e 100 do século 1, ou seja, pelo menos cerca de 40 a 70 anos após a morte de Cristo. Embora haja contradições entre si em alguns dados, os evangelistas que mais trataram da infância de Jesus (Mateus e Lucas) são unânimes em um fato: que o nascimento de Jesus deu-se ainda no reinado de Herodes Magno (não confundir com os filhos deste, de mesmo prenome: Herodes Antipas e Herodes Felipe). Portanto, como Herodes morreu quatro anos antes do ano 1 da Era Cristã, Jesus, quando foi crucificado, poderia ter até perto dos quarenta anos, e não apenas os 33 anos tão falados e anunciados (“33, idade de Cristo” – dizem, profanamente, os cantadores de bingo).

Portanto, Cristo nasceu entre 8 a.C. e 4 a.C., na cidade de Nazaré, da Galiléia, e não em Belém, da Judéia. Não é sem motivo que Jesus era e ficou mais conhecido como “nazareno” (lembrando a cidade natal) ou “um certo galileu” (lembrando a província). Nazaré teria de 2 mil a 3 mil habitantes. A versão de que José e Maria, grávida, foram a Belém por causa de uma contagem de população já foi descartada pelos historiadores atuais, embora ainda subsista na mente de quase todos os cristãos, fixada pelas músicas, conversas e, modernamente, pelos meios de comunicação, livros, cinema etc. Como Belém era a cidade de Davi, e como queriam ligar Jesus à descendência de Davi, forçaram a barra e construíram o roteiro e o motivo da viagem de José e Maria.

O nome “Jesus” (que em aramaico significa: “Javé é a salvação”) é uma variação de “Josué”, nome, por sua vez, muito comum entre os judeus -- tanto que o primeiro nome de Barrabás também era Jesus. “Cristo” não era um nome, mas um título, que em aramaico (a língua natal de Jesus) significa “o ungido”, “o messias”, o consagrado.

Adulto, Jesus tinha 1,80 m e 79 kg, altura e peso médios dos judeus da época. Esses números coincidem com os dados extraídos da imagem do sudário de Turim (Itália). Esse sudário, como se sabe, seria uma espécie de lençol com que fora coberto o Cristo morto, que deixou suas marcas no pano através de um processo ainda não explicado (radiação?), quando da sua ressurreição.

Pesquisadores e historiadores estão convencidos de que Cristo morreu com a idade de 33 a até 39 anos. Estudiosos respeitados calculam até a data precisa: ou 7 de abril de 30 (portanto, há 1988 anos), ou 30 de março de 36 (1982 anos atrás). Vale observar a diferença de mais ou menos uma semana no dia e de até sete anos no ano.

CRISTO: PARA OS QUE TÊM FÉ, OU A PROCURAM - Os fatos sobre Cristo são assim mesmo. Os evangelistas não eram historiadores, eram seguidores, admiradores, homens de fé. Não dispunham de instrumentos materiais ou metodológicos para relatar os fatos. Não é de estranhar, portanto, os erros, as contradições, as omissões. Talvez sequer soubessem os evangelistas que estavam fazendo história, como personagens e autores, biógrafos do próprio tempo.

Desse modo, os Evangelhos são para crer, não para ver. Eventualmente, o que neles está escrito pode servir de “pista” para os arqueólogos do saber, os desenterradores do passado, no belo ofício de buscar respostas e clarificar obscuridades. Pois todos queremos luz, seja no passado em que não vivemos, seja no futuro para onde, pós-morte, iremos.

Cristo, talvez, não seja para decifrar -- é para amar.

Talvez não tenha nascido para a História -- mas para a memória.

Talvez não tenha nascido para a Ciência -- mas para a consciência.

Muito mais espiritualidade, não apenas historicidade -- nem, muito menos, materialidade.

Feliz Natal.

EDMILSON SANCHES
esanches@jupiter.com.br

BIBLIOGRAFIA: "Vida de Jesus" (Ernest Renan, Ed. Martin Claret, SP, 1995); "Dicionário Bíblico" (John L. MacKenzie, SP, Ed. Paulinas, 1983); "Um Santo Para Cada Dia" (Mario Sgarbossa e Luigi Giovannini, SP, Ed. Paulus, 1996); "Os Santos de Cada Dia" (J. Alves, SP, Ed. Paulinas, 1990); "Guia dos Curiosos" (Marcelo Duarte, Ed. Cia. das Letras, SP, 1995); revista "Galileu", n° 113, dez./2000, Ed. Globo, RJ; revista "IstoÉ", n° 1629, 20/12/2000; “Houaiss Eletrônico”, versão monousuário 3.0 (Instituto Houaiss/Editora Objetiva, 2009).

