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quarta-feira, 22 de junho de 2022

O SORRISO DA HIENA

...Continuação do texto QUEM PUXA SACO PUXA CARROÇA.


    Antes de tudo, quero deixar claro que durante os anos que estive em cargo de gestor no serviço público municipal, encontrei muitos servidores comprometidos, competentes e honestos. Felizmente, eles são maioria. Fiz muitas amizades e aprendi muito. Sempre expressei minha admiração e respeito pelos servidores públicos e, defendi-os acima de tudo. Porém, nem tudo são flores. Convivi com algumas espécies que são verdadeiros cancros do serviço público. São minoria, mas fazem muito barulho e estrago, e isso dá a falsa impressão de que são a maioria. 



Ao longo da minha vida pública, aprendi a identificar os diversos tipos de puxas saco. Apesar de se tornarem cada vez mais profissionais a ponto de dificultar a identificação, eles sempre se entregam nos detalhes. Convivi com alguns que me renderiam boas histórias e até penso em escrever um livro de crônicas sobre as diversas características, espécies e artimanhas dessa "fauna selvagem". Aqui quero ilustrar com o exemplo de um exemplar dessa espécie. Para preservar a identidade, vou chamá-la de hiena que é bem propício para as características e personalidade da dita. Para quem não conhece, a hiena, é um animal esquisito que ocorre em regiões da África e Ásia. Possui uma mandíbula poderosa e sua mordida é tão potente que a mordedura equivale a de três rottweiler. Quando mostra os dentes, parece que está sorrindo e chega a ser bonito de se ver. Apesar de conseguir caçar com eficiência, prefere ficar na espreita para comer a carniça deixada por outros animais. 

Pois bem. A minha hiena era uma moça  de beleza mediana. Dotada de um sorriso exótico, mostrava sempre uma arcada dentária que dava gosto de se ver. Com um ar angelical, rosto com traços refinados, magra, cabelos sempre escovados e bem tratados, desfilava pelos corredores da secretaria de educação com a desenvoltura de modelo. E estava sempre por perto, pronta para servir ao chefe em qualquer situação. De tanto desfilar saltitante nos corredores, seu trabalho estava sempre por fazer e sempre dava uma desculpa para não entregar as missões a ela confiada. Mas quando tinha alguma tarefa onde o chefe (eu) estava diretamente envolvido, a moça se esmerava com dedicação e, no dia seguinte, perguntava a todos se o chefe estava satisfeito. Mas não se contentava até conseguir chegar ao chefe e arrancar algum elogio.

Até aí, tudo bem. Que mal tem alguém se dedicar para que tudo saia perfeito? Além de não ter problema, é o recomendável a qualquer bom profissional. Mas meu instinto, minha experiência com essa fauna fez meu cérebro entrar em módulo alerta. Uma luzinha amarela começou a piscar. O grande problema, não era a dedicação. O problema era a excessiva dedicação na tentativa de agradar o chefe, a necessidade excessiva de elogios e o descaso e desleixo nas suas principais atribuições.

Mas não para por aí. A minha hiena sempre dava um jeito de estar posicionada estrategicamente no corredor quando eu chegava ao trabalho. Com aquele sorrisão encantador – não era tão bonita, mas o sorriso compensava seus defeitos - me abraçava de um jeito sensual e sussurrava em meu ouvido elogios de cunho íntimo. E a hiena era casada! Confesso que ficava desconcertado e preocupado com os olhos indiscretos e os comentários maldosos. Quero registrar aqui que aprecio muito um abraço verdadeiro, e minha experiência me permite fazer distinção.

Infelizmente, comprovei que meu instinto não me enganou. A moça não tinha só o sorriso de hiena. Tinha também uma poderosa mordida. Como uma boa puxa saco da espécie mais perigosa, buscava sempre agradar e até tentar seduzir o chefe. Ficava na espreita colhendo informação para repassar a terceiros. 

Quando fiquei afastado da secretaria por quinze dias, consegui ver as imagens dela dando pulos pelos corredores e confraternizando com outras hienas. Quando voltei ao cargo, quem estava a minha espreita dizendo que estava com saudade e querendo me abraçar?

Ganha um livro quem acertar.

 


terça-feira, 21 de junho de 2022

QUEM PUXA SACO PUXA CARROÇA

    

Você conhece algum puxa saco? Certamente, não só conhece, mas convive com algum da espécie. É aquele indivíduo bajulador que vive buscando vantagem ou benefício pessoal. Está sempre rodeando, elogiando falsamente e exageradamente alguém que possa lhe proporcionar alguma vantagem ou fazer-lhe algum favor. Vive de prontidão, aguardando servilmente alguma migalha cair no chão para abocanhar. 

    O puxa saco é um saco sem fundo. Sua especialidade é arrancar cada vez mais benefícios da vítima escolhida. No início, demonstra ser uma pessoa solícita, atenciosa e sem qualquer pretensão. Convencem que apenas gostam de servir por puro altruísmo e admiração pelo outro. Vai conquistando a confiança metodicamente até que se torna uma espécie de protozoário que lança seus filamentos na vítima e só larga quando suga toda sua energia. Geralmente, quando a vítima percebe, já é tarde demais. 

    Existe na natureza, convivendo conosco, milhares de espécies de puxa saco. Alguns, sem nenhuma competência ou habilidade. Outros, com muita competência a ponto de elaborar método próprio para tirar vantagem das pessoas. Mas uma característica comum é que se passam por pessoas boazinhas, cheias de boas intenções e que gostam de ajudar o próximo. Com o numero cada vez maior, o puxa saco passou a ser tolerado e, muitas vezes admirado na sociedade. Muitos até se assumem abertamente como puxa saco e até usam argumentos para validar seu comportamento. Quem nunca ouviu a expressão: "quem não puxa saco puxa carroça". Eu diria que é muito mais digno puxar carroça do que carregar o ego alheio nas costas.

    Não se engane. Quem puxa saco puxa tapete. É um ser completamente desprovido de qualquer senso ético, virtude moral e empatia. Geralmente, tem uma vida infeliz, carregada de frustações e derrota. Como um protozoário, não gosta do corpo hospedeiro. Traduzindo: o puxa saco não gosta de você. No fundo, ele nutre ódio por você, ele deseja ardentemente o que você tem, as suas virtudes, seus amigos, sua família, seu trabalho. O que parece ser admiração, é apenas frustação, inveja e desespero por se achar incompetente por não conseguir imitá-lo. Aprenda a identificar essa espécie e fuja dela enquanto é tempo. 

    Apesar de ser extremamente perigoso, os puxa sacos são cada vez mais numerosos e conseguem se encaixar com facilidade nos seus hospedeiros vítimas. O meio político por exemplo é uma fauna perfeita para que essa espécie se prolifere e tenha muito sucesso. Quanto mais a pessoa é vaidosa, insegura, carente, emocionalmente instável e sem escrúpulos, mais se torna um hospedeiro perfeito para vários puxas saco. Pessoas de caráter duvidoso necessitam de uma legião de puxa saco para alimentar seu ego e sua carência afetiva. Portanto, um precisa do outro e vivem umbilicalmente interligados num perfeito ecossistema. 

