Pesquisar este blog

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

A ADESÃO DO PARÁ À INDEPENDÊNCIA - UM BLEFE QUE DEU CERTO.

Você sabe por que é feriado aqui no Pará no dia 15 de agosto? Conhece a história da adesão do Pará à independência?

Fiz essa pergunta aos meus alunos e, pasmem, nenhum sabia a resposta. Podemos seguramente medir o desenvolvimento de um país por dois fatores: o domínio da língua mátria e o domínio da sua história. Isso é assustador, pois aqui, a maioria dos nativos falam e escrevem algo  parecido com a língua portuguesa e ignoram quase que completamente a nossa história.

Costumo chamar esse feriado de "feriado da vergonha", pois, somente depois de 11 meses e oito dias, as autoridades paraenses resolveram aceitar a independência e deixar de ser uma colônia de Portugal, e mesmo assim, por medo. Foi preciso um blefe para aceitarem a independência.

Selecionei um texto para ajudar os leitores a compreender um pouco dessa história. Recomendei aos meus alunos, mas, infelizmente, dos 1.200, talvez uns vinte leiam.

Leia com calma, sem pressa e ajude a tirar o país da ignorância, pois a falta de conhecimento é a maior arma dos corruptos e lacaios.

Boa leitura!

Adesão do Pará à Independência do Brasil!

Prof. Leonardo Castro

Até o começo da segunda metade do século XIX, a Amazônia tinha a sua sede em Belém; o que hoje corresponde ao atual Estado do Amazonas ainda era subordinado, como capitania, ao Pará. As autoridades portuguesas, que sempre dedicaram uma atenção muito especial a esta região, tinham bases administrativa e econômicas muito sólidas. Proclamada a Independência do Brasil, em 1822, poucos reflexos o fato despertou no território paraense. Apenas alguns idealistas pugnavam pela separação de Portugal. Mas, sem a ajuda do novo Império, nada poderiam fazer contra as forças militares sediadas em Belém, que continuavam fiéis a Portugal. As oposições entre grupos civis e militares se fazia no meio da nova vida política com eleições para as Juntas e com a presença dos líderes. A vida no Pará foi marcada, durante uns 14 anos, por diversas rebeliões e acontecimentos dramáticos.

Em 1823 nas eleições são vitoriosos os partidários da emancipação política da Colônia. Os defensores da vinculação do Pará à metrópole portuguesa tentaram anular a eleição, mas sem sucesso. Em março deste mesmo ano, a tropa prende os membros da Junta e restabelece uma Junta favorável aos interesses de Portugal. Em abril de 1823 há a revolta em Belém e Muaná dando apoio à Independência do Brasil e do Pará.

O sentimento separatista se refletiu por ocasião das eleições realizadas para a primeira Câmara Constitucional de Belém, no dia 25 de fevereiro de 1823. Vereadores brasileiros foram eleitos, enchendo de espanto e revolta o comandante das Armas, general José Maria de Moura, e seguidores de sua linha de fidelidade ao governo português. Os descontentes reuniram-se a fim de ser estudada uma atitude a tomar. Foi concedido o plano de anular o pleito. No dia primeiro de março, o coronel João Pereira Vilaça mandou prender, em suas próprias residências, os componentes da Junta, restabelecendo a antiga Câmara, composta de conservadores. Os detidos foram deportados para diversos pontos do interior amazônico. O líder Batista Campos escapou, escondendo-se na mata próxima de Belém.