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

TRENZINHO DA TIA VIVÍ É A NOVA SENSAÇÃO DE PARAUAPEBAS

Sabe aquele momento em que dá vontade de voltar a ser criança? Ou aquele momento que dá vontade de fazer uma programação de lazer com a família e esquecer os problemas da vida? Ou simplesmente se entregar a uma brincadeira inocente e deixar a alma voar levemente pelo universo da felicidade? Não sabe? Então está na hora de mudar os seus conceitos, pois talvez esteja se deixando envelhecer antes do tempo. 

Um passeio de trem inevitavelmente desperta o que
há de melhor em nossa lembrança. E quando esse passeio é feito em plena rua, sem trilhos, a bordo de uma locomotiva sobre rodas, cheio de luzes, cores, música e um astral contagiante, aí fica melhor ainda. Pois saiba que agora em Parauapebas já existe essa programação para toda a família.


Essa gostosa fonte de lazer e diversão já está disponível em Parauapebas. Um passeio de "trenzinho" que você só encontrava em pouquíssimas cidades turísticas do Brasil, agora está a nossa disposição aqui mesmo em nossa cidade. O blogger juntamente com um seleto grupo de amigos teve  o privilégio de participar do passeio de pré-inauguração nessa terça-feira a noite. E posso atestar que é muito bom e vale a pena. Uma diversão leve, saudável, e despretensiosa que nos faz enxergar a cidade sob uma nova óptica.

O casal Valamiel - donos do empreendimento - confere ao passeio um toque especial. O motorista sempre fantasiado com um personagem diferente esbanja simpatia e posa para fotos antes e depois do passeio. A Viviane que além de professora e psicopedagoga, assume o papel de "ferromoça".  Também se apresenta fantasiada e anima o passeio do início ao fim, sem descuidar da segurança da criançada. A música é uma atração a parte. Durante o passeio de apresentação, o trenzinho foi sensação por onde passou e foi recebido pela população com aplausos, acenos e muitas fotos. 

O que você está esperando para embarcar nessa emoção  com sua família e amigos?

A partir dessa quinta, as 19 horas, o trenzinho estará te esperando em frente ao mercado municipal do Rio Verde para um super passeio. Programa ideal especialmente para as pessoas de 02 a 100 anos. O passeio dura cerca de cinquenta minutos e custa $10,00 por pessoa. 

Embarque e se entregue a essa fantasia divertida. Você vai se divertir muito!

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

ATENDIMENTO DAS OPERADORAS DE CELULAR É UM PESADELO EM PARAUAPEBAS

Nos últimos dias a população se mobilizou em vários municípios do Pará contra os abusos cometidos pela Rede CELPA. Agora está na hora de voltar nossas baterias contra as operadoras de celular que operam por aqui. O número de reclamação já se assemelha à concessionária de energia e os abusos cometidos contra os clientes chegam a ser inacreditáveis. 
Nas lojas das operadoras aqui em Parauapebas, nota-se um tremendo despreparo e desrespeito aos clientes. Em pleno século XXI, é inacreditável que empresa que trabalha com tecnologia, age com prática ultrapassada e arcaica, fazendo do cliente uma peça descartável. E quando o atendimento é pelo call center, aí é um Deus nos acuda. A impressão que dá é que os atendentes são treinados exaustivamente para TIMenrolar e torrar a paciência do cliente e fazê-lo desistir de qualquer reclamação ou solicitação de serviço. É uma tal de musiquinha chata, propaganda, espera, espera...OI! E isso quando a ligação não cai. É caso de polícia. E adianta reclamar na ANATEL? Essa, age como agente de defesa das empresas telefônicas. A única solução será ficar de olho VIVO e organizar mobilização dos usuários para expor os péssimos serviços e enquadrar essas empresas que insistem em desrespeitar os clientes.
Durante a próxima semana, vamos expôr aqui alguns casos, citando o nome das operadoras. Se você já teve alguma experiência negativa com sua operadora, escreva e envie pelo whatsapp (94) 991754173.
É Claro que publicaremos também elogios às empresas que se destacam pelo bom atendimento e eficiência na prestação de serviço.

domingo, 2 de dezembro de 2018

UM RESUMO SOBRE A DITADURA PARA A NOVA GERAÇÃO

Às favas com os escrúpulos
O Brasil não conta a sua história. Não fez um filme que retratasse a ditadura

