Pesquisar este blog

segunda-feira, 1 de junho de 2020

A INDIGNAÇÃO À ESTUPIDEZ HUMANA

Tenho procurado me ausentar das discussões em redes sociais. Porém, nos deparamos com tantos absurdos, tanta insanidade, tanta falta de humanidade e empatia que o meu lado humano, minha indignação fala mais alto. A vontade é de usar palavrões, de chutar o fígado, de esculachar. Me vem á cabeça a imagem de Jesus xingando os fariseus de hipócritas, sepulcros caiados, literalmente perdendo a compostura (Mateus, 23). Mesmo sendo o Filho de Deus, seu lado humano as vezes sobressaltava.
Ao ler uma postagem no Blog do Zé Dudu com o título "FILHO DE DEPUTADO ESTADUAL PARAENSE É PRESO COM 40 KG DE MACONHA NO MARANHÃO", caí na besteira de ler os comentários. Me ferrei. Mesmo me controlando, segurando meu ímpeto, não resisti e lá estava eu, respondendo aos comentários, literalmente chutando o estômago dos julgadores do espelho. "Os maus são minoria, mas são barulhentos e causam danos irreparáveis quando os bons se calam". E não me calei, mesmo com todo o controle que tenho.
Que fique claro que minha indignação não foi contra a matéria do blog, e sim, contra a postura, a estupidez de alguns comentários tipo: "Maconheiro do PT! Se fu**!!" "PT e espera o que?"(com erros). "A madastra é defensora dos direitos dos manos". "...ainda mais vindo e sendo filho de deputado de PT" (... ) e outros comentários no mesmo nível. Felizmente, outas pessoas sensatas comentaram, mas com timidez.
Conheço o Rogério. O pai, conheço de longe e, aqui não julgo pela óptica política e nem entro no mérito da criação do seu filho. Analiso a banalidade dos julgadores de plantão que vão logo condenando e associando a filiação partidária com ódio de classe e excesso de ignorância.
Pelo seu erro, parabenizo a ação da polícia que fez seu trabalho com sucesso. Torço para que seja julgado e pague com justiça pelos seus erros e volte a ser um cidadão exemplar, um professor, de acordo com as orientações e projeto de sua família. Conheço a sua mãe (quem criou desde sempre) e sei o quanto ela se dedicou para que ele tivesse a melhor educação e caráter irretocável.
Aos que estão fazendo comentários maliciosos e julgando os pais pela preferência política, torço para que um dia, seus filhos não caiam na armadilha das drogas. E não adianta dizer que cria bem os seus filhos, pois ninguém, absolutamente ninguém está livre de passar por isso. Já vi esse filme muitas vezes.
E finalmente digo: a atitude demonstrada em alguns comentários é tão repugnante que me recuso acreditar que vieram de mentes humanas. Por isso, quando uso palavras duras, quero chocar, causar impacto nessas pessoas e, quem sabe, fazer com que o choque façam voltar ao eixo e voltar a pensar como humanos. Se eu não conseguir causar isso, pelo menos o desabafo já serviu para desintoxicar minhas células.

domingo, 24 de maio de 2020

A REVOLUÇÃO DOS RATOS




By Luiz Vieira

Essa é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com a realidade, será mera coincidência

Parte I

            Tudo estava tranquilo no submundo frio e fétido do esgoto. Ratos e ratazanas viviam no seu ambiente se alimentando dos dejetos que corriam fartamente do mundo dos humanos. Ali, todos eram felizes e viviam em harmonia. Seguiam a ordem para não ultrapassar os limites do esgoto e não adentrar no mundo dos humanos.
            De vez em quando, um ou outro rato rebelde quebrava a rotina e, movido pela curiosidade e atraído pelo cheiro dos humanos, desobedeciam às ordens e saiam do esgoto em busca de aventura e novidade. Geralmente, eram esmagados, pisoteados ou envenenados. Apesar do perigo e das recomendações contrárias, cada vez mais, aumentava o número de ratos rebeldes que ignoravam o perigo de circular entre humanos.
            Um velho rato viciado em queijo, viveu sua vida inteira traçando um plano para se tornar humano e conviver fora do submundo dos esgotos. Em uma de suas aventuras, já bem à vontade na sua incursão na farta cozinha de homens engravatados e poderosos, foi contaminado por uma fatia de queijo envenenado. O pobre rato escapou da morte, mas a mistura do veneno com a saliva de um humano corrupto, provocou um efeito nunca visto antes na história dos ratos: ele começou a sofrer um processo de mutação. Lentamente, foi desenvolvendo as características físicas de humanos. No início, foi uma tragédia. Passou a ser hostilizado pelos seus semelhantes e forçado a viver isolado num canto do esgoto onde todos evitavam passar perto.
            Com o passar do tempo, o que era uma aberração, passou a ser uma atração para os ratos, principalmente para os mais jovens ou para os velhacos que viviam saudosos do tempo em que frequentavam a cozinha do palácio negro dos humanos. Aos poucos, começaram a frequentar aquela área isolada do esgoto e ouvir as histórias do velho rato transmutado. E passaram a chama-lo de MITO.