Continua...


Aguarde a Parte II - O sorriso da hiena (a espécie mais perigosa de puxa-saco)




segunda-feira, 16 de maio de 2022

SEXO, CACHAÇA E SERTANEJO - A HIPOCRISIA NOSSA DE CADA DIA

Lembra daquela velha frase dos anos 60? "Sexo, drogas e rock and roll". Pois é. Me permita parafrasear com o título acima. Um episódio picante envolvendo autoridades de Parauapebas viralizou e dominou o WhatsApp nesse fim de semana. Sim, viralizou no WhatsApp, pois por motivos que todos já conhecem, os sites de notícias não se atrevem a morder a mão dos seus donos que os alimentam. Se não fosse esse detalhe, todos os meios de comunicação (ou quase todos) estariam fazendo um verdadeiro linchamento moral das autoridades envolvidas no escândalo. Não fizeram em suas páginas, mas, como todo cachorro traiçoeiro, encontraram um jeito de morder escondido. Assim, os grupos de "Zap" fizeram a festa. Hoje, segunda-feira (16) contei no meu app 86 mensagens recebidas com esse assunto.

É claro que eu não trataria um assunto banal desse no meu blog. Não me agrada ficar explorando a vida pessoal de quem quer que seja publicamente. Ninguém tem nada a ver com a vida privada de ninguém e cada um assume as consequências dos seus atos. Mas como escritor, vejo em qualquer história uma oportunidade para abordar um tema interessante. E aqui, aproveito para fazer uma reflexão sobre a hipocrisia que reina em nossa sociedade com princípios judaico-cristão e cultura ocidental. Mas não citarei os nomes dos personagens e, sequer falarei sobre o ocorrido que não é de minha conta. Portanto, quem não souber do que se trata, continuará sem saber. E nem adianta me perguntar em off.

"Ah, mas fulano é uma autoridade, tem que dar exemplo" - poderia questionar um puritano. E eu diria: fulano tem que prestar conta publicamente é daquilo que é atribuição dele enquanto autoridade, e não da vida pessoal. Se o cidadão aprendesse a cobrar de suas autoridades apenas aquilo o que lhe compete na vida pública, nós não estaríamos nessa miséria política.

Deixo claro que não estou defendendo as "putarias" de quem assume cargo público. Bom seria se nossas autoridades tivessem uma moral ilibada e tratassem da coisa publica e da privada com a mesma deferência, honestidade e transparência. Mas, caro leitor, vá por mim. Isso é praticamente impossível. Todo mundo está careca de saber que os seres humanos estão sujeitos a falhas e vacilos, e, infelizmente esses vacilos fazem a alegria da massa. Não é a toa que existem milhares de folhetins, sites, blogs e afins que vivem remexendo o lixo das autoridades em busca do circo dos horrores. Parece que isso é tão importante para a maioria quanto comer e respirar. Até me atrevo a dizer que muitos desses escândalos são vazados de propósito pelos próprios políticos para servir como cortina de fumaça. Enquanto o povão está se divertindo com as puladas de cerca, chamando fulano de corno, cicrana de rapariga, o caminho fica livre para as tramoias e os esquemas na esfera publica. Exagero? Talvez, mas já vi esse filme ao vivo e a cores. 

Está provado estatisticamente, historicamente e cientificamente que nossas autoridades políticas são o reflexo da média da nossa sociedade. Se temos uma sociedade corrompida, se temos eleitores que vivem alardeando sobre políticos honestos e, ao mesmo tempo, correndo atrás de favorecimentos pessoais dos corruptos, que acreditam que todo político tem que roubar... E quando aparece um político honesto que fala a verdade, que diz que não pode fazer qualquer favorecimento pessoal pois seria uma imoral compra de votos... Como é que esse povo ainda é capaz de esperar que nossos governantes sejam santos? Repito: NOSSOS GOVERNANTES TEM O COMPORTAMENTO E ATITUDE DA MÉDIA DA SOCIEDADE. Eles não vieram de Marte nem de Vênus. Eles são frutos dessa mesma sociedade, são como a maioria que os elegeram. Isso dói né? Mas é assim que a banda toca. Cabe a você decidir se dança de acordo com a música ou começa a mudar a afinação dos instrumentos.

Para chocar ainda mais a quem ainda não refletiu sobre isso, vou apertar mais um pouco o dedo na ferida. O que aconteceu e foi amplamente divulgado nesse fim de semana (e nem adianta me perguntar se você ainda não sabe) é mais comum do que o "inocente" leitor imagina. No círculo do poder aqui em Parauapebas ou em qualquer lugar desse meu Brasil varonil acontece coisa que faria arrepiar até o cabelo do "fio-fó. É que o poder, apesar de efêmero, é sedutor. Como fala um amigo meu que passou uma temporada por lá num município vizinho: "quando se está no poder, o vento bate de todos os lados, até quando se está de banda. Fora do poder, você abre os braços e o vento passa longe". O cabra pode ser medonho de feio, zarolho, buchudo, bexiguento, troncho, sem noção, palerma e frouxo. Quando ascende ao poder político vira o ser mais lindo e interessante do mundo. Aí meu caro leitor, a tentação vem de todos os lados e é preciso ter muita força e convicção para não sucumbir. Não sei que magia é essa, só sei que é assim. Talvez o mistério do Pântano Azul explique. Se ainda não conhece, recomendo a leitura desse conto. (prometo que postarei aqui qualquer dia).

Você não acreditaria se eu te contasse o que vi durante os 10 anos que estive por lá. E é claro que não vou contar. Aquela mulher santa, mãe de família, honesta, religiosa fervorosa que vive fazendo campanha de oração; aquele homem de caráter ilibado e moral acima de qualquer suspeita, devotado pai de família incapaz de olhar para um rabo de saia. Conhece alguém assim no círculo do poder? Então! As histórias e peripécias de alguns deles (veja só, eu digo alguns. Cuidado para não generalizar senão você vai para o inferno abraçar o chifrudo) daria um best seller picante proibido para menores de 30 anos. 

E isso é normal? Claro que não! Mas também não é normal o brasileiro ter esse gosto de chafurdar a vida pessoal dos outros como se a dele também não fosse cheia de detalhes sórdidos. No dia que esse povo passar a cobrar comprometimento dos políticos com a causa publica; no dia que não aceitar mais favores pessoais e pensar no bem da coletividade; no dia que o eleitor não votar mais em político que compra voto; no dia que esse povo aprender a denunciar os candidatos que andam esbanjando dinheiro nas campanhas eleitorais; no dia que o cidadão exigir dos governantes melhores escolas, saneamento, saúde; no dia que o eleitor impedir que o governante faça obras eleitoreiras e invista os recursos com obras de qualidade... aí sim. Nesse dia ele poderá exigir que os políticos tenham uma vida pessoal sem escândalos. Mas por enquanto, se esse povo priorizar o compromisso publico dos políticos ao invés de se preocupar com quem botou chifre em quem, aí já estaremos na porta do paraíso. 

Concorda? Se concorda, escreva aí nos comentários. Se não concorda, escreva também. 

quarta-feira, 11 de maio de 2022

AS COSTELAS DO DARCI - PÃO E CIRCO OU UMA GRANDE IDEIA?