Contudo os partidários da Independência não haviam desistido, e tiveram início reuniões secretas, principalmente na casa de um italiano, de nome João Balbi, na rua do Laranjal. Os membros trataram em conseguir apoio militar, que veio através do capitão Domiciano Ernesto Dias Cardoso, do capitão Boaventura Ribeiro da Silva, entre outros. Os conspiradores acertaram o movimento para a madrugada do dia 14 de abril. Ao amanhecer, o 1º regimento surgiu à rua Santo Antônio. Vinham à frente, o comandante das Armas, José Maria de Moura, o coronel Vilaça e o Coronel Francisco José Rodrigues Barata (bisavô de Magalhães Barata). Houveram instantes de indecisão entre os revoltosos, pois até então não havia violência nem mortes. O cadete Bernal do Couto quis disparar uma peça de artilharia. Porém, Boaventura da Silva o impediu. Desta forma, a revolta nacionalista fracassara. Todos os revoltosos foram presos e recolhidos à Fortaleza da Barra (os oficiais) e à cadeia pública (os civis). Entre os civis estavam Bernardo de Souza Franco, cônego Jerônimo Pimentel, José Pio de Araújo Nobre, Honório José dos Santos, Manoel Evaristo da Silva, João Balbi, etc.

Após o julgamento foram condenados à morte. Porém, interferências de pessoas influentes (como o bispo D. Romualdo Coelho), fizeram com que a pena se transformasse em prisão e degredo. Para isto, transferiram-nos para Lisboa. Muitos dos que sobreviveram retornaram ao Pará após a adesão à Independência do Brasil.

O Lord Cochrane, após de se conseguir, no final de 1823, a adesão do Maranhão à Independência do Brasil, voltou à Amazônia, o último reduto português no Norte. Incumbiu o capitão John Pascoe Greenfell para desempenhar a missão. Comandando o brigue (navio a vela) “Maranhão”, com uma tripulação de 96 homens, no dia 5 de agosto, Greenfell tomou rumo ao Pará.

No dia 11, Greenfell enviou à Junta o oficio de Lord Cochrane, avisando que o Brasil, do Sul ao Maranhão, encontrava-se sob o governo de D. Pedro I; faltava apenas o Pará para que a nação ficasse independente. A notícia de que a esquadra de Cochrane se encontrava fora da barra e que se emissário se achava perto da ilha Periquitos, alvoroçou Belém. Foi convocado o Conselho, para discutir o assunto. Após algumas horas de debates, o Conselho decidiu aderir à Independência, contra os votos do general Moura. Lavraram uma ata e enviaram-na a Greenfell. Desta forma, a data de adesão do Pará à Independência do Brasil é 11 de agosto; no entanto, é festejada no dia 15, em virtude de nesse dia ela ter sido oficializada.
Adesão do Pará à independência.
Contudo a eleição da Junta Provisória do Governo, após a adesão do Pará à Independência, não satisfez os nacionalistas. Ela era composta em sua maioria por conservadores. Isso significava que, embora aderindo ao Império Brasileiro, o Pará continuava sendo governado por elementos nitidamente comprometidos com a Coroa Lusa. As preferências dos nacionais dividiam-se entre o cônego Batista Campos e o bispo D. Romualdo Coelho.

Imediatamente após a posse, numerosos brasileiros enviaram à Junta uma petição em que exigiram a demissão de cargos civis e militares de todos os portugueses ou pessoas ligadas ao passado, que de uma maneira ou outra se tinha mostrado contrários à incorporação do Pará ao Império. Como encontraram resistência, uma coluna, sob o comando do alferes Pereira de Brito, dirigiu-se para a residência de Batista Campos. O comandante pediu-lhes que ordenasse a abertura das portas do Trem de Guerra. Apreciando os sucessos, e ante à gravidade da situação, resolveram atender às exigências dos revoltosos, e as portas do depósito de armas foram-lhe abertas. Depois disso, conseguiram que todos os portugueses fossem demitidos de seus cargos públicos e que Giraldo José de Abreu fosse substituído na presidência por Batista Campos.