O Estado de S. Paulo
01 Dezembro 2018
Tudo começou com o Ato Institucional Número 1 (AI-1), baixado pela Junta Militar em 9 de abril de 1964. Cem personalidades, entre militares, deputados, governadores, economistas, políticos, jornalistas, que trabalhavam para o governo deposto, foram presos, exilados e cassados.
O País teria eleições gerais em 1965. Castelo Branco prometeu cumprir o calendário. Sabia-se por uma pesquisa do Ibope não divulgada que Juscelino Kubitschek ganharia com folga. Baixaram o AI-2: mais cassações, partidos políticos extintos e intervenção no Judiciário. Em 1966, o AI-3: eleições para governadores, prefeitos das capitais, estâncias e cidades de segurança nacional canceladas. O AI-4 revogou a Constituição de 1946 e proclamou outra. Até o golpe final, o AI-5, que faz 50 anos.
Em setembro de 1968, um quebra-quebra na UnB entre polícia e estudantes sobrou para deputados da oposição, que foram ao Congresso denunciar. Em 2 de setembro, o deputado Márcio Moreira Alves, Marcito, perguntou se Exército era um “valhacouto de torturadores?”. Foi almoçar. Voltou e, em referência a Lisístrata, de Aristófanes, que assistira no Teatro Ruth Escobar, comédia grega em que mulheres de várias cidades, cansadas de perder maridos e filhos numa guerra de mais de 20 anos, organizaram uma greve de sexo, sugeriu que brasileiras que se relacionassem com militares as imitassem.
O repórter de Brasília Rubem Azevedo Lima achou inusitada a comparação e publicou nota na Folha de S. Paulo. Deputado carioca bon vivant abriu uma crise no governo. O ministro Gama e Filho pediu que o Congresso abrisse processo contra o deputado. Em 11 de dezembro de 1968, por 216 a 136, votou contra.
O governo fechou o Congresso, e deputados tiveram que atravessar um corredor polonês de soldados com baionetas. Marcito partiu para o exílio com a mulher. Às 3 da tarde de 12 de dezembro de 1968, presidente Costa e Silva, chamado de “molengão” pelo ministro do Interior, general da linha-dura Albuquerque Lima, chegou ao Palácio das Laranjeiras e convocou o Conselho de Segurança Nacional.
Na noite de quinta-feira do dia 12 de dezembro de 1968, escutou relatos do general Garrastazu Médici, do SNI: uma luta armada estava em andamento; um sem-número de assaltos a bancos foram comandados pela ALN, de Marighella; em junho a VPR lançou um carro-bomba contra o quartel-general do 2.º Exército; na Cobrasma, em Osasco, 10 mil trabalhadores cruzaram os braços; a morte do estudante secundarista Edson Luís num confronto com a polícia provocou a Passeata dos Cem Mil; comunistas promoveram quebra-quebra no comício do governador Abreu Sodré (SP); em Ibiúna 920 foram presos num congresso clandestino da UNE.
Então, listou casos de indisciplina na tropa: em setembro, sindicância apurou que o brigadeiro Burnier usaria o Para-Sar para atentados políticos; capitães reclamaram de salários baixos e lançaram manifesto em novembro. Médici quer a decretação do estado de sítio. Costa e Silva diz: “Poder é como salame, toda vez que você o usa bem, corta só uma fatia, se usa mal, corta duas, mas se não usa, cortam-se três, e, em qualquer caso, ele fica sempre menor”.
Souberam do editorial duro escrito por Julio de Mesquita Filho, Instituições em Frangalhos, que o Estadão rodaria na madrugada. Uma operação militar foi desligar as rotativas do jornal. No dia 13 de dezembro, o jornal é impedido de circular.
À noite, Costa e Silva viu em Laranjeiras um faroeste com ministros mais íntimos. Soube que o general, comandante da Vila Militar, João Dutra de Castilho, estava rebelado. Na madrugada e durante todo o dia 13 de dezembro, no bucólico palácio, foi concebida a ditadura na ditadura, o golpe no golpe.
Na manhã do dia 13, Gama e Silva revisou as cinco páginas do AI-5. Generais foram à tarde ao QG do ministro Lira Tavares. General Muricy, chefe do Estado Maior do Exército, achava que “precisavam começar tudo de novo”. General Muniz de Aragão: “Se o presidente está vacilante, que seja atropelado”. Decidiram que Orlando Geisel, chefe do Emfa, iria a Laranjeiras expor a situação.
Geisel chegou com comandante do Primeiro Exército, Syseno Sarmento. Costa e Silva não os recebeu, subiu para o primeiro andar e se trancou. Ficou ouvindo música, esperando o vice, Pedro Aleixo. Às 16h, desceram para a reunião no grande salão e leu o AI-5. “Ou a revolução continua ou se desagrega”, disse. Pedro Aleixo discordava do ato. O ministro do Exército Lyra Tavares falou da grande tensão no País. Magalhães Pinto, chanceler, falou que o direito do cidadão deveria ser resguardado. Delfim Neto, plenamente de acordo com o Ato, disse que não era suficiente e deveria se estender para a economia. Jarbas Passarinho chamou a reunião de histórica e disse a frase que a marcou: “Às favas todos os escrúpulos de consciência”.
O locutor da Agência Nacional, Alberto Curi, o leu na TV. Lacerda, JK, Sobral Pinto foram presos, 66 professores, como Caio Prado, FHC, Florestan Fernandes, foram expulsos das universidades, Marília Pêra foi trancada num mictório de quartel, Caetano e Gil foram presos em São Paulo, tiveram suas cabeças raspadas e foram expulsos do País. Chico Buarque, Vinicius de Moraes, Raul Seixas, Geraldo Vandré, os diretores de teatro Augusto Boal e Zé Celso se exilaram. O Congresso Nacional ficou fechado até 21 de outubro de 1969.
Um homem só, o general, poderia intervir no Congresso, Assembleias, Câmaras de Vereadores, Poder Judiciário, Estados e municípios, suspender os direitos políticos de qualquer cidadão, cassar mandatos eletivos, decretar o confisco de bens e o estado de sítio. Instituiu censura e o fim do habeas corpus.
Escrevi essa sinopse de um longa há três anos, baseado em Elio Gaspari, claro, e muita pesquisa. Não saiu do papel. O Brasil não conta a sua história. Não fez um filme que retratasse a ditadura, digno do Oscar, como História Oficial, Segredo dos Seus Olhos, No, Missing, Estado de Sítio, Uma Noite de 12 Anos, entre outros. Não por outra, alguns a querem de volta.