Nesse dia 10 de maio (terça-feira) foi organizado pela prefeitura de Parauapebas o "maior churrasco do mundo" para comemorar os 34 anos de emancipação de Parauapebas. Não participei do evento, não por falta de vontade. Calculei que haveria grande aglomeração para comer 20 mil quilos de carne, e assim, preferi comemorar com mais tranquilidade na minha cozinha. Comemorar sim! Sempre comemoro o aniversário dessa terra que ajudei a construir desde 1987 e me proporcionou muitas oportunidades. 

Pois bem. Como não estava lá, não posso comentar sobre o tal churrasco. Imagino que tenha sido um sucesso dado ao grau de organização demonstrado nos bastidores. Mas hoje, 11 de maio (quarta-feira), acompanhando a repercussão da festa pelas redes sociais, fiquei incomodado pelo teor dos comentários da maioria dos internautas. Aquele clichê de sempre: "a cidade está cheia de buracos e o prefeito fazendo churrasco", "os postos de saúde estão sem remédios e a prefeitura esbanjando com festa", 'a zona rural está abandonada, as estradas intrafegáveis e o Darci esbanjando nosso dinheiro", "a cidade está um lixo, a educação... blá, blá... e o prefeito fazendo o maior churrasco do mundo. Sabe o que eu acho? Uma grande hipocrisia. Primeiro porque quem quer agradar todo mundo, morre na praia. Então, nesse caso, o prefeito não tem que se preocupar com as críticas nesse momento. Segundo porque a maioria desse povo que está criticando o tal churrasco juntamente com o show de quase meio milhão, provavelmente vai estar nos comitês do Darci ou de quem ele apoiar se oferecendo para ajudar a elegê-los em troca de migalhas ou até de promessas que nunca serão cumpridas. Participo do processo eleitoral em Parauapebas desde 1988 e vejo tudo se repetir ano após ano. Parece que o povo vive implorando por pão e circo. 

Não estou aqui desmerecendo as críticas em relação a situação da cidade. A cidade está abandonada? Está. Falta gestão? Falta. Os críticos têm razão pelas mazelas citadas e muito mais. Aliás, esse povo não sabe da missa um terço. Buraco nas ruas de Parauapebas é coisa pouca em relação aos verdadeiros problemas da gestão. O que esses críticos não tem razão é quanto a abordagem. A cidade abandonada e o churrasco não tem nada a ver. Nosso orçamento é gigantesco e daria para sanar os problemas apresentados e fazer uma super festa no aniversário da cidade. Não estamos falando de um município pobre onde o gestor tem que tirar a verba da saúde, da educação, da infraestrutura para dar festa. Estamos falando de uma cidade próspera com recursos suficientes para se dar ao luxo de proporcionar ao povo o maior churrasco do mundo.

Não me coloco aqui como defensor do Darci. Já tem bajuladores demais fazendo isso e muito bem. Mas convenhamos. O prefeito executou uma jogada de mestre ao arquitetar esse plano ousado e proporcionar ao povo essa churrascada. Pelas fotos foi bonito de se ver. As imagens mostraram todas as classes sociais reunidas para prestigiar a festa - por sinal muito bem organizada - e de quebra, saborear um delicioso churrasco, coisa de luxo nesses tempos de Bolsonaro. Qual o problema em proporcionar esse luxo ao povo? 

Como todos já sabem, o Darci teve seu mandato cassado e se mantém no cargo graças aos recursos jurídicos que o sistema democrático permite. E esse churrasco veio em bom momento. Serviu para atrair ainda mais a simpatia do povo e esfriar os ânimos dos adversários. Portanto, foi um plano bem elaborado e executado com sucesso. E restou a oposição ficar resmungando e usando os mesmos clichês de sempre com a velha ladainha que escuto desde 1996 no pleito que elegeu Bel Mesquita. E o Darci teve inteligência para entender esse processo que já se tornou cultural em Parauapebas. Entendeu e soube jogar o jogo a cada eleição.

Podem acusar o Darci de ser um péssimo gestor, de não ter aptidão para governar, de abandonar a gestão nas mãos dos empresários financiadores e políticos ambiciosos, de deixar que cada secretaria vire uma subprefeitura, de deixar a corrupção correr solta e outros defeitos que preencheriam umas três páginas. Mas ninguém pode acusá-lo de ser um mal político. Como político, o Darci é imbatível, é um especialista em ganhar eleição e matar politicamente seus adversários. Não é a toa que está no seu quarto mandato. Cassado ou não, o Darci continuará vencendo eleições ou elegendo quem ele quiser até que a oposição se reinvente e abandone de vez essa estupidez. Política em Parauapebas é coisa para gente grande e a oposição tem se comportado como meninos mimados em busca de um herói típico valentão ou fanfarrão saído dos Contos de Nárnia. 

Enquanto isso... ponto para o Darci com seu super churrasco.

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

VOCÊ CONHECE ALGUM VICÁRIO?

            Vicário é uma palavra de origem latina que significa “o que faz as vezes do outro”’ ou “o que substitui outra coisa ou pessoa”. O filósofo Leandro Karnal utiliza o termo “vida vicária: a vida dependente de outro”. Para ele, “são pessoas que vivem atacando tudo e todos, querendo um lugar ao sol, querendo fama e, desesperados, metralham para todo lado. Vivem do ódio e do ressentimento”.

            A grande característica que ajuda a identificar um vicário é que eles não têm vida própria, não tem capacidade para criar ou produzir. Desprovidos de inteligência e, sempre com o ego inflado, esses seres geralmente se apegam a ideais autoritárias e são instrumentos perfeitos para reproduzir pensamentos totalitários. Usam as redes sociais para mostrar uma vida fantasiosa como se fosse sua. Repetem bordões e frases feitas sem ao menos saber o significado e atacam com virulência ideias e pessoas que tem alguma capacidade de pensar por conta própria. Por isso, geralmente desprezam e atacam os intelectuais ou qualquer pessoa com senso crítico e humanitário, os quais são chamados de comunistas, agitadores, esquerdistas...

            O vicário nada edifica, sempre apedreja. Não conseguem estabelecer relação de amizade duradoura com ninguém, pois sempre estão querendo a vida do outro, e, agem como sanguessugas. Comportam-se como valentões, esbravejam, demonstram coragem através do grito e cara feia (principalmente nas redes sociais) e por não conseguirem se destacar com a mente, se preocupam excessivamente com o corpo.

            Os vicários mendigam atenção dia e noite. Ainda de acordo com Karnal, “mostram-se dependentes, subalternos e não protagonista. Gente de vida vicária sofre muito”.

            Você conhece algum vicário? Conte aqui nos comentários.