Entretanto, Greenfell e seus navios estavam fundeados na baía do Guajará. Na noite do dia imediato, sabendo do que ocorria na cidade, mandou seus marujos para à terra a fim de prenderem todas as pessoas que fossem suspeitas, sem obedecer qualquer distinção social. Centenas de pessoas foram aprisionadas. Na manhã seguinte (dia 17), Greenfell mandou que o Parque de Artilharia se postasse no Largo do Palácio. Escolheu entre os prisioneiros cindo deles e mandou fuzilá-los. Mandou prender Batista Campos. A prisão do líder nacionalista foi efetuada pelo capitão Joaquim José Jordão. O inglês mandou amarrar Batista Campos na boca do canhão. No instante em que ia ordenar o disparo, muitas pessoas influentes, que ali se encontravam (entre elas o bispo D. Romualdo Coelho), intercederam e o cônego foi poupado. Todavia, levaram-no preso para bordo do brigue “Maranhão”, sendo de lá transferido para a charrua “Gentil Americana”. Os civis e militares que tinham sido presos na noite de 16 foram coletivamente assassinados no porão do brigue “Palhaço”. Foi a maior chacina que havia ocorrido até então na história paraense; nada menos de 252 pessoas ali perderam a vida. Em outubro de 1823, em Cametá houve uma rebelião contra o morticínio no brigue “Palhaço”, bem como nas vilas de Baião, Oeiras, Portel, Melgaço, Moju, Igarapé-Miri, Marajó, Abaeté, Muaná, entre outras.
Brigue Palhaço. Tela de Romeu Mariz Filho

Referência Bibliográfica
BARATA, Manoel. Formação histórica do Pará. Belém: UFPA, 1973.
PROST, Gérard. História do Pará: das primeiras populações à Cabanagem. Volume I. Belém: Secretaria de Estado de Educação, 1998.
RAIOL, Domingo Antônio. Motins políticos. Belém: UFPA, 1970.
ROCQUE, Carlos. História geral de Belém e do Grão-Pará. Belém: Distribel, 2001.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

11 DE AGOSTO - DIA DO ESTUDANTE

Em 11 de agosto, é comemorado o dia daqueles que dedicam parte de seu tempo aos estudos, é Dia do Estudante. Das crianças da educação básica aos pesquisadores doutores, passando pelos jovens do ensino médio e superior, a data é uma homenagem a todos eles.
Para entender as comemorações desse dia, é preciso voltar na história, pois, em 11 de agosto de 1827, D. Pedro I autorizou a criação dos primeiros cursos superiores no Brasil. Foram criadas as Faculdades de Direito de Olinda, em Pernambuco, e do Largo do São Francisco, em São Paulo, pioneiras no ensino superior.
Dessa forma, a comemoração do Dia do Advogado, que no Brasil também é celebrado no dia 11 de agosto, é uma forma de comemorar o início do ensino superior e das disciplinas jurídicas em solo brasileiro. Em 1927, durante as comemorações do centenário dessa data, o jurista Celso Gand Ley sugeriu que essa celebração fosse mais abrangente, comemorando também o Dia do Estudante.
Outro fato que reforçou ainda mais as comemorações dessa data foi a criação da União Nacional dos Estudantes (UNE) no dia 11 de agosto de 1937. Com o objetivo de representar os estudantes de diversas categorias, a UNE participou de movimentos populares, como as “Diretas Já” e os “Caras Pintadas”.
Outra comemoração ligada à classe estudantil é o dia 17 de novembro, conhecido como o Dia Internacional do Estudante. A data remete à resistência estudantil à ocupação nazista, em 1939, na antiga Tchecoslováquia.
Estudantes no Brasil
Até a criação dos primeiros cursos superiores em solo brasileiro, os jovens que desejassem continuar os estudos deveriam ir para a Europa, possibilidade aberta apenas para os filhos de famílias nobres. A partir de 1827 outras instituições de ensino foram surgindo em virtude da iniciativa pública e também privada.
O acesso à Educação é um direito assegurado pela Artigo 26 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, por isso, vários programas governamentais já foram criados para incentivar a permanência na escola e zerar o analfabetismo.
Uma dessas iniciativas do Governo brasileiro é o Plano Nacional de Educação, que monitora, a cada ano, o número de alunos matriculados na educação básica. Há, ainda, planos para o ensino superior que, além de facilitar a entrada em uma universidade, concedem auxílio para estudantes.
Segundo o Censo Escolar 2015, realizado pelo Ministério da Educação (MEC), quase 40 milhões de brasileiros estão matriculados em escolas de ensino infantil, fundamental e médio. No entanto, 17,3% das crianças com idade entre 4 e 5 anos ainda não estão matriculadas na pré-escola. Outra informação desse levantamento é que 1,6 milhão de adolescentes entre 15 e 17 anos abandonou os estudos antes de terminar o ensino médio.
Mundo Educação.bol

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

COLUNA DO LEITOR - DA SENZALA À GERAÇÃO WI FI

Por José O. Zelão V. Reis.