Parte II

            Cada dia mais popular entre a horda de ratos que almejavam viver entre humanos, o velho rato transmutado ia ganhando mais adeptos. A cada dia, seu físico se parecia mais com humano, enquanto o cérebro continuava de rato. Agora, com o isolamento afrouxado devido a sua popularidade entre os ratos, organizava excursões pelo mundo dos humanos e ensinava os ratos a copiar o comportamento deles. E mais: após tanta insistência, descobriu a combinação que havia lhe causado a transmutação. Agora, ele não estava só. Uma legião de ratos transmutados crescia exponencialmente.
            Animado com seu sucesso e o número de ratos transmutados, o rato chefe que era chamado de mito, traçou um plano para viver definitivamente no mundo dos humanos.
            - Lá é bem melhor e poderemos nos adaptar facilmente. Além de sermos numerosos, encontraremos muitos aliados entre os humanos que pensam quase igual a nós. Vamos dominar geral, e quem sabe, ocupar o topo. Os melhores queijos nos aguardam! – falou o rato chefe aos gritos empolgados dos seus adeptos.
            - Mito, mito, mito...
            O rato chefe ganhou um nome de humano. Passou a ser chamado de Picotauro. Estava cada vez mais entrosado ao mudo humano. Entrou para o exército e, apesar da pouca habilidade e inteligência, mas com muita astúcia, conseguiu ser promovido a cabo. Mas logo foi expulso por indisciplina e por atentar contra a instituição. Para evitar escândalo, o exército optou pela aposentadoria compulsória. Agora ele queria mais. “Quero entrar no centro do poder, onde muitos pensam como eu”. E virou deputado. Lá ficou quase três décadas sem fazer nada, só observando o comportamento de seus pares e aprendendo. Achou tudo muito parecido com sua realidade do esgoto da Ratolândia.
            Picotauro queria mais. Achou que já era hora de dar um passo maior. “Quero estar no centro do poder e mandar nessa porra toda. Empolgado com o sucesso dos seus semelhantes ratos transmutados que ocupavam posições importantes, decidiu pôr em prática seu velho plano. Numa assembleia secreta na galeria central do esgoto, traçou minuciosamente seu plano junto com seus parceiros que já era maioria.
            - Vamos dominar geral essa porra. Chega de viver na sombra. Vamos assumir tudo e nos vingar desses filhos da puta dos humanos que nos pisoteou, nos envenenou, nos esmagou com suas armadilhas cruéis – bradou Picotauro com baba na boca.
            - Mito, mito, mito... – respondia a turba de ratos transmutados como se estivessem em transe, hipnotizados.
            - E para começar, vamos atrair os humanos que mais se parecem conosco. Vamos usar suas ferramentas e seus pontos fracos – falou Picotauro.
            - A internet. Os humanos adoram internet e espalham notícias falsas sem nenhum escrúpulo. A maioria só se informa por essa ferramenta e acredita cegamente – opinou um membro da assembleia.
            - Bravo, muito bem. Vamos usar a internet e espalhar notícias falsas. Vamos fazer com que os humanos se odeiem, se matem. Mas alguma ideia? – Perguntou Picotauro.
            - Meu cabo, notei que muitos humanos tem uma obsessão por armas. Deve ser alguma tara. Vamos aproveitar esse instinto e armar todo mundo. Assim eles terão a falsa sensação de segurança e se matam mais rápido – opinou um rato-humano musculoso e de cabeça pequena.
            - Ótima ideia! Aplausos. Alguém mais? – Respondeu Picotauro sorrindo e fazendo um gesto com a mão direita e o dedo indicador em riste na horizontal como se estivesse atirando. Todos os presentes imitaram seu gesto.
            - Cabo Picotauro, notei que muitos humanos parecidos conosco tem um lado reprimido. São homofóbicos, racistas, machistas, genocidas, misóginos, tem ódio dos seus semelhantes pobres, mas vivem escondidos e disfarçados devido as leis que criminalizam esse comportamento e a perseguição do povo dos Direitos Humanos. Por que não começamos a exaltar e propagar esse comportamento como atitude de quem tem coragem e de quem é verdadeiro? E quem for contra, chamamos de nutela, de mi-mi-mi. Que tal?
            - Muito bem meu filho. Você é foda. Já tá até falando difícil como a escória humana. Há, há, há... – respondeu Picotauro com uma risada sádica de contentamento.
            - Cabo Picotauro, além de usar a internet para espalhar nossas ideias, vamos chamar todo mundo que não concordar conosco de comunista, de esquerdista, de terrorista. E vamos chamar todo universitário de vagabundo maconheiro. E aos cientistas filhos da puta, vamos desacreditá-los, dizer que vivem às custas do dinheiro público para plantar mentira e espalhar o comunismo – falou empolgado um ratão-humano de meia idade cheio de anabolizante.
            - É isso aí. Gostei dessa. Nem sei o que significam essas palavras mas se é para ferrar com os humanos, “tamo junto” – empolgou-se Picotauro. Mais alguém tem outra ideia?
            - Senhores, senhoras, gostei de todas as ideias. Mas temos que encontrar um jeito criativo para enganar os humanos e não assustá-los. Lembrem-se de que antes de exterminar com essa raça de “estrumes”, precisamos deles para a nossa causa – falou uma voz dissonante no fundo da assembleia.
            - Muito bem senhora. Até que enfim, uma ratazana fala algo que se aproveite. Explique melhor – falou Picotauro com ironia.
            - É o seguinte: temos que ter algum grupo humano que nos dê cobertura e ajude a legitimar nossas ideias. Vamos usar as igrejas, vamos ocupar os templos e convencer as almas mais fracas e ambiciosas para a nossa causa – respondeu a ratazana do fundo da galeria vestida como uma devota e com uma Bíblia na mão.
            - Bravo, bravo, bravo. Aplauso para a nossa membra ilustre. Agora você será nossa representante nisso aí – gritou histericamente Picotauro espalhando perdigoto. – E agora vamos deixar de conversa e vamos partir para a prática. Soldados, patriotas, vamos ao ataque. Abaixo os humanos!
            - Mito, mito, mito... – Gritava a turba de ratos transmutados como um exército de zumbis.

Continua?
Não sei.

quinta-feira, 22 de agosto de 2019






O CAMINHO DAS ESTRELAS: MISTÉRIOS, AVENTURAS E APRENDIZADOS NO CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA.

A pedido dos amigos, disponibilizo aqui o prefácio que acabou sendo um resumo do meu livro. Lançamento previsto para setembro. Uma pequena amostra para degustação. 
PREFÁCIO