 

segunda-feira, 1 de junho de 2020

A INDIGNAÇÃO À ESTUPIDEZ HUMANA

Tenho procurado me ausentar das discussões em redes sociais. Porém, nos deparamos com tantos absurdos, tanta insanidade, tanta falta de humanidade e empatia que o meu lado humano, minha indignação fala mais alto. A vontade é de usar palavrões, de chutar o fígado, de esculachar. Me vem á cabeça a imagem de Jesus xingando os fariseus de hipócritas, sepulcros caiados, literalmente perdendo a compostura (Mateus, 23). Mesmo sendo o Filho de Deus, seu lado humano as vezes sobressaltava.
Ao ler uma postagem no Blog do Zé Dudu com o título "FILHO DE DEPUTADO ESTADUAL PARAENSE É PRESO COM 40 KG DE MACONHA NO MARANHÃO", caí na besteira de ler os comentários. Me ferrei. Mesmo me controlando, segurando meu ímpeto, não resisti e lá estava eu, respondendo aos comentários, literalmente chutando o estômago dos julgadores do espelho. "Os maus são minoria, mas são barulhentos e causam danos irreparáveis quando os bons se calam". E não me calei, mesmo com todo o controle que tenho.
Que fique claro que minha indignação não foi contra a matéria do blog, e sim, contra a postura, a estupidez de alguns comentários tipo: "Maconheiro do PT! Se fu**!!" "PT e espera o que?"(com erros). "A madastra é defensora dos direitos dos manos". "...ainda mais vindo e sendo filho de deputado de PT" (... ) e outros comentários no mesmo nível. Felizmente, outas pessoas sensatas comentaram, mas com timidez.
Conheço o Rogério. O pai, conheço de longe e, aqui não julgo pela óptica política e nem entro no mérito da criação do seu filho. Analiso a banalidade dos julgadores de plantão que vão logo condenando e associando a filiação partidária com ódio de classe e excesso de ignorância.
Pelo seu erro, parabenizo a ação da polícia que fez seu trabalho com sucesso. Torço para que seja julgado e pague com justiça pelos seus erros e volte a ser um cidadão exemplar, um professor, de acordo com as orientações e projeto de sua família. Conheço a sua mãe (quem criou desde sempre) e sei o quanto ela se dedicou para que ele tivesse a melhor educação e caráter irretocável.
Aos que estão fazendo comentários maliciosos e julgando os pais pela preferência política, torço para que um dia, seus filhos não caiam na armadilha das drogas. E não adianta dizer que cria bem os seus filhos, pois ninguém, absolutamente ninguém está livre de passar por isso. Já vi esse filme muitas vezes.
E finalmente digo: a atitude demonstrada em alguns comentários é tão repugnante que me recuso acreditar que vieram de mentes humanas. Por isso, quando uso palavras duras, quero chocar, causar impacto nessas pessoas e, quem sabe, fazer com que o choque façam voltar ao eixo e voltar a pensar como humanos. Se eu não conseguir causar isso, pelo menos o desabafo já serviu para desintoxicar minhas células.

domingo, 24 de maio de 2020

A REVOLUÇÃO DOS RATOS




By Luiz Vieira

Essa é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com a realidade, será mera coincidência

Parte I

            Tudo estava tranquilo no submundo frio e fétido do esgoto. Ratos e ratazanas viviam no seu ambiente se alimentando dos dejetos que corriam fartamente do mundo dos humanos. Ali, todos eram felizes e viviam em harmonia. Seguiam a ordem para não ultrapassar os limites do esgoto e não adentrar no mundo dos humanos.
            De vez em quando, um ou outro rato rebelde quebrava a rotina e, movido pela curiosidade e atraído pelo cheiro dos humanos, desobedeciam às ordens e saiam do esgoto em busca de aventura e novidade. Geralmente, eram esmagados, pisoteados ou envenenados. Apesar do perigo e das recomendações contrárias, cada vez mais, aumentava o número de ratos rebeldes que ignoravam o perigo de circular entre humanos.
            Um velho rato viciado em queijo, viveu sua vida inteira traçando um plano para se tornar humano e conviver fora do submundo dos esgotos. Em uma de suas aventuras, já bem à vontade na sua incursão na farta cozinha de homens engravatados e poderosos, foi contaminado por uma fatia de queijo envenenado. O pobre rato escapou da morte, mas a mistura do veneno com a saliva de um humano corrupto, provocou um efeito nunca visto antes na história dos ratos: ele começou a sofrer um processo de mutação. Lentamente, foi desenvolvendo as características físicas de humanos. No início, foi uma tragédia. Passou a ser hostilizado pelos seus semelhantes e forçado a viver isolado num canto do esgoto onde todos evitavam passar perto.
            Com o passar do tempo, o que era uma aberração, passou a ser uma atração para os ratos, principalmente para os mais jovens ou para os velhacos que viviam saudosos do tempo em que frequentavam a cozinha do palácio negro dos humanos. Aos poucos, começaram a frequentar aquela área isolada do esgoto e ouvir as histórias do velho rato transmutado. E passaram a chama-lo de MITO.