No final dos anos sessenta e toda a década de mil novecentos e setenta, período conhecido como anos de chumbo da ditadura militar, os movimentos sociais, sindicais e partidários para sobreviver e contrapor às barbáries impostas pelo regime (tanto dos militares quanto dos seus apoiadores - empresários internos e externos), tiveram que agir na clandestinidade - às vezes partindo para o confronto armado, como foi o caso das guerrilhas urbanas no eixo Rio-São Paulo e a guerrilha do Araguaia (debelada em 1975).

Nesse período, também não menos perseguida, sobreviveu fora da clandestinidade a UNE (União Nacional dos Estudantes). A UNE era a voz da juventude e influenciou no Brasil inteiro outros segmentos da classe estudantil e da sociedade como um todo. Na dor pela tortura e na perda pela morte, pelo desaparecimento e pelo exílio, a juventude era a força da esperança, a chama da liberdade, o grito que rompeu fronteiras e a voz que ecoou em distintos continentes e se fez ouvir incansavelmente até que veio a anistia, o primeiro passo para a retomada da democracia.

A transição não foi fácil; mais que transição foi uma imposição negociada: *o primeiro presidente civil pós-ditadura militar foi um fracasso, posto que veio por indicação dos militares; o segundo foi um desastre, visto que veio de uma tradição coronelista do que há de mais arcaico e corrupto do interior nordestino (nada contra os meus irmãos do nordeste, apenas contra os coronéis, não importa de onde o são); o terceiro foi uma farsa trans-vestida de social-democracia, sendo o mesmo um filhote do imperialismo norte-americano - foi um entreguista do patrimônio nacional a preço de bananas às multinacionais.

Mas o povo não se cansou e a luta continuou


A partir daí tivemos treze anos de governo popular, de reconhecimento e respeito internacional, de autoestima de um povo que saiu da linha de miséria e extrema pobreza ao ponto de se tornar modelo para o mundo no combate à fome, na ampliação de vagas nas universidades e do acesso às classes historicamente alijadas do ensino superior e na promoção e desenvolvimento de programas sociais como forma de distribuição de renda.

Isto mexeu com os brios da "Casa Grande" e infelizmente a nossa geração não preparou a geração Wi Fi para usufruir e gozar dessas benesses, conquistadas a ferro e a fogo. A nova geração não sabe de onde/como veio tanta liberdade e tantas oportunidades; apenas enxergam "culpados", como meninos mimados, quando o seu desejo não é satisfeito.

A Casa Grande soube aproveitar o "descuido" da ex-senzala, a insatisfação dos meninos mimados e o deslumbre dos ex-pobres/neo ricos que não entenderam nada e... de novo deu o golpe.

Retrocedendo ao período colonial, resta saber como os ex-ricos agora neo pobres vão se virar para reconquistar o seu lugar ao sol. Se vão lutar como os seus pais ou se vão procurar culpados.

P.S.*

1. Sarney (oriundo da ditadura militar - saiu do PDS e se filiou ao PMDB na última hora, porque a legislação eleitoral não permitia coligação interpartidária, resquícios  do autoritarismo); 
2. Collor -  eleito pelo voto popular - cassado por corrupção ativa);  e
3. FHC - indicado por Itamar Franco, deu sequência ao programa de privatização iniciado por Collor, sob orientação do FMI.