Este livro vai revelar a você dois caminhos: um que leva a Santiago de Compostela; o outro, que conduz ao coração de um homem.
Todo ser humano que sai à procura de alguma coisa já a carrega dentro de si. Por isso que uma busca não é uma busca -- é uma revelação. Como aconteceu a Cristo, que muito pregou -- mas só após a cruz fez a ascensão. Ou com Buda, que tanto caminhou -- mas sentado é que chegou à iluminação.
A imagem da busca é a de alguém que segue um caminho. A realidade da busca é a de um caminho que prossegue em alguém.
Mas os caminhos -- de chão, de pedra..., existentes ou a se criarem -- são necessários. Pois o que eles são, feitos em terra, e como eles estão, delineados em nossa mente, contribuem fortemente para sensibilizar, energizar e motivar o ser para a jornada.
Os bons caminhos raramente são fáceis. No percurso deles há sempre obstáculos -- geralmente muitos, frequentemente grandes. O das Índias, tinha o Atlântico. O de Ícaro, o Sol. O de Drummond, a pedra.
O caminho de Vieira -- o Luiz, professor, não o Antônio, padre – tinha tudo isso e muito mais. Para Luiz Vieira, autor deste “O Caminho das Estrelas”, o problema não era o oceano (que ele venceu de avião), nem o sol (que chapéu e protetor anteparavam) ou a multidão de pedras (de que se desviava). O problema eram os “outros” problemas: o desconhecido, a inexperiência, o(s) idioma(s), os costumes e até o antinatural, quando não o sobrenatural... Sem falar nas ansiedades, nas angústias, nas inquietações, no autoquestionamento (tipo “O que é que eu estou fazendo aqui?”). E o que dizer dos sonhos e pesadelos e das estranhas situações ou sensações de irrealidades e pararrealidades, quando não se sabe se se está desperto ou se se delira, quando não se sabe se pessoas e animais, ambientes e cenários são coisas reais dentro de um sonho ou se são fantasias e fantasmas dentro de uma realidade...
Nenhum homem é feliz sem um delírio de algum tipo. Os delírios são tão necessários para a nossa felicidade quanto a realidade”, reconhecia Christian Nestell Bovee, escritor americano. Não creio que Luiz Vieira delirava quando, após ler um livro sobre o Caminho de Santiago, prometeu-se a si mesmo percorrê-lo -- e, agora, muda da condição de leitor para a de autor de uma obra compostelana.
Vieira - ele mesmo escreve - queria aventura. Outros fazem o Caminho pela História, pela Cultura, pela Mística, razões bem mais humanistas do que as humanas esperanças e o pagamento de promessas ligadas a dinheiro e poder, saúde e prazer; e bem mais pias que as caridosas - e caras – indulgências com que, desde o século 3 “et multa saecula”, pecadores ganhavam oportunidade de reparar os males advindos de seus pecados para, lá adiante, limpar a própria alma e ganhar um terrenozinho no bem loteado Céu daqueles idos...
Se era aventura o que inicialmente desejava Luiz Vieira, ele recebeu muito mais. Parte desses ganhos ele guarda consigo; outra parte, e não é pouco, ele a divide aqui com os leitores. Divide sua ansiedade inicial, feliz, e os iniciais “tropeços” de primeira viagem, porém firme no propósito, empedernido igual a “burro xucro”.
O livro conduz o leitor a vivenciar o Caminho a partir do frio de zero grau nas montanhas franco-espanholas; a caminhar toda Zubire, uma cidade de só duas ruas; a ver/ouvir o burburinho da trimilenária Pamplona.
Mais adiante, ficamos sabendo da pessoa do autor e da pessoa de outras pessoas. Do autor, seus sonhos e sofrimentos; de outros, saberemos de “Seu” Franco e sua sabedoria franca, seu sorriso franco. Saberemos de “Seu” Paulo, fadiga e fome, pão e palavras.
À medida que caminha, Luiz Vieira nos encaminha, empresta-nos seus olhos, entreabre a mente, apresenta-nos de mais de perto quem ele viu, conheceu, conversou pelo Caminho: por exemplo, nos deixa saber, em Torres del Rio, de uma bruxa no quarto; da dor e redenção nas histórias de Maria, 80 anos; de uma neoamiga neozelandesa.
Em Azofra, apresenta-nos melancolia, desânimo... e Papai Noel. Mostra-nos os pés muito feridos e relata uma cura inesperada. O encontro com um espanhol bom de prosa. A catedral de Burgos, onde Luiz concorda com a beleza da igreja mas, cabreiro, discorda do “pay to pray” (pagar para rezar).
À medida que caminha, o autor mais no encaminha. Quando seus olhos perscrutam o Caminho, eles nos dizem de natureza e vastidão, beleza e solidão. Quando passa por lugares e se assenta em restaurantes e bares, quando faz pouso em beliche coletivo ou repouso em cama individual, quando se abanca em bancos de praças e ruas... de tudo isso dá conta o olhar vieirano.
Mas o radar humano do autor gosta mesmo é de emitir ondas emocionais, permeáveis às cargas de energia e sensibilidade emanadas de gente. É como se Luiz Vieira fizesse coro com Públio Terêncio Afro, poeta e dramaturgo da Roma de 22 séculos atrás: “Sou humano, e nada do que é humano me é estranho...”
E é nas histórias humanas que o autor vai (se) desentranhando e “desestranhando”. Luiz Vieira se junta a outro ser para com ele sentir e para dele saber. E para nos contar colorida e doloridamente da história de Lorenzo, em León, onde o autor vivenciou a mendicância e por horas, entre uma esmola e outra, ouviu relatos de uma vítima de crises econômicas além-Atlântico, crises que teimam em tornar coletivas as dores que são vividas individualmente, cotidianamente.
Outros relatos levam a experiências com personagens misteriosos (que nem a enigmática Ana, com seus exercícios e lições) e até o que não é “persona”, como o estranho cão no caminho de Palas de Rei.
Particularmente sensível à beleza, Luiz Vieira se deixa levar e enlevar pelo que lhe entra pelas vistas como imagens e lhe sai pelos dedos em palavras: a simplicidade do quarto e catre onde ele dormiu e onde o santo de Assis pode ter estado; o castelo de Gaudí, de 120 anos; a tradição do ritual da queimada; e o alumbramento com a “imponência” da catedral de Santiago de Compostela, onde abraços se deram e lágrimas se derramaram ao som de hinos e cheiro de incenso.
*
Este livro nos leva, literalmente, ao fim do mundo -- como o acreditavam os viventes do século 15, tanto que deram o nome de Finisterra (“fim da terra”) a um lugar para além de Compostela. O autor foi até lá, e nos levou a esse fim -- que ele não é de deixar nada pelo meio do caminho...
Há muito se sabe que nem todo caminho leva a Roma. Diversos levam a Jerusalém e alguns poucos verdadeiramente levam à maior das distâncias e ao mais desconhecido dos destinos: o interior de si mesmo.
A partir de um caminho exterior, Luiz Vieira fez sua jornada mais íntima. E chegou à Galícia, a Compostela, por uma das rotas mais desafiadoras, oitocentos quilômetros a pé, começando na França, nas faldas da cordilheira dos gelados Pireneus.
Não são muitos os caminhos que levam a Santiago de Compostela.
O mais novo deles é este livro.
Mais novo -- e melhor.
Deixe-se levar...
Edmilson Sanches