Parte II

            Cada dia mais popular entre a horda de ratos que almejavam viver entre humanos, o velho rato transmutado ia ganhando mais adeptos. A cada dia, seu físico se parecia mais com humano, enquanto o cérebro continuava de rato. Agora, com o isolamento afrouxado devido a sua popularidade entre os ratos, organizava excursões pelo mundo dos humanos e ensinava os ratos a copiar o comportamento deles. E mais: após tanta insistência, descobriu a combinação que havia lhe causado a transmutação. Agora, ele não estava só. Uma legião de ratos transmutados crescia exponencialmente.
            Animado com seu sucesso e o número de ratos transmutados, o rato chefe que era chamado de mito, traçou um plano para viver definitivamente no mundo dos humanos.
            - Lá é bem melhor e poderemos nos adaptar facilmente. Além de sermos numerosos, encontraremos muitos aliados entre os humanos que pensam quase igual a nós. Vamos dominar geral, e quem sabe, ocupar o topo. Os melhores queijos nos aguardam! – falou o rato chefe aos gritos empolgados dos seus adeptos.
            - Mito, mito, mito...
            O rato chefe ganhou um nome de humano. Passou a ser chamado de Picotauro. Estava cada vez mais entrosado ao mudo humano. Entrou para o exército e, apesar da pouca habilidade e inteligência, mas com muita astúcia, conseguiu ser promovido a cabo. Mas logo foi expulso por indisciplina e por atentar contra a instituição. Para evitar escândalo, o exército optou pela aposentadoria compulsória. Agora ele queria mais. “Quero entrar no centro do poder, onde muitos pensam como eu”. E virou deputado. Lá ficou quase três décadas sem fazer nada, só observando o comportamento de seus pares e aprendendo. Achou tudo muito parecido com sua realidade do esgoto da Ratolândia.
            Picotauro queria mais. Achou que já era hora de dar um passo maior. “Quero estar no centro do poder e mandar nessa porra toda. Empolgado com o sucesso dos seus semelhantes ratos transmutados que ocupavam posições importantes, decidiu pôr em prática seu velho plano. Numa assembleia secreta na galeria central do esgoto, traçou minuciosamente seu plano junto com seus parceiros que já era maioria.
            - Vamos dominar geral essa porra. Chega de viver na sombra. Vamos assumir tudo e nos vingar desses filhos da puta dos humanos que nos pisoteou, nos envenenou, nos esmagou com suas armadilhas cruéis – bradou Picotauro com baba na boca.
            - Mito, mito, mito... – respondia a turba de ratos transmutados como se estivessem em transe, hipnotizados.
            - E para começar, vamos atrair os humanos que mais se parecem conosco. Vamos usar suas ferramentas e seus pontos fracos – falou Picotauro.
            - A internet. Os humanos adoram internet e espalham notícias falsas sem nenhum escrúpulo. A maioria só se informa por essa ferramenta e acredita cegamente – opinou um membro da assembleia.
            - Bravo, muito bem. Vamos usar a internet e espalhar notícias falsas. Vamos fazer com que os humanos se odeiem, se matem. Mas alguma ideia? – Perguntou Picotauro.
            - Meu cabo, notei que muitos humanos tem uma obsessão por armas. Deve ser alguma tara. Vamos aproveitar esse instinto e armar todo mundo. Assim eles terão a falsa sensação de segurança e se matam mais rápido – opinou um rato-humano musculoso e de cabeça pequena.
            - Ótima ideia! Aplausos. Alguém mais? – Respondeu Picotauro sorrindo e fazendo um gesto com a mão direita e o dedo indicador em riste na horizontal como se estivesse atirando. Todos os presentes imitaram seu gesto.
            - Cabo Picotauro, notei que muitos humanos parecidos conosco tem um lado reprimido. São homofóbicos, racistas, machistas, genocidas, misóginos, tem ódio dos seus semelhantes pobres, mas vivem escondidos e disfarçados devido as leis que criminalizam esse comportamento e a perseguição do povo dos Direitos Humanos. Por que não começamos a exaltar e propagar esse comportamento como atitude de quem tem coragem e de quem é verdadeiro? E quem for contra, chamamos de nutela, de mi-mi-mi. Que tal?
            - Muito bem meu filho. Você é foda. Já tá até falando difícil como a escória humana. Há, há, há... – respondeu Picotauro com uma risada sádica de contentamento.
            - Cabo Picotauro, além de usar a internet para espalhar nossas ideias, vamos chamar todo mundo que não concordar conosco de comunista, de esquerdista, de terrorista. E vamos chamar todo universitário de vagabundo maconheiro. E aos cientistas filhos da puta, vamos desacreditá-los, dizer que vivem às custas do dinheiro público para plantar mentira e espalhar o comunismo – falou empolgado um ratão-humano de meia idade cheio de anabolizante.
            - É isso aí. Gostei dessa. Nem sei o que significam essas palavras mas se é para ferrar com os humanos, “tamo junto” – empolgou-se Picotauro. Mais alguém tem outra ideia?
            - Senhores, senhoras, gostei de todas as ideias. Mas temos que encontrar um jeito criativo para enganar os humanos e não assustá-los. Lembrem-se de que antes de exterminar com essa raça de “estrumes”, precisamos deles para a nossa causa – falou uma voz dissonante no fundo da assembleia.
            - Muito bem senhora. Até que enfim, uma ratazana fala algo que se aproveite. Explique melhor – falou Picotauro com ironia.
            - É o seguinte: temos que ter algum grupo humano que nos dê cobertura e ajude a legitimar nossas ideias. Vamos usar as igrejas, vamos ocupar os templos e convencer as almas mais fracas e ambiciosas para a nossa causa – respondeu a ratazana do fundo da galeria vestida como uma devota e com uma Bíblia na mão.
            - Bravo, bravo, bravo. Aplauso para a nossa membra ilustre. Agora você será nossa representante nisso aí – gritou histericamente Picotauro espalhando perdigoto. – E agora vamos deixar de conversa e vamos partir para a prática. Soldados, patriotas, vamos ao ataque. Abaixo os humanos!
            - Mito, mito, mito... – Gritava a turba de ratos transmutados como um exército de zumbis.

Continua?
Não sei.

quinta-feira, 22 de agosto de 2019






O CAMINHO DAS ESTRELAS: MISTÉRIOS, AVENTURAS E APRENDIZADOS NO CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA.

A pedido dos amigos, disponibilizo aqui o prefácio que acabou sendo um resumo do meu livro. Lançamento previsto para setembro. Uma pequena amostra para degustação. 
PREFÁCIO