Depois deles até o golpe do Michel houve o período intermediário com Lula e Dilma.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

A GUERRILHA CIENTÍFICA NO BRASIL

Por Felipe Melo
No Brasil existe uma forte cultura de superação, seja do que for. O brasileiro gosta de ver seus compatriotas superando dificuldades, que são exaustivamente garimpadas pela mídia e propagadas como exemplos de vida. São os heróis nacionais verdadeiros quase sempre de bolso vazio. Atletas pobres que conseguiram subir ao pódio apesar da infância descalça e faminta. São portadores de deficiência que insistem em exercer sua cidadania em cidades onde só gozam desse direito os donos de carros quando estão enlatados numa dessas armaduras. Quando então alguém encontra e devolve dinheiro alheio garante seu acesso à TV e ao céu, simultaneamente, afinal o maior heroísmo dos brasileiros é a honestidade.
Decidi seguir a carreira acadêmica no Brasil. Após 10 anos como bolsista (graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado), aos 32 anos, fui contratado via concurso público pela UFPE. Então descobri, da maneira mais crua, o que como estudante não tinha vivenciado tão na pele. Fazer ciência no Brasil é um ato de guerrilha, de subversão da ordem cuja gratificação é puramente íntima para uns, ideológica para outros, talvez até um compromisso patriótico para outros tantos, mas sempre uma luta de superação e sem direito ao paraíso. Guerrilha é isso, enfrentar de maneira improvisada as adversidades do cotidiano mirando numa grande missão.
Fui estudante de Biologia na UFPE dos anos 90, a famigerada ‘Era FHC’, quando as universidades se encontravam num estado de penúria crônica. Não havia muitas oportunidades para os poucos estudantes interessados na ciência de Darwin. Éramos majoritariamente brancos de classe média e nossas famílias permitiam que cursássemos uma universidade sem a necessidade de uma bolsa. Alguns tinham bolsas de iniciação científica (PIBIC), um programa concebido para fixar alunos nos laboratórios de pesquisa, único no mundo, mas muito exclusivo. Quando ingressei no mestrado em 2002 na mesma UFPE, tinha que disputar uma das poucas bosas que se dava aos 5 primeiros colocados da seleção. Quando parti para o doutorado em 2004 no México (UNAM), fui com uma das duas bolsas de doutorado que a Capes ofereceu naquele ano para todos os candidatos que concorriam no Brasil na área de Ecologia. Oportunidade maravilhosa para quem nunca havia pisado e terras estrangeiras. Durante esses anos de México vi como de repente, o Brasil estampava a capa da revista Nature. O mundo estava maravilhado com o “foguete” científico do Brasil, que da penúria crônica passou à abundância de recursos e oportunidades, em poucos anos. A ‘Era Lula’ traçou prioridades, acelerou a expansão universitária e inundou os órgãos de fomento federais e estatais com recursos. Bolsas já não eram um problema. Os recursos para pesquisa sujeitos à saudável avaliação por pares eram claramente mais abundantes.
Voltando à UFPE, já doutor em Ecologia, tive uma boa bolsa de pós-doutorado por 18 meses, antes de ser aprovado num concurso. Vi como a graduação tinha mudado. Agora, as turmas de Biologia eram majoritariamente compostas por negros e pardos, em sua maioria mulheres, geralmente da classe emergente da Era Lula. Eram filhos e filhas de pedreiros, domésticas, comerciantes moradores de subúrbios recifenses e cidades próximas misturados aos filhos da classe média. Muitos recebiam uma bolsa que lhes ajudava a pagar passagens, aluguel num quartinho nas proximidades da UFPE (quando eram do interior) e refeições. O programa Ciência sem Fronteira mandava pencas desses estudantes para experimentar o mundo. A UFPE é hoje infinitamente mais diversa que antes, mais alegre, mais inclusiva. A guerrilha dos que me precederam havia ganho uma batalha importante, transformar as universidades, de feudos da elite canavieira pernambucana em uma casa de estudos com portas abertas para o povo brasileiro.