 Marcelo Rubens Paiva

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

APAIXONEI-ME POR UMA PROSTITUTA! E AGORA?!

No começo tudo era um sonho. Ela foi chegando de mansinho, foi me cercando de carinho, cuidados e promessas de uma vida farta.

Sua voz rouca, seus lábios de mel, suas mãos de veludo, seu corpo juvenil... Tudo era um convite irrecusável para um mergulho sem volta no lago do amor.

Quando meus olhos cruzaram com os seus, senti o coração palpitar precipitadamente, um torpor dominou meu rosto, uma vertigem fez o mundo girar e tive a sensação que meus pés perderam o contato com o chão. Agarrei-me a ela como a única tábua de salvação num oceano infindo. Aquele olhar profundo, feito duas bolas de puro mistério, invadiu minha alma pura e sem pedir licença, se apossou do meu coração sem frescura.

De um lado meus instintos racionais me pediam para fugir da armadilha; por outro lado, meus sentimentos pediam para me entregar sem medo. Foi uma luta hercúlea, onde a emoção venceu a razão. Quando menos percebi, já estava completamente envolvido, dominado, subjugado, como uma aranha presa em sua própria teia, que não luta, não resiste, apenas assiste como dominado por um poderoso ópio.

No começo tudo era um sonho. Ah, que sonho! Aos poucos, tudo foi se transformando num pesadelo.

Aquela ilusão de que eu era único, especial, importante, insubstituível foi caindo por terra. Percebi que eu era apenas mais um nessa engrenagem que seria usado, mastigado e cuspido sem piedade. 

Suas carícias agora eram arranhões que deixavam cicatrizes eternas; seus olhos que antes sugeriam mistério, agora exprimiam desilusão, desesperança e medo. Suas formas sensuais foram se transformando num corpo disforme, infame e medonho. Será que não fora sempre assim e eu não percebi por estar cego pelo amor? - Pensei confuso.

Tentei fugir da armadilha. Tarde demais. Já estava completamente dominado, dependente, subjugado, viciado, fragilizado. 

Pior do que suportar as dores desse amor insano, é suportar a opressão e o domínio do seu cafetão. Um verdadeiro carrasco frio, dominador, cruel e violento. Não bastasse ela, que suga toda minha energia, ele me arranca toda a dignidade, toda a possibilidade de humanidade. Dita ordens, cada uma mais absurda que a outra, impõe novas e arbitrárias resoluções, vocifera, esbraveja e humilha. Como uma porca gorda que já não anda, uma velha faca cega que há muito não corta, o cafetão vai roubando minha energia, minha saúde e, exigindo cada vez mais sacrifício para manter o seu poder.

Me debato, me arrebato, grito, esperneio... tudo em vão. Já atravessei a linha do caminho sem volta. Estou completamente dominado por essa prostituta e seu poderoso cafetão. Agora só me resta esperar o momento onde não servirei mais aos seus propósitos, e finalmente, serei cuspido. Pelo menos, restará a ilusão do "enfim livre". 