sexta-feira, 26 de abril de 2019

CORAÇÃO BOBO


Num dia qualquer, enquanto relaxava de mais um dia intenso de trabalho, uma moça me sai com essa:
- (...) seu coração bate esquisito!
- Como assim, esquisito? – indaguei.
            Ela escutou mais um pouco com ar de enfermeira e perguntou:
            - Há quanto tempo você não faz um checkup?
            - Fiz no ano passado – respondi.
            - Fez eletrocardiograma?
            - Não. Esse eu fiz há uns dois anos – respondi com sentimento de culpa.
            - Pois amanhã mesmo vou agendar uma consulta no cardiologista para você. Esse coração tá muito esquisito – sentenciou-a em tom severo.
            - Claro que não! Meu coração está perfeito. Minha pressão sempre foi 12X8 – minimizei o alarme.
Mesmo com minha resistência, sua insistência foi maior.  Em uma semana, lá estava eu no consultório particular de uma cardiologista examinando o coração. E eu que sempre tive uma excelente saúde, de me gabar que meus checkups não davam nem verme, de ter um fôlego de atleta, de nunca ter sentido absolutamente nada... fui surpreendido com esse diagnóstico:
            - O que está acontecendo com esse coração senhor José Luiz? – pergunta a médica observando o eletrocardiograma com cara de preocupada.
            - Não sei doutora. Não sinto nada de anormal.
            - Já sentiu dor no peito, tontura...?
            - Nada. Nunca senti nem dor de dente.
            - Faz exercício físico?
            - Sim. No mínimo quatro vezes por semana. Musculação e treino muay thai – respondi convicto.
            - E quando se exercita, sente cansaço?
            - De jeito nenhum.
            - Estranho. Seu exame mostra um problema na válvula aórtica. E, provavelmente você já sofreu um infarto – sentenciou a jovem médica num tom grave.
             Recebi esse diagnóstico como um soco no estômago. Senti minha cabeça girar e a garganta fechar. Até então, só havia recebido elogios dos médicos. “Você tem uma saúde de ferro!” “Seu coração é de leão”, “tem fôlego de atleta...” Aos 51 anos, recebi aquela notícia como uma sentença de morte. E para completar, a médica ainda disse que eu teria que procurar um grande centro para fazer um cateterismo. “Talvez consiga resolver só com medicamento; talvez seja preciso colocar uma válvula para corrigir ou até mesmo haja a necessidade de fazer uma cirurgia”. Essas palavras martelavam em minha mente que nem conseguia mais ouvir as orientações da médica bonitona. “Evite frituras, carnes gordas... coma bastante fibras...” “Ora bolas, nos últimos 10 anos de minha vida tenho me alimentado corretamente. Cortei tudo o que faz mal... A única coisa que não cortei foi a cerveja nos finais de semana, e as vezes em excesso”, - pensei encabulado.
            Com o ânimo bastante abatido, fui para casa atordoado, mas sem demonstrar a ninguém meu estado de espírito. Passei uma semana tentando levar uma vida normal, mas só conseguia pensar em minha morte. Nunca tive medo de morrer, mas de repente, me dei conta de que ainda havia um monte de coisas a fazer, muitas coisas a realizar. “Que droga! Agora que tenho a oportunidade de dar minha contribuição para transformar a educação de Parauapebas, vou morrer?! Não vou ter a oportunidade de ser avô...” Um filme começou a rodar em minha cabeça. Lembrei das aventuras e loucuras que já aprontei nessa vida, dos perigos de morte que já corri, do meu gosto pelo perigo e, inevitavelmente, lembrei das inimizades que cultivei.
            Instintivamente, comecei a agir como se vivesse o último dia da minha vida. Coloquei as contas em dia, liguei para amigos distantes, adiantei reuniões de trabalho, conferi e-mails... Até conclui a revisão do meu livro sobre o Caminho de Santiago que estava meio a passos de tartaruga.
            Passado o momento do susto e da angústia, coloquei minha vida nos trilhos. Preenchi minha mente com bons pensamentos e passei a encarar a situação de outra maneira. “Ora bolas, o que tiver que ser, será. Vou lutar, vou procurar um bom médico, fazer o que for preciso para recuperar esse velho coração. Se eu escapar dessa, Glória a Deus! Se eu morrer, morrerei feliz, sabendo que esse foi um propósito de Deus que me conduziu até aqui com dignidade e felicidade”.
             

***

            Segunda-feira, 22 de abril. Dia da Terra. Às 8h em ponto estou no Hospital Santa Genoveva (Uberlândia) em completo jejum para fazer o cateterismo. Feito os procedimentos iniciais, sou conduzido a uma sala de cirurgia com equipamentos futuristas assustadores. O médico pergunta se eu já havia feito esse procedimento. Respondo que será a primeira vez.
            Fecho os olhos e concentro-me para não sentir nenhuma dor ou inconveniente. Treinei isso desde a juventude quando precisei tomar seis benzetacil, e tem dado certo. Por volta das 11 horas, escuto a voz do médico: “Senhor José Luiz, tenho boas notícias. Não há nenhuma obstrução de artéria. Seu coração está perfeito! Só uma veia que passa por dentro da aorta, dando a impressão que está obstruída. Um pequeno ‘defeito’ de fábrica que não compromete sua saúde. Você vai precisar de uma semana de repouso e depois vá para casa. Abra um bom vinho e comemore.”
            “Uma veia que passa por dentro da aorta” – penso intrigado. Esse meu coração tinha que ser mesmo diferente! Ainda bem que o médico não descobriu que é de pedra! Apenas um coração bobo! Ufa! Não será dessa vez. Vida que segue. Vida plena e abundante.

____

Observação: o editor do blog ganhou vida própria e resolveu bagunçar a edição. Vai assim mesmo.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

O QUE DIZER AOS PROFESSORES?

A SOCIEDADE, COM SEUS MAUS EXEMPLOS, DESFAZ NOS ALUNOS O ESFORÇO EDUCATIVO DOS PROFESSORES?


Enquanto o aluno permanece na vida da escola QUATRO horas por dia, esse mesmo aluno, na escola da vida, passa as demais VINTE horas...

* * *

Início de ano letivo. Secretarias de educação e Escolas realizam seus eventos de planejamento, diretrizes etc.

Há oito anos, em 28/01/2011, a convite de gestores e professores, estive em Açailândia (MA) para proferir palestra de encerramento de semana pedagógica.

O tema dado e desenvolvido: "Os Desafios do Educador na Sociedade Contemporânea".

Prevista para duas horas, a pedido dos professores o tempo da palestra quase duplicou.

Passeamos por subtemas como Qualidade, Ética, Política, Motivação, Cidadania, O Professor, A Escola, O Aluno, A Aprendizagem, A Sociedade, Os Desafios...

Não é fácil a tarefa do Educador: em diversos, repetidos, muitos casos, as mentes que ele tenta "organizar" dentro da escola serão daqui a pouco desorganizadas lá fora.

O professor educa, a sociedade deseduca: da política bandida à violência gratuita, dos lares desestruturados ao crime (bem) organizado, tudo em termos de péssimos exemplos transborda e envolve a criança, o jovem, o aluno, que terá, em última instância, de buscar em si mesmo e em raros modelos, a força e sabedoria para escolher certo entre o Bem e o Mal, o Bom e o Ruim, o Justo e o Injusto, o Valor e o Preço...

Foram horas de palestra. Disse e refleti junto com as dezenas e dezenas de educadores presentes, que me pagaram bem -- com real interesse, atenção e carinho -- o tempo, esforço e recursos que despendi para lhes falar sobre o me pediram. A atenção de quem escuta é o salário invisível de quem fala.

"Educação" vem de "ex-" + "ducere". Ação de conduzir para fora. Fazer vir à tona o saber potencial que se encontra dentro de cada aluno.

Tarefa dura: enquanto, no mais das vezes, o aluno permanece na vida da escola QUATRO horas por dia, esse mesmo aluno, na escola da vida, passa as demais VINTE horas.

Essas vinte horas dividem-se com o sono, a família, os vizinhos, os amigos, a igreja, o clube social, as festas ou outras formas de diversão, a cidade, as ruas...

Após o tempo na escola, como o processo socioeducativo, que se deveria iniciar na família, está ocorrendo nos demais "ambientes"? 

O que está "aprendendo" -- e "ensinando" -- esse aluno?

Escola 4 X 20 Outros ambientes

A concorrência é, mesmo, grande...

EDMILSON SANCHES

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

POBRES BANCOS

SE UM BANQUEIRO PULAR DO ALTO DE UM PRÉDIO, SIGA-O: ISSO DEVE DAR DINHEIRO...

Neste 31/01/2019, o banco Bradesco acaba de divulgar seu lucro líquido apenas nos três últimos meses de 2018 (outubro, novembro e dezembro). 

Pois bem: no quarto e último trimestre o lucro líquido (isto é, depois de descontadas todas as despesas, inclusive folha de pagamento dos funcionários) foi de R$ 5 BILHÕES E 830 MILHÕES, em números redondos, TREZENTOS MILHÕES DE REAIS a mais do que previam os analistas do mercado.