Em termos de pesquisa, íamos “de vento em popa”. Nossa pós-graduação subia de nota a cada avaliação da Capes (hoje somos nota 6 [máximo é 7]) e tínhamos recursos suficientes para pesquisa via órgãos de fomento. Alcançamos 90% dos docentes do departamento como bolsistas de produtividade do CNPq, um luxo. Éramos claramente um centro de excelência no Brasil. Obviamente não era um paraíso, afinal a má gestão das universidades públicas continua causando desperdícios de tempo e dinheiro, além de condições insalubres de trabalho. Como em qualquer guerrilha, apesar das vitórias, continuamos trabalhando em condições insalubres, sem água, energia ou segurança. Um ramal telefônico continua sendo um luxo na UFPE, como nos anos 80, quando até se declarava linha telefônica no imposto de renda. Os vícios do sistema público de emprego ganham expressões máximas nas IFES (instituições federais de ensino superior), atrapalhando o cumprimento da missão das universidades e da produção de conhecimento. Mas o sentimento era de que avançamos muito e já podíamos mirar no horizonte novas missões: internacionalização, inserção social mais efetiva, resolução de problemas do mundo real. Já figurávamos entre os cientistas mais citados do mundo, com destaque em diversas áreas do conhecimento.
Eis que de repente, não mais que de repente, nos mandaram avisar que o dinheiro estava acabando. Era o final do primeiro governo Dilma e depois do maior edital de financiamento que o CNPq já tinha aberto, o Universal de 2013, começavam a chegar as primeiras dificuldades. Parte dos projetos aprovados neste grande edital não foram pagos. No ano seguinte, aconteceu o mesmo e desde então têm sido assim. Nossa pós-graduação que havia ascendido à antessala do paraíso (nota 6) não conseguia pagar nem papel e tinta para emitir certificados. Então, veio a “lapada” (como costumamos dizer aqui no Nordeste) que nos derrubou do foguete em que voávamos, com foguete e tudo. A ruptura democrática experimentada pelo Brasil em 2016 antecedia o desastre total. A fusão do MCTI com as Comunicações e a entrega da pasta a Kassab davam o tom do que se avizinhava inexoravelmente. Nós que antes tivemos acadêmicos no MCTI como Sérgio Rezende agora temos um burocrata golpista. As notícias que antes eram de esperança passaram a ser de terror. Editais de jornalões plantando novamente a sepultada ideia de privatização das universidades. Fim do Ciência sem Fronteira, congelamento de orçamentos da Capes e CNPq, sem falar das fundações estaduais, novamente reduzidas à insignificância da qual algumas haviam emergido embaladas pelo crescimento da produção de conhecimento no Brasil. O exemplo mais emblemático vem do Rio de Janeiro, com sua estatal paralisada há um ano, colegas meus e alunos sem salário e bolsa há quatro meses. Mandaram “fechar a bodega” no Rio. O governo do golpe mandou avisar que produção conhecimento passou a ser luxo. Num governo cadavérico, com fantasmas, vampiros, cramunhões e coisas do gênero, nada mais natural que voltar à escuridão da ignorância.
Foram anos de planejamento, e se tem algo que a classe científica tem como um privilégio é que gerimos a nós mesmos. Os governos oferecem recursos e prioridades mas a execução e planejamento da ciência brasileira é fruto da árvore dos mesmos cientistas guerrilheiros. Somos nós que insistimos na missão, à revelia de qualquer governo. Controlamos os órgãos que nos controlam e financiam (Capes, CNPq) e temos autonomia para decisões que nos afetam. O que fazer agora, com o foguete? Em queda livre? Vamos deixar que se estilhace no chão da ignorância e desgoverno?
Outra vez nos resta tomar o controle das máquinas e guiar esse foguete como se possa para evitar que se quebre. Não podemos permitir que se percam tantos anos de avanços e planejamento por conta dessa aventura golpista que nos impuseram. É hora novamente de nos organizarmos como uma guerrilha. Resistir por birra, por raça, por insurreição, por missão.