Mas afinal, quem é essa prostituta? Quem é esse cafetão? Ela se chama EDUCAÇÃO e ele se chama ESTADO.


PS. Com esse texto não estou denegrindo a educação nem desmerecendo as prostitutas. Sou professor da rede pública há 32 anos e sou completamente apaixonado por minha missão de educar. Apenas ofereço uma crítica à forma como os governantes tratam a educação e os professores.

Parabéns a todos os educadores que, apesar das adversidades, insistem nessa nobre missão. 

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Sua tia não é fascista, ela está sendo manipulada

 Você se pergunta como um candidato com tão poucas qualidades e com tantos defeitos pode conseguir o apoio quase que incondicional de grande parte da população?

 Você já tentou argumentar racionalmente com os eleitores deles, mas parece que eles estão absolutamente decididos e te tratam imediatamente como inimigo no mais leve aceno de contrariedade?

 Até sua tia, que sempre foi fofa com você, agora ataca seus posts sobre política no facebook?

 Pois bem, vou contar uma história.

 O principal nome dessa história é um sujeito chamado Steve Bannon. Bannon tinha uma visão de extrema direita nacionalista. Ele tinha um site no qual expressava seus pontos de vista que flertavam com o machismo, com a homofobia, com a xenofobia, etc. Porém, o site tinha pouca visibilidade e seu sonho era que suas ideias se espalhassem com mais força no mundo.

 Para isso, Bannon contratou uma empresa chamada Cambridge Analytica. Essa empresa conseguiu dados do facebook de milhões de contas de perfis por todo mundo. Todo tipo de dado acumulado pelo facebook: curtidas, comentários, mensagens privadas. De posse desses dados e utilizando algoritmos, essa empresa poderia traçar perfis psicológicos detalhados dos indivíduos.

 Tais perfis seriam então utilizados para verificar quais indivíduos estariam mais predispostos a receber as mensagens: aqueles com disposição de acreditar em teorias conspiratórias sobre o governo, por exemplo, ou que apresentavam algum sentimento de contrariedade difuso ao cenário político atual.

  A estratégia seria fazer com que esse indivíduo suscetível a essas mensagens mudasse seu comportamento, se radicalizasse. Como as pessoas passaram a receber as notícias e a perceber o mundo principalmente através das redes sociais, não é difícil manipular essas informações. Se você pode controlar as informações a que uma pessoa tem acesso, você pode controlar a maneira com que ela percebe o mundo e, com isso, pode influenciar a maneira como se comporta e age.

 Posts no facebook podem te fazer mais feliz ou triste, com raiva ou com medo. E os algoritmos sabem identificar as mudanças no seu comportamento pela análise dos padrões das suas postagens, curtidas, comentários.

 Assim, indivíduos com perfis de direita e seu tradicional discurso “não gosto de impostos” foram radicalizados para perfis paranóicos em relação ao governo e a determinados grupos sociais. A manipulação poderia ser feita, por exemplo, através do medo: “o governo quer tirar suas armas”. Esse tipo de mensagem estimula um sentimento de impotência e de não ser capaz de se defender. Estimula também um sentimento de “somos nós contra eles”, o que fecha a pessoa para argumentos racionais.

 Sites e blogs foram fabricados com notícias falsas para bombardear diretamente as pessoas influenciáveis a esse tipo de mensagem. Além disso, foi explorado também um sentimento anti-establishment, anti-mídia tradicional e anti “tudo isso que está aí”. Quando as pessoas recebiam várias notícias de forma direta, e não viam essas notícias repercutirem na grande mídia, chegavam à conclusão de que a grande mídia mente e esconde a verdade que eles tem.

 Se antes a mídia tradicional podia manipular a população, a manipulação teria que ser feita abertamente, aos olhos de todos. Agora, todos temos telas privadas que nos mandam mensagens diretamente. Ninguém sabe que tipo de informação a pessoa do lado está recebendo ou quais mensagens estão construindo sua percepção de realidade.

 Com esse poder nas mãos, Bannon conseguiu popularizar a alt right (movimento de extrema direita americana) entre os jovens, que resultou nos protestos  “unite de right” no ano passado em Charlottesville, Virgínia que tiveram a participação de supremacistas brancos. Bannon trabalhou na campanha presidencial de Donald Trump e foi estrategista de seu governo. A Cambridge Analytica trabalhou também no referendo do Brexit, que foi vencido principalmente por argumentos originados de fakenews.