Por sua vez, o banco Santander anunciou lucro líquido, no mesmo período, de R$ 3 BILHÕES E 405 MILHÕES, mais de DUZENTOS MILHÕES DE REAIS a mais do que os analistas esperavam.

Já o banco Itaú, de janeiro a setembro de 2018 (três trimestres), já havia lucrado (lucro líquido) nada menos do que R$ 19 BILHÕES E 047 MILHÕES.

O Banco do Brasil, do Governo Federal, teve lucro líquido de R$ 9 BILHÕES E 470 MILHÕES DE REAIS nos primeiros nove meses de 2018 (1º, 2º e 3º trimestres).

A Caixa Econômica Federal, nos primeiros nove meses de 2018, teve lucro líquido de R$ 11 BILHÕES E 513 MILHÕES. Este valor já é quase igual a todo o lucro da Caixa em 2017, que foi de R$ 12,5 bilhões.

O Banco do Nordeste do Brasil, instituição financeira regional também do Governo Federal, teve lucro líquido de R$ 332 MILHÕES E 470 MIL de abril a setembro (2º e 3º trimestres) de 2018.

Alguém já escreveu que fundar ou afundar um banco, não importa: dá lucro.

Por outro lado, um provérbio da Suíça chega ao extremo de recomendar (simbolicamente, claro) que, se um banqueiro pular do alto de um prédio, deve-se segui-lo, pois isso com certeza dará dinheiro...

Enfim, se você quiser pegar mesmo em dinheiro, seja caixa ou dono de banco... 

Pois, pelo visto, não importa o tamanho da crise, o lucro das instituições financeiras será maior.

EDMILSON SANCHES 
edmilsonsanches@uol.com.br

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

FAKE NEWS - SINAL DE DEFORMAÇÃO DA PERSONALIDADE

"...a boca fala do que está cheio o coração". (Mateus 12:34).

Com a tragédia recente de Brumadinho, ficou claro como boa parte da população brasileira é sensacionalista e adora tragédias. Um dos sinais disso é o grande número de fake news que circula pela internet. E tem para todos os gostos: vídeo mostrando o momento exato que a barragem estourou, foto de mulher grávida na lama, foto de um homem sujo de lama abraçando um bombeiro, foto dos soldados israelenses chamando os bombeiros brasileiros para orar (essa foi foda), e outras bobagens a mais. Parece que as pessoas sentem uma necessidade mórbida de dar a notícia de qualquer jeito e a qualquer custo e sai compartilhando tudo o que vê pela frente.

Como nasce uma fake news?


Geralmente nasce de uma mente doentia e carente que sente a necessidade de espalhar mentira simplesmente pelo vício de mentir e/ou para ganhar likes na internet. Essa prática pode até render um bom dinheiro para essas pessoas. Assim, esses "gênios" do mal ficam horas construindo as notícias falsas e pesquisando a melhor forma de deixá-las atrativas. Geralmente elas começam com o termo "Bomba" ou outra expressão sensacionalista, e terminam com a ordem "compartilhem...".  Porém, essas notícias falsas precisam ser viralizadas, senão não cumprirão seus objetivos. E quem são os responsáveis pela viralização?  Quem são os agentes que se encarregam pela disseminação das notícias falsas? Infelizmente são a maioria absoluta dos brasileiros. Uma pesquisa recente publicada no Jornal Folha de São Paulo mostra que 90% dos eleitores do presidente eleito acreditam em fake news. Confira aqui. Isso é trágico e desesperador e demonstra o quanto nossa sociedade precisa rever seus conceitos.

Qual o perfil de quem espalha fake news?


Antes, eu afirmaria que as pessoas que compartilham notícias falsas eram pessoas ingênuas e de baixa escolaridade. Quem tem mais de 40 anos deve lembrar de quando aparecia debaixo da porta uma carta anônima com alguma mandinga (oração ou mensagem exotérica), dizendo que o receptor teria que fazer 30 cópias e enviar para 30 pessoas, senão uma desgraça aconteceria em 10 dias. Com o advento das redes sociais, isso se tornou brincadeira de criança inocente. Hoje, os fake news são responsáveis por eleição de presidente e até por assassinatos de inocentes. E já não é mais exclusividade de pessoas ingênuas e desescolarizadas. Encontramos desde o analfabeto até o doutor que pratica esse crime.

Há pesquisas que indicam que a pessoa que espalha fake news tem algum desvio de caráter. Na Bíblia Sagrada encontramos uma explicação para esse fenômeno: "a boca fala do que está cheio o coração". (Mateus 12:34). Esse versículo tem muita lógica. Uma pessoa que compartilha vídeo ou foto de criança violentada com a desculpa de que está repassando para alertar, tem grande chance de ter algum comportamento - mesmo inconsciente - de pedófilo. Quem espalha com frequência imagens de violência com aquela pérola - "Espalhe sem dó até chegar as autoridades", - geralmente tem um perfil violento. Os que espalham conteúdos com difamação contra homossexuais, por exemplo, tem grande chance de ser um homossexual reprimido e enrustido. Não me levem a mal. Essas são indicações de pesquisas sérias que publicarei aqui e não se trata de uma regra. 

Uma pessoa só compartilha uma notícia falsa quando essa notícia é conveniente com o seu pensamento. Portanto, seguramente, podemos traçar o perfil de uma pessoa pelo tipo de conteúdo que ela compartilha. Um fã do Bolsonaro por exemplo, quando depara com uma notícia negativa sobre ele, filtra a informação, julga que é falsa e, às vezes até busca as fontes e checa a veracidade, e não sai compartilhando, mesmo que seja verdadeira. Agora, se a notícia for contra o Lula, dispara a tecla de compartilhamento sem nenhuma checagem. O mesmo acontece com a maioria dos fãs do Lula.

Já escrevi nesse blog uma matéria sobre esse tema, onde batizei de "cavalo do cão eletrônico". Leia aqui. É claro que nem todo mundo que espalha fake tem desvio de personalidade ou deformação moral. Algumas notícias falsas são tão perfeitas que enganam até os mais criteriosos. Quem nunca espalhou uma, que atire a primeira pedra. Nos próximos posts deixarei algumas dicas de como se livrar dos fakes e não fazer o papel de cavalo do cão eletrônico.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

BRUMADINHO - QUANTO VALE UMA VIDA?

SILÊNCIO


Temos 26 letras e com elas já escrevemos todas as cartas de amor e todas as declarações de guerra. Com elas falamos as palavras mais suaves e também dissemos as mais ásperas. E todas essas letras e palavras são insuficientes para dizer da dor... da morte... Da tragédia que está abaixo e além da lama.

Temos 10 algarismos, do zero ao nove, e com eles fizemos todos as contas astronômicas e todos os cálculos microscópicos. Com eles construímos quantidades de fortunas pessoais, percentuais de lucros empresariais... ao lado dos números nacionais e mundiai de pobreza, fome, miséria humanas. E todos esses algarismos e números não são bastante para subtrair a morte, diminuir a dor...