Este livro vai revelar a você dois caminhos: um que leva a Santiago de Compostela; o outro, que conduz ao coração de um homem.
Todo ser humano que sai à procura de alguma coisa já a carrega dentro de si. Por isso que uma busca não é uma busca -- é uma revelação. Como aconteceu a Cristo, que muito pregou -- mas só após a cruz fez a ascensão. Ou com Buda, que tanto caminhou -- mas sentado é que chegou à iluminação.
A imagem da busca é a de alguém que segue um caminho. A realidade da busca é a de um caminho que prossegue em alguém.
Mas os caminhos -- de chão, de pedra..., existentes ou a se criarem -- são necessários. Pois o que eles são, feitos em terra, e como eles estão, delineados em nossa mente, contribuem fortemente para sensibilizar, energizar e motivar o ser para a jornada.
Os bons caminhos raramente são fáceis. No percurso deles há sempre obstáculos -- geralmente muitos, frequentemente grandes. O das Índias, tinha o Atlântico. O de Ícaro, o Sol. O de Drummond, a pedra.
O caminho de Vieira -- o Luiz, professor, não o Antônio, padre – tinha tudo isso e muito mais. Para Luiz Vieira, autor deste “O Caminho das Estrelas”, o problema não era o oceano (que ele venceu de avião), nem o sol (que chapéu e protetor anteparavam) ou a multidão de pedras (de que se desviava). O problema eram os “outros” problemas: o desconhecido, a inexperiência, o(s) idioma(s), os costumes e até o antinatural, quando não o sobrenatural... Sem falar nas ansiedades, nas angústias, nas inquietações, no autoquestionamento (tipo “O que é que eu estou fazendo aqui?”). E o que dizer dos sonhos e pesadelos e das estranhas situações ou sensações de irrealidades e pararrealidades, quando não se sabe se se está desperto ou se se delira, quando não se sabe se pessoas e animais, ambientes e cenários são coisas reais dentro de um sonho ou se são fantasias e fantasmas dentro de uma realidade...
Nenhum homem é feliz sem um delírio de algum tipo. Os delírios são tão necessários para a nossa felicidade quanto a realidade”, reconhecia Christian Nestell Bovee, escritor americano. Não creio que Luiz Vieira delirava quando, após ler um livro sobre o Caminho de Santiago, prometeu-se a si mesmo percorrê-lo -- e, agora, muda da condição de leitor para a de autor de uma obra compostelana.
Vieira - ele mesmo escreve - queria aventura. Outros fazem o Caminho pela História, pela Cultura, pela Mística, razões bem mais humanistas do que as humanas esperanças e o pagamento de promessas ligadas a dinheiro e poder, saúde e prazer; e bem mais pias que as caridosas - e caras – indulgências com que, desde o século 3 “et multa saecula”, pecadores ganhavam oportunidade de reparar os males advindos de seus pecados para, lá adiante, limpar a própria alma e ganhar um terrenozinho no bem loteado Céu daqueles idos...
Se era aventura o que inicialmente desejava Luiz Vieira, ele recebeu muito mais. Parte desses ganhos ele guarda consigo; outra parte, e não é pouco, ele a divide aqui com os leitores. Divide sua ansiedade inicial, feliz, e os iniciais “tropeços” de primeira viagem, porém firme no propósito, empedernido igual a “burro xucro”.
O livro conduz o leitor a vivenciar o Caminho a partir do frio de zero grau nas montanhas franco-espanholas; a caminhar toda Zubire, uma cidade de só duas ruas; a ver/ouvir o burburinho da trimilenária Pamplona.
Mais adiante, ficamos sabendo da pessoa do autor e da pessoa de outras pessoas. Do autor, seus sonhos e sofrimentos; de outros, saberemos de “Seu” Franco e sua sabedoria franca, seu sorriso franco. Saberemos de “Seu” Paulo, fadiga e fome, pão e palavras.
À medida que caminha, Luiz Vieira nos encaminha, empresta-nos seus olhos, entreabre a mente, apresenta-nos de mais de perto quem ele viu, conheceu, conversou pelo Caminho: por exemplo, nos deixa saber, em Torres del Rio, de uma bruxa no quarto; da dor e redenção nas histórias de Maria, 80 anos; de uma neoamiga neozelandesa.
Em Azofra, apresenta-nos melancolia, desânimo... e Papai Noel. Mostra-nos os pés muito feridos e relata uma cura inesperada. O encontro com um espanhol bom de prosa. A catedral de Burgos, onde Luiz concorda com a beleza da igreja mas, cabreiro, discorda do “pay to pray” (pagar para rezar).
À medida que caminha, o autor mais no encaminha. Quando seus olhos perscrutam o Caminho, eles nos dizem de natureza e vastidão, beleza e solidão. Quando passa por lugares e se assenta em restaurantes e bares, quando faz pouso em beliche coletivo ou repouso em cama individual, quando se abanca em bancos de praças e ruas... de tudo isso dá conta o olhar vieirano.
Mas o radar humano do autor gosta mesmo é de emitir ondas emocionais, permeáveis às cargas de energia e sensibilidade emanadas de gente. É como se Luiz Vieira fizesse coro com Públio Terêncio Afro, poeta e dramaturgo da Roma de 22 séculos atrás: “Sou humano, e nada do que é humano me é estranho...”
E é nas histórias humanas que o autor vai (se) desentranhando e “desestranhando”. Luiz Vieira se junta a outro ser para com ele sentir e para dele saber. E para nos contar colorida e doloridamente da história de Lorenzo, em León, onde o autor vivenciou a mendicância e por horas, entre uma esmola e outra, ouviu relatos de uma vítima de crises econômicas além-Atlântico, crises que teimam em tornar coletivas as dores que são vividas individualmente, cotidianamente.
Outros relatos levam a experiências com personagens misteriosos (que nem a enigmática Ana, com seus exercícios e lições) e até o que não é “persona”, como o estranho cão no caminho de Palas de Rei.
Particularmente sensível à beleza, Luiz Vieira se deixa levar e enlevar pelo que lhe entra pelas vistas como imagens e lhe sai pelos dedos em palavras: a simplicidade do quarto e catre onde ele dormiu e onde o santo de Assis pode ter estado; o castelo de Gaudí, de 120 anos; a tradição do ritual da queimada; e o alumbramento com a “imponência” da catedral de Santiago de Compostela, onde abraços se deram e lágrimas se derramaram ao som de hinos e cheiro de incenso.
*
Este livro nos leva, literalmente, ao fim do mundo -- como o acreditavam os viventes do século 15, tanto que deram o nome de Finisterra (“fim da terra”) a um lugar para além de Compostela. O autor foi até lá, e nos levou a esse fim -- que ele não é de deixar nada pelo meio do caminho...
Há muito se sabe que nem todo caminho leva a Roma. Diversos levam a Jerusalém e alguns poucos verdadeiramente levam à maior das distâncias e ao mais desconhecido dos destinos: o interior de si mesmo.
A partir de um caminho exterior, Luiz Vieira fez sua jornada mais íntima. E chegou à Galícia, a Compostela, por uma das rotas mais desafiadoras, oitocentos quilômetros a pé, começando na França, nas faldas da cordilheira dos gelados Pireneus.
Não são muitos os caminhos que levam a Santiago de Compostela.
O mais novo deles é este livro.
Mais novo -- e melhor.
Deixe-se levar...
Edmilson Sanches



sexta-feira, 26 de abril de 2019

CORAÇÃO BOBO


Num dia qualquer, enquanto relaxava de mais um dia intenso de trabalho, uma moça me sai com essa:
- (...) seu coração bate esquisito!
- Como assim, esquisito? – indaguei.
            Ela escutou mais um pouco com ar de enfermeira e perguntou:
            - Há quanto tempo você não faz um checkup?
            - Fiz no ano passado – respondi.
            - Fez eletrocardiograma?
            - Não. Esse eu fiz há uns dois anos – respondi com sentimento de culpa.
            - Pois amanhã mesmo vou agendar uma consulta no cardiologista para você. Esse coração tá muito esquisito – sentenciou-a em tom severo.
            - Claro que não! Meu coração está perfeito. Minha pressão sempre foi 12X8 – minimizei o alarme.
Mesmo com minha resistência, sua insistência foi maior.  Em uma semana, lá estava eu no consultório particular de uma cardiologista examinando o coração. E eu que sempre tive uma excelente saúde, de me gabar que meus checkups não davam nem verme, de ter um fôlego de atleta, de nunca ter sentido absolutamente nada... fui surpreendido com esse diagnóstico:
            - O que está acontecendo com esse coração senhor José Luiz? – pergunta a médica observando o eletrocardiograma com cara de preocupada.
            - Não sei doutora. Não sinto nada de anormal.
            - Já sentiu dor no peito, tontura...?
            - Nada. Nunca senti nem dor de dente.
            - Faz exercício físico?
            - Sim. No mínimo quatro vezes por semana. Musculação e treino muay thai – respondi convicto.
            - E quando se exercita, sente cansaço?
            - De jeito nenhum.
            - Estranho. Seu exame mostra um problema na válvula aórtica. E, provavelmente você já sofreu um infarto – sentenciou a jovem médica num tom grave.
             Recebi esse diagnóstico como um soco no estômago. Senti minha cabeça girar e a garganta fechar. Até então, só havia recebido elogios dos médicos. “Você tem uma saúde de ferro!” “Seu coração é de leão”, “tem fôlego de atleta...” Aos 51 anos, recebi aquela notícia como uma sentença de morte. E para completar, a médica ainda disse que eu teria que procurar um grande centro para fazer um cateterismo. “Talvez consiga resolver só com medicamento; talvez seja preciso colocar uma válvula para corrigir ou até mesmo haja a necessidade de fazer uma cirurgia”. Essas palavras martelavam em minha mente que nem conseguia mais ouvir as orientações da médica bonitona. “Evite frituras, carnes gordas... coma bastante fibras...” “Ora bolas, nos últimos 10 anos de minha vida tenho me alimentado corretamente. Cortei tudo o que faz mal... A única coisa que não cortei foi a cerveja nos finais de semana, e as vezes em excesso”, - pensei encabulado.
            Com o ânimo bastante abatido, fui para casa atordoado, mas sem demonstrar a ninguém meu estado de espírito. Passei uma semana tentando levar uma vida normal, mas só conseguia pensar em minha morte. Nunca tive medo de morrer, mas de repente, me dei conta de que ainda havia um monte de coisas a fazer, muitas coisas a realizar. “Que droga! Agora que tenho a oportunidade de dar minha contribuição para transformar a educação de Parauapebas, vou morrer?! Não vou ter a oportunidade de ser avô...” Um filme começou a rodar em minha cabeça. Lembrei das aventuras e loucuras que já aprontei nessa vida, dos perigos de morte que já corri, do meu gosto pelo perigo e, inevitavelmente, lembrei das inimizades que cultivei.
            Instintivamente, comecei a agir como se vivesse o último dia da minha vida. Coloquei as contas em dia, liguei para amigos distantes, adiantei reuniões de trabalho, conferi e-mails... Até conclui a revisão do meu livro sobre o Caminho de Santiago que estava meio a passos de tartaruga.
            Passado o momento do susto e da angústia, coloquei minha vida nos trilhos. Preenchi minha mente com bons pensamentos e passei a encarar a situação de outra maneira. “Ora bolas, o que tiver que ser, será. Vou lutar, vou procurar um bom médico, fazer o que for preciso para recuperar esse velho coração. Se eu escapar dessa, Glória a Deus! Se eu morrer, morrerei feliz, sabendo que esse foi um propósito de Deus que me conduziu até aqui com dignidade e felicidade”.
             