 Quando a manipulação veio à tona, Mark Zuckerberg foi chamado ao senado americano para depor. Pra quem entendeu o que houve, ficou claro que a democracia da nação mais importante do mundo havia sido hackeada. Mas os congressistas pouco entendimento tinham de mídia social; e quem estaria disposto a admitir que a democracia pode ser hackeada através da manipulação dos indivíduos? 

 Zuckerberg estava apenas pensando em estabelecer um modelo de negócios lucrativo com a venda de anúncios direcionados. A coleta de dados e a avaliação de perfil psicológico das pessoas tinham a intenção “inocente” de fazer as pessoas clicarem em anúncios pagos. Era apenas um modelo de negócios. Mas esse mesmo instrumento pode ser usado com finalidade política.

 Ele se deu conta disso e sabia que as eleições brasileiras podiam estar em risco também. Somos uma das maiores democracias do mundo. O facebook tomou medidas ativas para evitar que as campanhas de desinformação e manipulações ocorressem em sua rede social. Muitas contas fake e páginas que compartilhavam informações falsas foram retiradas do facebook no período que antecede as eleições.

 Mas não contavam com a capilarização e a popularização dos grupos de whatsapp. Whatsapp é um aplicativo de mensagens diretas entre indivíduos; por isso, não pode ser monitorado externamente. Não há como regular as fakenews, portanto. Fazer um perfil fake no whatsapp também é bem mais fácil que em outras redes sociais e mais difícil de ser detectado.

 Lembram do Steve Bannon, que sonhou com o retorno de uma extrema direita nacionalista forte mundialmente? Que tinha ideias que são classificadas como anti minorias, racistas e homofóbicas? E que usou um sentimento difuso anti “tudo que está aí”, e um medo de os homens se sentirem indefesos para conquistar adeptos?

 Pois bem, ele se encontrou em agosto com Eduardo Bolsonaro. Bolsonaro disse que o Bannon apoiaria a campanha do seu pai com suporte e “dicas de internet”, essas coisas. Bannon é agora um “consultor eventual” da campanha. Era o candidato ideal pra ele, por compartilhava suas ideias, no cenário ideal: um país passando por uma grave crise econômica com a população desiludida com a sua classe política. 

 Logo depois de manifestações de mulheres nas ruas de todo o Brasil e do mundo contra Bolsonaro, o apoio do candidato subiu, entre o público feminino, de 18 para 24 por cento. Um aumento de 6 pontos depois de grande parte das mulheres se unir para demonstrar sua insatisfação com o candidato.

 Isso acontece porque, de um lado, a grande mídia simplesmente ignorou as manifestações e, por outro, houve um ataque preciso às manifestações através dos grupos de whatsapp pró-Bolsonaro. Vídeos foram editados com cenas de outras manifestações, com mulheres mostrando os seios ou quebrando imagens sacras, mas utilizadas dessa vez para desmoralizar o movimento #elenão entre as mais conservadoras.

 Além disso, Eduardo Bolsonaro veio a público logo após a manifestação e declarou: “As mulheres de direita são mais bonitas que as de esquerda. Elas não mostram os peitos e nem defecam nas ruas. As mulheres de direita têm mais higiene.” Essa declaração pode parece pueril ou simplesmente estúpida mas é feita sob medida para estimular um sentimento de repulsa para com o “outro lado”.

Isso não é nenhuma novidade. A máquina de propaganda do nazismo alemão associava os judeus a ratos. O discurso era que os judeus estavam infestando as cidades alemãs como os ratos. Esse é um discurso que associa o sentimento de repulsa e nojo a uma determinada população, o que faz com que o indivíduo queira se identificar com o lado “limpo” da história. Daí os 6 por cento das mulheres que passaram a se identificar com o Bolsonaro.

 Agora é possível compreender porque é tão difícil usar argumentos racionais para dialogar com um eleitor do Bolsonaro? Agora você se dá conta do nível de manipulação emocional a que seus amigos e familiares estão expostos? Então a pergunta é: “o que fazer?”

 Não adiante confrontá-los e acusá-los de massa de manobra. Isso só vai fazer com que eles se fechem e classifiquem você como um inimigo “do outro lado”. Ser chamado de manipulado pode ser interpretado como ser chamado de burro, o que só vai gerar uma troca de insultos improdutiva.

 Tenha empatia. Essas pessoas não são tolas ou malvadas; elas estão tendo suas emoções manipuladas e estão submetidas a uma percepção da realidade bastante diferente da sua.

Tente trazê-las aos poucos para a razão. Não ofereça seus argumentos racionais logo de cara, eles não vão funcionar com essas pessoas. A única maneira de mudar seu pensamento é fazer com que tais pessoas percebam sozinhas que não há argumentos que fundamentem suas crenças e as notícias veiculadas de maneira falsa.