Temos 7 notas musicais e com elas compusemos todas as sinfonias mais celestiais e todas as músicas-grude mais "infernais". Com essas notas musicais embalamos todas as cantigas de ninar a vida que nasce e também escrevemos em partituras todos os réquiens de chorar a vida que se (es)vai. E todas essas notas são poucas, muito poucas, para reproduzir o universo sonante e silencioso dos ais de dor de corações e almas que se partem ante a morte que vive em corpos sem vida...

Temos inúmeros modos e maneiras, jeitos e "jeitinhos", atos e atitudes, ritos e rituais para nos expressarmos ante o imponderável da tragédia, da morte, da agonia da dor, da perplexidade da perda. Mas tudo -- letras e palavras, algarismos e números, jeitos e maneiras, ritos e rituais --, tudo é nada ante a hora derradeira, o momento último, o instante extremo, o suspiro final.

Silêncio
silênci
silênc
silên
silê
sil
si
s
ssssssss! Corpos dormem... 

Deixem o silêncio gritar...

EDMILSON SANCHES
edmilsonsanches@uol.com.br

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

NATAL E JESUS

Jesus Cristo não nasceu em 25 de dezembro. Não nasceu em Belém. Não descendia de Davi.

O Natal era, na verdade, uma festa pagã, uma comemoração daqueles que, na antiga Roma, não eram batizados ou eram adeptos de religiões que não tinham batismo. Isso acontecia cerca de 1688 anos atrás, por volta do ano 330 de nossa era, ou seja, trezentos anos depois de Jesus Cristo ter sido crucificado.

O 25 DE DEZEMBRO PAGÃO - A festa dos pagãos homenageava o Sol. Como quase tudo antigamente, o calendário, as festas, as comemorações e homenagens baseavam-se nas leis da natureza. E o dia 25 de dezembro, naquela época, era o dia imediatamente posterior ao solstício de inverno, isto é, quando o Sol, no seu movimento de declinação, ficava na posição mais baixa, mais próxima do planeta Terra. Registros atuais informam que, hoje, o solstício de inverno ocorre em 23 de dezembro.

Os pagãos não gostavam daquela excessiva aproximação do Sol à Terra, mas o fato disso ocorrer significava que o astro-rei já estava reiniciando sua trajetória de retorno. Era algo como: “depois da tempestade, a bonança”, ou seja, após o solstício, o Sol voltava a subir para a parte mais alta do céu, e dali, de uma saudável distância, continuava a emitir seus raios, agora bem mais amenos e benfazejos para todos.

Essa festa era chamada de “Solis Invictus” (“Sol Invencível”) e o 25 de dezembro era considerado “o dia natalício do Sol Invicto”.

O 25 DE DEZEMBRO CRISTÃO - Os cristãos (portanto, pessoas que receberam o batismo) não gostavam nadinha daquele festival dos sem-batismo, os pagãos. Afinal, só Cristo, somente Deus deveria ser razão para tais homenagens. Tentaram, os cristãos, acabar com a festa, mas ela já estava muito arraigada nos costumes, era parte das tradições.

Então, como quem não pode com o inimigo deve se juntar a ele, os cristãos começaram a comemorar, também em 25 de dezembro, o dia natalício, o dia de nascimento do “verdadeiro Sol, a Luz do Mundo” -- Jesus Cristo. À medida que o Cristianismo se ia fortalecendo, com o aumento do número de cristãos e a ampliação do poder da Igreja, não teve jeito: os cristãos se apropriaram da festa e deram-lhe outro significado, mais espiritual. Agora, só os livros de curiosidades históricas guardam o que era o Natal... antes do Natal.

OS PRESENTES - Como sempre fica algo da antiga cultura, a absorção da festa pagã pelos cristãos não conseguiu extinguir um costume: o dos presentes. Na festa do “Sol Invencível”, nos idos de 330, os escravos tinham uma espécie de dia de alforria: podiam sentar-se à mesa com os seus senhores e destes recebiam presentes.

Hoje, o capitalismo, que só considera cidadão quem for consumidor, transforma o período de Natal no mais fértil momento de vendas de todo o ano. É o lado pagão da festa, pois, normalmente, os presentes têm em vista os próprios filhos (...e não o Filho de Deus) e os próprios pais na terra (...e não o Pai Eterno).

NASCIMENTO E MORTE - Voltando às primeiras palavras deste artigo, esclareça-se que tanto o nascimento quanto a morte de Jesus Cristo não têm data certa. De certo sabe-se que Cristo nasceu... antes de Cristo. Pois é: em função dos cálculos das sucessivas mudanças no calendário ocidental, sabe-se, hoje, sem nenhuma margem de erro, que Jesus Cristo não nasceu no ano da era que leva seu nome (Era Cristã). Jesus teria nascido pelo menos quatro ou até oito anos antes.

Estudos mais recentes dão conta de que o Salvador nasceu há 2023 ou 2024 anos, portanto, seis ou sete anos antes da Era Cristã. Neste caso, o próximo ano não seria 2019; deveria ser 2025 ou 2026. No mínimo, 2018. Como calendários são convenções, isto é, feitos e aceitos pelas pessoas, ninguém cogita de fazer o acerto pelo que reza a Ciência e a História. Assim, “la nave va”, e vai-se vivendo.

Os Evangelhos são relatos de Mateus, Lucas, João e Marcos, todos quatro, acredita-se, com convivência pessoal com Jesus. (Existem também os Evangelhos de Pedro e Tomé, ainda não considerados pela Igreja). Esses quatro livros bíblicos foram escritos entre os anos 70 e 100 do século 1, ou seja, pelo menos cerca de 40 a 70 anos após a morte de Cristo. Embora haja contradições entre si em alguns dados, os evangelistas que mais trataram da infância de Jesus (Mateus e Lucas) são unânimes em um fato: que o nascimento de Jesus deu-se ainda no reinado de Herodes Magno (não confundir com os filhos deste, de mesmo prenome: Herodes Antipas e Herodes Felipe). Portanto, como Herodes morreu quatro anos antes do ano 1 da Era Cristã, Jesus, quando foi crucificado, poderia ter até perto dos quarenta anos, e não apenas os 33 anos tão falados e anunciados (“33, idade de Cristo” – dizem, profanamente, os cantadores de bingo).

Portanto, Cristo nasceu entre 8 a.C. e 4 a.C., na cidade de Nazaré, da Galiléia, e não em Belém, da Judéia. Não é sem motivo que Jesus era e ficou mais conhecido como “nazareno” (lembrando a cidade natal) ou “um certo galileu” (lembrando a província). Nazaré teria de 2 mil a 3 mil habitantes. A versão de que José e Maria, grávida, foram a Belém por causa de uma contagem de população já foi descartada pelos historiadores atuais, embora ainda subsista na mente de quase todos os cristãos, fixada pelas músicas, conversas e, modernamente, pelos meios de comunicação, livros, cinema etc. Como Belém era a cidade de Davi, e como queriam ligar Jesus à descendência de Davi, forçaram a barra e construíram o roteiro e o motivo da viagem de José e Maria.