***

            Segunda-feira, 22 de abril. Dia da Terra. Às 8h em ponto estou no Hospital Santa Genoveva (Uberlândia) em completo jejum para fazer o cateterismo. Feito os procedimentos iniciais, sou conduzido a uma sala de cirurgia com equipamentos futuristas assustadores. O médico pergunta se eu já havia feito esse procedimento. Respondo que será a primeira vez.
            Fecho os olhos e concentro-me para não sentir nenhuma dor ou inconveniente. Treinei isso desde a juventude quando precisei tomar seis benzetacil, e tem dado certo. Por volta das 11 horas, escuto a voz do médico: “Senhor José Luiz, tenho boas notícias. Não há nenhuma obstrução de artéria. Seu coração está perfeito! Só uma veia que passa por dentro da aorta, dando a impressão que está obstruída. Um pequeno ‘defeito’ de fábrica que não compromete sua saúde. Você vai precisar de uma semana de repouso e depois vá para casa. Abra um bom vinho e comemore.”
            “Uma veia que passa por dentro da aorta” – penso intrigado. Esse meu coração tinha que ser mesmo diferente! Ainda bem que o médico não descobriu que é de pedra! Apenas um coração bobo! Ufa! Não será dessa vez. Vida que segue. Vida plena e abundante.

____

Observação: o editor do blog ganhou vida própria e resolveu bagunçar a edição. Vai assim mesmo.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

O QUE DIZER AOS PROFESSORES?

A SOCIEDADE, COM SEUS MAUS EXEMPLOS, DESFAZ NOS ALUNOS O ESFORÇO EDUCATIVO DOS PROFESSORES?


Enquanto o aluno permanece na vida da escola QUATRO horas por dia, esse mesmo aluno, na escola da vida, passa as demais VINTE horas...

* * *

Início de ano letivo. Secretarias de educação e Escolas realizam seus eventos de planejamento, diretrizes etc.

Há oito anos, em 28/01/2011, a convite de gestores e professores, estive em Açailândia (MA) para proferir palestra de encerramento de semana pedagógica.

O tema dado e desenvolvido: "Os Desafios do Educador na Sociedade Contemporânea".

Prevista para duas horas, a pedido dos professores o tempo da palestra quase duplicou.

Passeamos por subtemas como Qualidade, Ética, Política, Motivação, Cidadania, O Professor, A Escola, O Aluno, A Aprendizagem, A Sociedade, Os Desafios...

Não é fácil a tarefa do Educador: em diversos, repetidos, muitos casos, as mentes que ele tenta "organizar" dentro da escola serão daqui a pouco desorganizadas lá fora.

O professor educa, a sociedade deseduca: da política bandida à violência gratuita, dos lares desestruturados ao crime (bem) organizado, tudo em termos de péssimos exemplos transborda e envolve a criança, o jovem, o aluno, que terá, em última instância, de buscar em si mesmo e em raros modelos, a força e sabedoria para escolher certo entre o Bem e o Mal, o Bom e o Ruim, o Justo e o Injusto, o Valor e o Preço...

Foram horas de palestra. Disse e refleti junto com as dezenas e dezenas de educadores presentes, que me pagaram bem -- com real interesse, atenção e carinho -- o tempo, esforço e recursos que despendi para lhes falar sobre o me pediram. A atenção de quem escuta é o salário invisível de quem fala.

"Educação" vem de "ex-" + "ducere". Ação de conduzir para fora. Fazer vir à tona o saber potencial que se encontra dentro de cada aluno.

Tarefa dura: enquanto, no mais das vezes, o aluno permanece na vida da escola QUATRO horas por dia, esse mesmo aluno, na escola da vida, passa as demais VINTE horas.

Essas vinte horas dividem-se com o sono, a família, os vizinhos, os amigos, a igreja, o clube social, as festas ou outras formas de diversão, a cidade, as ruas...

Após o tempo na escola, como o processo socioeducativo, que se deveria iniciar na família, está ocorrendo nos demais "ambientes"? 

O que está "aprendendo" -- e "ensinando" -- esse aluno?

Escola 4 X 20 Outros ambientes

A concorrência é, mesmo, grande...

EDMILSON SANCHES

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

POBRES BANCOS

SE UM BANQUEIRO PULAR DO ALTO DE UM PRÉDIO, SIGA-O: ISSO DEVE DAR DINHEIRO...

Neste 31/01/2019, o banco Bradesco acaba de divulgar seu lucro líquido apenas nos três últimos meses de 2018 (outubro, novembro e dezembro). 

Pois bem: no quarto e último trimestre o lucro líquido (isto é, depois de descontadas todas as despesas, inclusive folha de pagamento dos funcionários) foi de R$ 5 BILHÕES E 830 MILHÕES, em números redondos, TREZENTOS MILHÕES DE REAIS a mais do que previam os analistas do mercado.

Por sua vez, o banco Santander anunciou lucro líquido, no mesmo período, de R$ 3 BILHÕES E 405 MILHÕES, mais de DUZENTOS MILHÕES DE REAIS a mais do que os analistas esperavam.

Já o banco Itaú, de janeiro a setembro de 2018 (três trimestres), já havia lucrado (lucro líquido) nada menos do que R$ 19 BILHÕES E 047 MILHÕES.

O Banco do Brasil, do Governo Federal, teve lucro líquido de R$ 9 BILHÕES E 470 MILHÕES DE REAIS nos primeiros nove meses de 2018 (1º, 2º e 3º trimestres).

A Caixa Econômica Federal, nos primeiros nove meses de 2018, teve lucro líquido de R$ 11 BILHÕES E 513 MILHÕES. Este valor já é quase igual a todo o lucro da Caixa em 2017, que foi de R$ 12,5 bilhões.