 Isso só pode ser feito com uma grande dose de paciência e de escuta. Peça para que a pessoa defenda racionalmente suas decisões políticas. Esteja aberto para ouvi-la, mas continue sempre perguntando mais e mais, até ela perceber que chegou num ponto em que não tem argumentos para responder.

 Pergunte, por exemplo: “Por que você decidiu por esse candidato? Por que você acha que ele vai mudar as coisas? Você acha que ele está preparado? Você conhece as propostas dele? Conhece o histórico dele como político? Quais realizações ele fez antes que você aprova?”

 Em muitos casos, a pessoa tentará mudar o discurso para falar mal de um outro partido ou do movimento feminista. Tal estratégia é esperada porque eles foram programados para achar que isso representa “o outro lado”, os inimigos a combater.

Nesse caso, o caminho continua o mesmo: tentar trazer a pessoa para sua própria razão: “Por que você acha que esse partido é tão ruim assim? Sua vida melhorou ou piorou quando esse partido estava no poder? Como você conhece o movimento feminista? Você já participou de alguma reunião feminista ou conhece alguém envolvido nessa luta?”

 Se perceber que a pessoa não está pronta para debater, simplesmente retire-se da discussão. Não agrida ou nem ofenda, comportamento que radicalizaria o pensamento de “somos nós contra eles”. Tenha em mente que os discursos que essa pessoa acredita foram incutidos nela de maneira que houvesse uma verdadeira identificação emocional, se tornando uma espécie de segunda identidade. Não é de uma hora pra outra que se muda algo assim.

 Duas das mais importantes democracias do mundo já foram hackeadas utilizando tais técnicas de manipulação. O alvo atual é o nosso país, com uma das mais importantes democracias do mundo. Não vamos deixar que essas forças nos joguem uns contra os outros, rasgando nosso tecido social de uma maneira irrecuperável.

  P.S.: Por favor, pesquise extensamente sobre todo e qualquer assunto que expus aqui, e sobre o qual você esteja em dúvida. Não sou de nenhum partido. Sou filósofo e,  como filósofo, me interesso pela verdade, pela ética e pelo verdadeiro debate de ideias.


Texto de Rafael Azzi

domingo, 7 de outubro de 2018

O OVO DA SERPENTE

No início, era só uma pequena possibilidade, uma distração de alguns desavisados. 
A serpente está morta e bem lacrada no seu túmulo negro, restando somente uma triste lembrança - pensávamos. Mas desprezamos o seu ovo que repousava com segurança no velho pântano de lama negra. Abandonado desde os tempos de horror, jazia latente, pronto para eclodir, bastando para isso uma grande dose de veneno.
O veneno foi surgindo aos poucos, sem que déssemos a devida importância. No início, apenas alguns tolos, desprovidos de conhecimento, de consciência ou mesmo de vergonha. Aqui, acolá, outros foram se juntando e ampliando esse cortejo fétido disfarçado de marcha redentora. "O mito, o salvador da pátria, Deus, pátria, família..." - elementos de sedução espalhados pela chuva despretensiosa de fim de tarde disfarçavam o cheiro de putrefação que pairava no ar, confundindo com o cheiro de primavera. Agora já não era somente os desprovidos de idéias, pobres inocentes. Sem nenhum pudor, foi se juntando a madame, o doutor, o ateu, o reverendo e o pastor. Quem defendia a vida, de repente passou a defender a morte; quem pregava a paz agora balbucia frases desconexas de rancor; quem propalava a esperança, agora ataca com fúria seus semelhantes; quem oferecia uma flor, um livro, agora deseja um fuzil. 
Numa espécie de transe frenético, um torpor, uma histeria coletiva, a procissão vai seguindo como onda, arrastando outros desavisados. Marcham como zumbis, repetem frases vazias como mantras, confiam cegamente no líder vazio e falastrão que vocifera enquanto expele bílis pela boca e sangra sob a lâmina fria do seu próprio pensamento.
Aos poucos, uma nuvem negra foi surgindo no horizonte, tornando-se uma ameaça real. O que era uma possibilidade ridícula, foi se transformando em pesadelo real. O ovo está pronto para eclodir. Foi chocado pela intolerância, pelo preconceito, pelo ódio, pela ganância e por todo tipo de mal.
Eis que surge a cabeça da serpente, que nem saiu do ovo e já ameaça devorar o séquito de seguidores que lhes deu a vida para depois vomitar impiedosamente. Um grito abafado, um clamor ecoa no horizonte da razão: e agora, quem será capaz de cortar a cabeça da serpente antes que se torne um dragão?