Felipe Melo - Professor/Pesquisador - Departamento de Botânica, UFPE

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

O vômito mortal

Um poema amarelo

Pobre menino! Pobre menina. Não importa a idade, a escolaridade, a experiência. Mas o comportamento foi típico de uma criança confusa e perdida.

Viu sua vida melhorar milagrosamente. Arrumou um emprego bacana, conseguiu virar universitário, comprou bens, viajou, trocou o ônibus pelo avião e até carro comprou.

Acreditou que foi tudo por mérito e esforço pessoal. Pode até ter sido, mas e seus pais? Outrora também não tiveram méritos? Não trabalharam arduamente enquanto não conseguiam sequer comprar um presente para você no natal?

Acreditou numa verdade fabricada, embarcou numa canoa furada. Sonhou o sonho que não era seu, viveu uma realidade que não era sua. Defendeu bravamente uma bandeira por pensar que era sua, fez aliança com o inimigo e até dividiu os seus farelos.

Vestiu-se com as cores da bandeira, foi para as ruas. Bradou, vociferou contra a corrupção. Acreditou que estava fazendo por sua vontade, por sua consciência. Estava tão envolvido que nem percebia que apenas era usado, para depois ser vomitado.

Repetiu frases, bordões como mantras. Ofendeu amigos e até desconhecidos em nome de uma tal libertação. Cuspiu nos aliados, nos seus defensores e se aliou aos carrascos. Mal sabia o pobre que tudo não passava de um plano macabro de quem não tem escrúpulos nem pudor.

Com a cabeça dominada, manipulada, nem percebeu uma velha máxima: “uma mentira repetida exaustivamente vira verdade”. Atendeu prontamente ao chamado da grande mídia e engrossou a fila da insanidade.

Completamente extasiado, completamente dominado pelo sistema, como se tratasse de uma hipnose coletiva, foi ferrenho na luta pensando que era sua. Como um soldado adestrado espalhou mentiras e boatos nas redes sociais. Compartilhou ódio, intolerância e como um cão traiçoeiro mordeu a mão dos seus companheiros.

Agora está perplexo, descrente de tudo e de todos. Percebeu que acordou do transe tarde demais. Acordou de um sonho e percebeu que era um pesadelo. Envergonhado, com o estômago embrulhado, percebeu que apenas foi usado e descartado.

Está se sentindo completamente nu, sem eira, nem beira e sem algibeira. Foi cuspido pelo grande dragão que lhe deixou sem pão e sem chão. Completamente envergonhado, sente-se isolado. Como se estivesse acordado com uma imensa ressaca física e moral, não tem coragem nem para reagir, para usar a mesma bravura, a mesma valentia de dias atrás.

Agora só lhe resta o ostracismo, a solidão e a desesperança ao ver que seus novos heróis não passavam de velhos vampiros que comeram sua pobre alma. Sem vislumbrar um novo horizonte, se recolhe no seu quarto insano e agoniza no próprio vômito.


terça-feira, 1 de agosto de 2017

AGOSTO CHEGOU. VIVA A REPÚBLICA!

Hoje o Brasil acordou mais "brazil". O noticiário nacional escancara uma realidade catastrófica que não dá mais para esconder debaixo do tapete: a completa falência do ensino público. As universidades federais que representavam o último grupo de resistência contra o desmonte da educação estão dando seus últimos suspiros de agonia. Corte drástico de verbas federais, sucateamento sistemático das estruturas, estrangulamento dos departamentos de pesquisa... estão jogando as maiores universidades públicas na lama. Essa realidade é bem emblemática para um país que é levado a cultuar a ignorância e a barbárie. 

E o ensino médio? Esse é bom nem falar. Deixa quieto que dói menos. 

E se você acha que tem uma luz no fim do túnel, é melhor correr e apagar, pois no mês de agosto teremos a bandeira vermelha na conta de energia. E logo você que tinha fobia contra bandeira vermelha heim! 

UERJ SUSPENDE ANO LETIVO

publicado 31/07/2017



Do G1:


A Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) decidiu nesta segunda-feira (31) que não voltará às aulas. A decisão foi tomada pelo conselho de diretores da universidade e as atividades foram suspensas. Não há previsão para iniciar o primeiro semestre letivo de 2017.

O reitor, Ruy Garcia Marques, informou que não há condições de retomar as aulas por causa do atraso nos salários de funcionários e pagamentos das bolsas para estudantes. Além disso, professores e alunos não têm dinheiro para o transporte até à UERJ.