O nome “Jesus” (que em aramaico significa: “Javé é a salvação”) é uma variação de “Josué”, nome, por sua vez, muito comum entre os judeus -- tanto que o primeiro nome de Barrabás também era Jesus. “Cristo” não era um nome, mas um título, que em aramaico (a língua natal de Jesus) significa “o ungido”, “o messias”, o consagrado.

Adulto, Jesus tinha 1,80 m e 79 kg, altura e peso médios dos judeus da época. Esses números coincidem com os dados extraídos da imagem do sudário de Turim (Itália). Esse sudário, como se sabe, seria uma espécie de lençol com que fora coberto o Cristo morto, que deixou suas marcas no pano através de um processo ainda não explicado (radiação?), quando da sua ressurreição.

Pesquisadores e historiadores estão convencidos de que Cristo morreu com a idade de 33 a até 39 anos. Estudiosos respeitados calculam até a data precisa: ou 7 de abril de 30 (portanto, há 1988 anos), ou 30 de março de 36 (1982 anos atrás). Vale observar a diferença de mais ou menos uma semana no dia e de até sete anos no ano.

CRISTO: PARA OS QUE TÊM FÉ, OU A PROCURAM - Os fatos sobre Cristo são assim mesmo. Os evangelistas não eram historiadores, eram seguidores, admiradores, homens de fé. Não dispunham de instrumentos materiais ou metodológicos para relatar os fatos. Não é de estranhar, portanto, os erros, as contradições, as omissões. Talvez sequer soubessem os evangelistas que estavam fazendo história, como personagens e autores, biógrafos do próprio tempo.

Desse modo, os Evangelhos são para crer, não para ver. Eventualmente, o que neles está escrito pode servir de “pista” para os arqueólogos do saber, os desenterradores do passado, no belo ofício de buscar respostas e clarificar obscuridades. Pois todos queremos luz, seja no passado em que não vivemos, seja no futuro para onde, pós-morte, iremos.

Cristo, talvez, não seja para decifrar -- é para amar.

Talvez não tenha nascido para a História -- mas para a memória.

Talvez não tenha nascido para a Ciência -- mas para a consciência.

Muito mais espiritualidade, não apenas historicidade -- nem, muito menos, materialidade.

Feliz Natal.

EDMILSON SANCHES
esanches@jupiter.com.br

BIBLIOGRAFIA: "Vida de Jesus" (Ernest Renan, Ed. Martin Claret, SP, 1995); "Dicionário Bíblico" (John L. MacKenzie, SP, Ed. Paulinas, 1983); "Um Santo Para Cada Dia" (Mario Sgarbossa e Luigi Giovannini, SP, Ed. Paulus, 1996); "Os Santos de Cada Dia" (J. Alves, SP, Ed. Paulinas, 1990); "Guia dos Curiosos" (Marcelo Duarte, Ed. Cia. das Letras, SP, 1995); revista "Galileu", n° 113, dez./2000, Ed. Globo, RJ; revista "IstoÉ", n° 1629, 20/12/2000; “Houaiss Eletrônico”, versão monousuário 3.0 (Instituto Houaiss/Editora Objetiva, 2009).

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

TRENZINHO DA TIA VIVÍ É A NOVA SENSAÇÃO DE PARAUAPEBAS

Sabe aquele momento em que dá vontade de voltar a ser criança? Ou aquele momento que dá vontade de fazer uma programação de lazer com a família e esquecer os problemas da vida? Ou simplesmente se entregar a uma brincadeira inocente e deixar a alma voar levemente pelo universo da felicidade? Não sabe? Então está na hora de mudar os seus conceitos, pois talvez esteja se deixando envelhecer antes do tempo. 

Um passeio de trem inevitavelmente desperta o que
há de melhor em nossa lembrança. E quando esse passeio é feito em plena rua, sem trilhos, a bordo de uma locomotiva sobre rodas, cheio de luzes, cores, música e um astral contagiante, aí fica melhor ainda. Pois saiba que agora em Parauapebas já existe essa programação para toda a família.


Essa gostosa fonte de lazer e diversão já está disponível em Parauapebas. Um passeio de "trenzinho" que você só encontrava em pouquíssimas cidades turísticas do Brasil, agora está a nossa disposição aqui mesmo em nossa cidade. O blogger juntamente com um seleto grupo de amigos teve  o privilégio de participar do passeio de pré-inauguração nessa terça-feira a noite. E posso atestar que é muito bom e vale a pena. Uma diversão leve, saudável, e despretensiosa que nos faz enxergar a cidade sob uma nova óptica.

O casal Valamiel - donos do empreendimento - confere ao passeio um toque especial. O motorista sempre fantasiado com um personagem diferente esbanja simpatia e posa para fotos antes e depois do passeio. A Viviane que além de professora e psicopedagoga, assume o papel de "ferromoça".  Também se apresenta fantasiada e anima o passeio do início ao fim, sem descuidar da segurança da criançada. A música é uma atração a parte. Durante o passeio de apresentação, o trenzinho foi sensação por onde passou e foi recebido pela população com aplausos, acenos e muitas fotos. 

O que você está esperando para embarcar nessa emoção  com sua família e amigos?

A partir dessa quinta, as 19 horas, o trenzinho estará te esperando em frente ao mercado municipal do Rio Verde para um super passeio. Programa ideal especialmente para as pessoas de 02 a 100 anos. O passeio dura cerca de cinquenta minutos e custa $10,00 por pessoa. 

Embarque e se entregue a essa fantasia divertida. Você vai se divertir muito!

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

ATENDIMENTO DAS OPERADORAS DE CELULAR É UM PESADELO EM PARAUAPEBAS

Nos últimos dias a população se mobilizou em vários municípios do Pará contra os abusos cometidos pela Rede CELPA. Agora está na hora de voltar nossas baterias contra as operadoras de celular que operam por aqui. O número de reclamação já se assemelha à concessionária de energia e os abusos cometidos contra os clientes chegam a ser inacreditáveis. 
Nas lojas das operadoras aqui em Parauapebas, nota-se um tremendo despreparo e desrespeito aos clientes. Em pleno século XXI, é inacreditável que empresa que trabalha com tecnologia, age com prática ultrapassada e arcaica, fazendo do cliente uma peça descartável. E quando o atendimento é pelo call center, aí é um Deus nos acuda. A impressão que dá é que os atendentes são treinados exaustivamente para TIMenrolar e torrar a paciência do cliente e fazê-lo desistir de qualquer reclamação ou solicitação de serviço. É uma tal de musiquinha chata, propaganda, espera, espera...OI! E isso quando a ligação não cai. É caso de polícia. E adianta reclamar na ANATEL? Essa, age como agente de defesa das empresas telefônicas. A única solução será ficar de olho VIVO e organizar mobilização dos usuários para expor os péssimos serviços e enquadrar essas empresas que insistem em desrespeitar os clientes.
Durante a próxima semana, vamos expôr aqui alguns casos, citando o nome das operadoras. Se você já teve alguma experiência negativa com sua operadora, escreva e envie pelo whatsapp (94) 991754173.
É Claro que publicaremos também elogios às empresas que se destacam pelo bom atendimento e eficiência na prestação de serviço.