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

OS BUMBOS DO ANTIPETISMO

Por Tereza Cruvinel, no Jornal do Brasil:

Entre sexta-feira e ontem, quando o Datafolha fez sua última pesquisa, Jair Bolsonaro cresceu quatro pontos, passando de 28% para 32%, apesar das manifestações nacionais que as mulheres fizeram contra ele no sábado. 

O petista Fernando Haddad encolheu de 22% para 21%, e se não se recuperar, irá para o segundo turno enfraquecido. 

O que deu impulso a Bolsonaro foi o troar do antipetismo, no discurso de Alckmin e concorrentes, através das manobras do STF para calar Lula e da jogada de Moro ao liberar a delação de Palocci. 

A guerra do segundo turno está se antecipando e será pesada, talvez suja mesmo.

Quem nunca ouviu alguém dizer que deixará o Brasil se Bolsonaro virar presidente? 

Pois trate de conferir o passaporte. Na simulação de segundo turno do Datafolha, o capitão cresceu de 39% para 44% e Haddad caiu de 45% para 42%. 

O instituto, com rigor metodológico, fala em empate técnico, mas o que temos aí é mesmo um quadro em que Bolsonaro derrota o petista. 

E pode ganhar mesmo, por mais espantoso que seja escrever isso, admitindo que uma maioria eleitoral ressentida e egoísta pode impor ao Brasil a opção pelo autoritarismo, pelo capitalismo mais arcaico e pela regressão nos costumes.

Ciro Gomes continua aparecendo como quem tem mais chances de derrotar o ex-capitão no segundo turno (45% a 39%), mas, no adiantar da hora, só um crescimento sobrenatural poderia levá-lo a ultrapassar o petista. 

A mesma pesquisa diz que 84% dos eleitores de Bolsonaro e 82% dos eleitores do petista declaram que não mudarão o voto. 

Isso finca os dois no segundo turno, mas hoje o petista chegaria fragilizado. 

A erupção do antipetismo barrou Haddad e fez sua rejeição subir de 32% para 41%. 

A de Bolsonaro, sob os ecos do #elenão, caiu de 46% para 45%.

O antipetista já era um ser amargurado muito antes de o PT, achando que podia fazer o que os outros sempre fizeram, cometer os erros que lhe foram cobrados com rigor nunca antes aplicado a outros partidos que, para governar, também transigiram com a corrupção e com o fisiologismo. 

O antipetista, que votava no PSDB, soltou fogos quando estourou o mensalão, mas tucanos e pefelistas não ousaram tentar o impeachment de Lula. 

O antipetista vibrou depois com a condenação e prisão de estrelas como Genoíno e Dirceu no julgamento da AP-470. 

No segundo governo Lula, a ascensão dos pobres, os aviões cheios, os jovens pobres nas universidades, o sucesso internacional do Brasil e de Lula, tudo aquilo era intolerável, e o PT ainda elegeu Dilma. 

Mas em 2014, com o petrolão e a Lava Jato, pensou o antipetista, aquilo teria fim. Dilma se reelegeu. 

O PSDB juntou-se com o MDB para derrubar Dilma, mas o governo de Temer aprofundou a recessão e desnudou a corrupção emedebista. 

Os antipetistas trocaram então o PSDB por Bolsonaro. Ele não encarna exatamente uma extrema-direita, como a europeia, ou como Trump. Ele incorporou o espírito do antipetismo, acrescido de preconceito e de moralismo.

Nos últimos dias o candidato tucano Geraldo Alckmin adubou o antipetismo com suas peças de campanha: “votou Bolsonaro, elegeu o PT”, diz suas marchinhas. Todo seu discurso é sobre o “risco de o PT voltar”. 

Apontando o perigo oposto, o da vitória de Bolsonaro, Ciro também bate no PT. 

E a mídia repete o filme, publicando a delação de Palocci liberada por Moro.

Nesta hora tão sombria, vem de um lúcido representante da alta burguesia industrial, o empresário Ricardo Semler, sóbrias e sensatas advertências à sua classe, em artigo publicado ontem na Folha de S. Paulo: 

“Colegas de elite, acordem. Não se vota com bílis. O PT errou sem parar nos 12 anos, mas talvez queria e possa mostrar, num segundo ciclo, que ainda é melhor do que o Centrão megacorrupto ou uma ditadura autoritária. Foi assim que a Europa inteira se tornou civilizada. Precisamos de tempo, como nação, para espantar a ignorância e aprendermos a ser estáveis. Não vamos deixar o pavor instruir nossas escolhas”.