O Banco do Nordeste do Brasil, instituição financeira regional também do Governo Federal, teve lucro líquido de R$ 332 MILHÕES E 470 MIL de abril a setembro (2º e 3º trimestres) de 2018.

Alguém já escreveu que fundar ou afundar um banco, não importa: dá lucro.

Por outro lado, um provérbio da Suíça chega ao extremo de recomendar (simbolicamente, claro) que, se um banqueiro pular do alto de um prédio, deve-se segui-lo, pois isso com certeza dará dinheiro...

Enfim, se você quiser pegar mesmo em dinheiro, seja caixa ou dono de banco... 

Pois, pelo visto, não importa o tamanho da crise, o lucro das instituições financeiras será maior.

EDMILSON SANCHES 
edmilsonsanches@uol.com.br

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

FAKE NEWS - SINAL DE DEFORMAÇÃO DA PERSONALIDADE

"...a boca fala do que está cheio o coração". (Mateus 12:34).

Com a tragédia recente de Brumadinho, ficou claro como boa parte da população brasileira é sensacionalista e adora tragédias. Um dos sinais disso é o grande número de fake news que circula pela internet. E tem para todos os gostos: vídeo mostrando o momento exato que a barragem estourou, foto de mulher grávida na lama, foto de um homem sujo de lama abraçando um bombeiro, foto dos soldados israelenses chamando os bombeiros brasileiros para orar (essa foi foda), e outras bobagens a mais. Parece que as pessoas sentem uma necessidade mórbida de dar a notícia de qualquer jeito e a qualquer custo e sai compartilhando tudo o que vê pela frente.

Como nasce uma fake news?


Geralmente nasce de uma mente doentia e carente que sente a necessidade de espalhar mentira simplesmente pelo vício de mentir e/ou para ganhar likes na internet. Essa prática pode até render um bom dinheiro para essas pessoas. Assim, esses "gênios" do mal ficam horas construindo as notícias falsas e pesquisando a melhor forma de deixá-las atrativas. Geralmente elas começam com o termo "Bomba" ou outra expressão sensacionalista, e terminam com a ordem "compartilhem...".  Porém, essas notícias falsas precisam ser viralizadas, senão não cumprirão seus objetivos. E quem são os responsáveis pela viralização?  Quem são os agentes que se encarregam pela disseminação das notícias falsas? Infelizmente são a maioria absoluta dos brasileiros. Uma pesquisa recente publicada no Jornal Folha de São Paulo mostra que 90% dos eleitores do presidente eleito acreditam em fake news. Confira aqui. Isso é trágico e desesperador e demonstra o quanto nossa sociedade precisa rever seus conceitos.

Qual o perfil de quem espalha fake news?


Antes, eu afirmaria que as pessoas que compartilham notícias falsas eram pessoas ingênuas e de baixa escolaridade. Quem tem mais de 40 anos deve lembrar de quando aparecia debaixo da porta uma carta anônima com alguma mandinga (oração ou mensagem exotérica), dizendo que o receptor teria que fazer 30 cópias e enviar para 30 pessoas, senão uma desgraça aconteceria em 10 dias. Com o advento das redes sociais, isso se tornou brincadeira de criança inocente. Hoje, os fake news são responsáveis por eleição de presidente e até por assassinatos de inocentes. E já não é mais exclusividade de pessoas ingênuas e desescolarizadas. Encontramos desde o analfabeto até o doutor que pratica esse crime.

Há pesquisas que indicam que a pessoa que espalha fake news tem algum desvio de caráter. Na Bíblia Sagrada encontramos uma explicação para esse fenômeno: "a boca fala do que está cheio o coração". (Mateus 12:34). Esse versículo tem muita lógica. Uma pessoa que compartilha vídeo ou foto de criança violentada com a desculpa de que está repassando para alertar, tem grande chance de ter algum comportamento - mesmo inconsciente - de pedófilo. Quem espalha com frequência imagens de violência com aquela pérola - "Espalhe sem dó até chegar as autoridades", - geralmente tem um perfil violento. Os que espalham conteúdos com difamação contra homossexuais, por exemplo, tem grande chance de ser um homossexual reprimido e enrustido. Não me levem a mal. Essas são indicações de pesquisas sérias que publicarei aqui e não se trata de uma regra. 

Uma pessoa só compartilha uma notícia falsa quando essa notícia é conveniente com o seu pensamento. Portanto, seguramente, podemos traçar o perfil de uma pessoa pelo tipo de conteúdo que ela compartilha. Um fã do Bolsonaro por exemplo, quando depara com uma notícia negativa sobre ele, filtra a informação, julga que é falsa e, às vezes até busca as fontes e checa a veracidade, e não sai compartilhando, mesmo que seja verdadeira. Agora, se a notícia for contra o Lula, dispara a tecla de compartilhamento sem nenhuma checagem. O mesmo acontece com a maioria dos fãs do Lula.

Já escrevi nesse blog uma matéria sobre esse tema, onde batizei de "cavalo do cão eletrônico". Leia aqui. É claro que nem todo mundo que espalha fake tem desvio de personalidade ou deformação moral. Algumas notícias falsas são tão perfeitas que enganam até os mais criteriosos. Quem nunca espalhou uma, que atire a primeira pedra. Nos próximos posts deixarei algumas dicas de como se livrar dos fakes e não fazer o papel de cavalo do cão eletrônico.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

BRUMADINHO - QUANTO VALE UMA VIDA?

SILÊNCIO


Temos 26 letras e com elas já escrevemos todas as cartas de amor e todas as declarações de guerra. Com elas falamos as palavras mais suaves e também dissemos as mais ásperas. E todas essas letras e palavras são insuficientes para dizer da dor... da morte... Da tragédia que está abaixo e além da lama.

Temos 10 algarismos, do zero ao nove, e com eles fizemos todos as contas astronômicas e todos os cálculos microscópicos. Com eles construímos quantidades de fortunas pessoais, percentuais de lucros empresariais... ao lado dos números nacionais e mundiai de pobreza, fome, miséria humanas. E todos esses algarismos e números não são bastante para subtrair a morte, diminuir a dor...

Temos 7 notas musicais e com elas compusemos todas as sinfonias mais celestiais e todas as músicas-grude mais "infernais". Com essas notas musicais embalamos todas as cantigas de ninar a vida que nasce e também escrevemos em partituras todos os réquiens de chorar a vida que se (es)vai. E todas essas notas são poucas, muito poucas, para reproduzir o universo sonante e silencioso dos ais de dor de corações e almas que se partem ante a morte que vive em corpos sem vida...

Temos inúmeros modos e maneiras, jeitos e "jeitinhos", atos e atitudes, ritos e rituais para nos expressarmos ante o imponderável da tragédia, da morte, da agonia da dor, da perplexidade da perda. Mas tudo -- letras e palavras, algarismos e números, jeitos e maneiras, ritos e rituais --, tudo é nada ante a hora derradeira, o momento último, o instante extremo, o suspiro final.

Silêncio
silênci
silênc
silên
silê
sil
si
s
ssssssss! Corpos dormem... 

Deixem o silêncio gritar...

EDMILSON SANCHES
edmilsonsanches@uol.com.br