domingo, 2 de dezembro de 2018

UM RESUMO SOBRE A DITADURA PARA A NOVA GERAÇÃO

Às favas com os escrúpulos
O Brasil não conta a sua história. Não fez um filme que retratasse a ditadura

O Estado de S. Paulo
01 Dezembro 2018
Tudo começou com o Ato Institucional Número 1 (AI-1), baixado pela Junta Militar em 9 de abril de 1964. Cem personalidades, entre militares, deputados, governadores, economistas, políticos, jornalistas, que trabalhavam para o governo deposto, foram presos, exilados e cassados.
O País teria eleições gerais em 1965. Castelo Branco prometeu cumprir o calendário. Sabia-se por uma pesquisa do Ibope não divulgada que Juscelino Kubitschek ganharia com folga. Baixaram o AI-2: mais cassações, partidos políticos extintos e intervenção no Judiciário. Em 1966, o AI-3: eleições para governadores, prefeitos das capitais, estâncias e cidades de segurança nacional canceladas. O AI-4 revogou a Constituição de 1946 e proclamou outra. Até o golpe final, o AI-5, que faz 50 anos.
Em setembro de 1968, um quebra-quebra na UnB entre polícia e estudantes sobrou para deputados da oposição, que foram ao Congresso denunciar. Em 2 de setembro, o deputado Márcio Moreira Alves, Marcito, perguntou se Exército era um “valhacouto de torturadores?”. Foi almoçar. Voltou e, em referência a Lisístrata, de Aristófanes, que assistira no Teatro Ruth Escobar, comédia grega em que mulheres de várias cidades, cansadas de perder maridos e filhos numa guerra de mais de 20 anos, organizaram uma greve de sexo, sugeriu que brasileiras que se relacionassem com militares as imitassem.
O repórter de Brasília Rubem Azevedo Lima achou inusitada a comparação e publicou nota na Folha de S. Paulo. Deputado carioca bon vivant abriu uma crise no governo. O ministro Gama e Filho pediu que o Congresso abrisse processo contra o deputado. Em 11 de dezembro de 1968, por 216 a 136, votou contra.
O governo fechou o Congresso, e deputados tiveram que atravessar um corredor polonês de soldados com baionetas. Marcito partiu para o exílio com a mulher. Às 3 da tarde de 12 de dezembro de 1968, presidente Costa e Silva, chamado de “molengão” pelo ministro do Interior, general da linha-dura Albuquerque Lima, chegou ao Palácio das Laranjeiras e convocou o Conselho de Segurança Nacional.
Na noite de quinta-feira do dia 12 de dezembro de 1968, escutou relatos do general Garrastazu Médici, do SNI: uma luta armada estava em andamento; um sem-número de assaltos a bancos foram comandados pela ALN, de Marighella; em junho a VPR lançou um carro-bomba contra o quartel-general do 2.º Exército; na Cobrasma, em Osasco, 10 mil trabalhadores cruzaram os braços; a morte do estudante secundarista Edson Luís num confronto com a polícia provocou a Passeata dos Cem Mil; comunistas promoveram quebra-quebra no comício do governador Abreu Sodré (SP); em Ibiúna 920 foram presos num congresso clandestino da UNE.
Então, listou casos de indisciplina na tropa: em setembro, sindicância apurou que o brigadeiro Burnier usaria o Para-Sar para atentados políticos; capitães reclamaram de salários baixos e lançaram manifesto em novembro. Médici quer a decretação do estado de sítio. Costa e Silva diz: “Poder é como salame, toda vez que você o usa bem, corta só uma fatia, se usa mal, corta duas, mas se não usa, cortam-se três, e, em qualquer caso, ele fica sempre menor”.
Souberam do editorial duro escrito por Julio de Mesquita Filho, Instituições em Frangalhos, que o Estadão rodaria na madrugada. Uma operação militar foi desligar as rotativas do jornal. No dia 13 de dezembro, o jornal é impedido de circular.
À noite, Costa e Silva viu em Laranjeiras um faroeste com ministros mais íntimos. Soube que o general, comandante da Vila Militar, João Dutra de Castilho, estava rebelado. Na madrugada e durante todo o dia 13 de dezembro, no bucólico palácio, foi concebida a ditadura na ditadura, o golpe no golpe.
Na manhã do dia 13, Gama e Silva revisou as cinco páginas do AI-5. Generais foram à tarde ao QG do ministro Lira Tavares. General Muricy, chefe do Estado Maior do Exército, achava que “precisavam começar tudo de novo”. General Muniz de Aragão: “Se o presidente está vacilante, que seja atropelado”. Decidiram que Orlando Geisel, chefe do Emfa, iria a Laranjeiras expor a situação.
Geisel chegou com comandante do Primeiro Exército, Syseno Sarmento. Costa e Silva não os recebeu, subiu para o primeiro andar e se trancou. Ficou ouvindo música, esperando o vice, Pedro Aleixo. Às 16h, desceram para a reunião no grande salão e leu o AI-5. “Ou a revolução continua ou se desagrega”, disse. Pedro Aleixo discordava do ato. O ministro do Exército Lyra Tavares falou da grande tensão no País. Magalhães Pinto, chanceler, falou que o direito do cidadão deveria ser resguardado. Delfim Neto, plenamente de acordo com o Ato, disse que não era suficiente e deveria se estender para a economia. Jarbas Passarinho chamou a reunião de histórica e disse a frase que a marcou: “Às favas todos os escrúpulos de consciência”.
O locutor da Agência Nacional, Alberto Curi, o leu na TV. Lacerda, JK, Sobral Pinto foram presos, 66 professores, como Caio Prado, FHC, Florestan Fernandes, foram expulsos das universidades, Marília Pêra foi trancada num mictório de quartel, Caetano e Gil foram presos em São Paulo, tiveram suas cabeças raspadas e foram expulsos do País. Chico Buarque, Vinicius de Moraes, Raul Seixas, Geraldo Vandré, os diretores de teatro Augusto Boal e Zé Celso se exilaram. O Congresso Nacional ficou fechado até 21 de outubro de 1969.
Um homem só, o general, poderia intervir no Congresso, Assembleias, Câmaras de Vereadores, Poder Judiciário, Estados e municípios, suspender os direitos políticos de qualquer cidadão, cassar mandatos eletivos, decretar o confisco de bens e o estado de sítio. Instituiu censura e o fim do habeas corpus.
Escrevi essa sinopse de um longa há três anos, baseado em Elio Gaspari, claro, e muita pesquisa. Não saiu do papel. O Brasil não conta a sua história. Não fez um filme que retratasse a ditadura, digno do Oscar, como História Oficial, Segredo dos Seus Olhos, No, Missing, Estado de Sítio, Uma Noite de 12 Anos, entre outros. Não por outra, alguns a querem de volta.

 Marcelo Rubens Paiva